O Deus que molda o caráter é o mesmo Deus que dirige o destino.
Por Wal Cordeiro
Autor do livro As Sete Virtudes de um Líder Vitorioso

Há momentos em que a vida parece um vaso quebrado. Os sonhos racham. Os planos desmoronam. As lágrimas se misturam ao barro da nossa existência. Nesses dias, imaginamos que Deus tenha desistido de nós. Olhamos para nossas imperfeições e concluímos que não há mais conserto. Mas Deus nunca olha para o barro da mesma forma que nós. Enquanto enxergamos um monte de argila sem forma, Ele contempla um vaso pronto.
Enquanto vemos fracassos, Ele enxerga possibilidades.
Foi exatamente essa lição que Jeremias aprendeu quando Deus o levou à casa de um oleiro. Não a um palácio. Não a uma universidade. Não a um campo de batalha. Mas a uma oficina simples, onde um homem comum trabalhava silenciosamente diante de um torno. Ali não havia discursos. Havia barro. Havia mãos. Havia paciência. E havia Deus.
Jeremias observou o vaso se deformar diante dos seus olhos. Talvez esperasse que o oleiro o lançasse fora. Afinal, era isso que qualquer pessoa faria. Mas não aquele artesão. Sem irritação. Sem pressa. Sem desistir. Ele simplesmente reuniu novamente o barro e começou outra vez. Naquele instante, Deus falou ao coração do profeta:
“Como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão.” (Jeremias 18:6)
Que extraordinária revelação! Nosso Deus não trabalha com descartáveis. Ele trabalha com restauração. Pedro negou o Mestre. Davi caiu em pecado. Jonas fugiu do chamado. Moisés matou um homem. Paulo perseguiu a Igreja. E nenhum deles foi abandonado. O Oleiro nunca perdeu o controle da obra que havia iniciado.
Talvez você esteja vivendo exatamente essa fase. O torno está girando rapidamente. Você não entende os acontecimentos. Tudo parece fora do lugar. Mas existe uma verdade que nunca muda. Enquanto o torno gira…
As mãos permanecem firmes. As circunstâncias mudam. As notícias mudam. As pessoas mudam. Mas as mãos do Oleiro continuam sustentando a nossa vida. O profeta Jeremias nos apresenta Deus como o Oleiro.
A palavra hebraica utilizada é Yôts?r, derivada do verbo Yatsar, que significa formar, moldar, criar cuidadosamente e dar forma com propósito. É o mesmo verbo usado em Gênesis quando Deus formou Adão do pó da terra. O Senhor nunca faz uma obra improvisada. Ele trabalha cuidadosamente em cada detalhe da vida daqueles que pertencem a Ele.
Quando pensamos que essa é toda a história, Deus nos conduz para outro cenário. Saímos da oficina. Agora estamos nos campos verdejantes. O cheiro da argila dá lugar ao perfume da relva. O som do torno é substituído pela voz de um pastor. É Davi quem fala: “O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.” (Salmos 23:1)
Que mudança maravilhosa! O Deus que trabalhava escondido na oficina agora caminha conosco pelos caminhos da vida. O Oleiro molda. O Pastor conduz. O Oleiro usa as mãos. O Pastor usa a voz. O Oleiro transforma quem somos. O Pastor nos leva para onde devemos estar.
No hebraico, a palavra para pastor é Ro’eh, derivada do verbo Ra’ah, que significa apascentar, alimentar, conduzir, cuidar, proteger e governar. O pastor bíblico não era apenas alguém que guiava o rebanho. Ele vivia com as ovelhas, conhecia cada uma delas pelo nome e estava disposto a dar a própria vida para protegê-las. Foi exatamente essa imagem que Jesus utilizou ao declarar: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a vida pelas ovelhas.” (João 10:11)
As ovelhas não conhecem o caminho. Conhecem a voz. E isso basta. Quem conhece a voz do Pastor nunca está realmente perdido. Ele conduz para pastos verdejantes. Leva às águas tranquilas. Restaura a alma cansada. Protege no vale. Prepara uma mesa em meio aos inimigos. Sua presença muda completamente a paisagem da vida. Então percebemos algo extraordinário. O Deus da oficina é o mesmo Deus do campo.
O mesmo Senhor que trabalha em nosso interior também dirige nossos passos. Primeiro Ele transforma. Depois envia. Primeiro molda. Depois conduz. Primeiro quebra o orgulho. Depois entrega responsabilidade. Não existe liderança sem processo. Não existe ministério sem transformação. Não existe autoridade espiritual sem quebrantamento. Não existe destino preparado sem um caráter preparado.
Jeremias e Davi nos apresentam duas das mais belas imagens da graça divina. O Oleiro revela a transformação interior. O Pastor revela a direção diária. Em Cristo, essas duas figuras se encontram perfeitamente. Ele é o Oleiro que restaura vidas quebradas. Ele é o Pastor que conduz pecadores ao Pai. Na cruz vemos as mãos do Oleiro sendo feridas para restaurar o barro. Na ressurreição ouvimos novamente a voz do Pastor chamando Suas ovelhas para uma nova vida.
Talvez hoje você se sinta como barro amassado. Ou talvez como uma ovelha perdida. A boa notícia do Evangelho permanece a mesma. O Oleiro ainda trabalha. O Pastor ainda chama. Deus não terminou Sua obra. Enquanto houver barro em Suas mãos! Haverá esperança. Enquanto houver uma ovelha disposta a ouvir Sua voz! Sempre haverá um caminho de volta para casa. Porque o Deus que molda o caráter é exatamente o mesmo Deus que conduz o destino.
E as mãos que formam o vaso são as mesmas que jamais deixarão de conduzir a ovelha.
Sobre o autor
Wal Cordeiro é teólogo, missiólogo, escritor, palestrante e presidente do Instituto Oxente Social (IOS). É autor do livro As Sete Virtudes de um Líder Vitorioso, além de outras obras voltadas à liderança, missões e desenvolvimento humano. Atua na mobilização de igrejas, organizações e voluntários em projetos de transformação social e evangelização em diversas regiões do Brasil, unindo reflexão bíblica, ação missionária e compromisso com o Reino de Deus.
Artigo inspirado no sermão ministrado por Wal Cordeiro na Igreja Batista Memorial do Centenário “O Oleiro e o Pastor”, fundamentado em Jeremias 18:1–6 e Salmos 23:1–2.
