
Incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz, em fevereiro deste ano, que resultou na morte de dois militares, entre eles o suboficial baiano Carlos Alberto Vieira Figueiredo
O MPM (Ministério Público Militar) denunciou à Justiça militar na última quinta-feira o primeiro-sargento Luciano Gomes Medeiros sob acusação de homicídio culposo (em que não há a intenção de matar) e dano em instalações navais e em estabelecimentos militares em decorrência do incêndio na Estação Antártica Comandante Ferraz, em fevereiro deste ano, que resultou na morte de dois militares, entre eles o suboficial baiano Carlos Alberto Vieira Figueiredo.
A informação foi veiculada pelo jornal “Estado de S. Paulo” em sua edição de sábado. O processo está correndo em segredo de Justiça.
Segundo a denúncia do MPM, assinada pelo procurador da justiça militar Giovanni Rattacaso, por volta das 23h30 do dia 24 de fevereiro, Medeiros resolveu transferir o combustível que estava em tanques de armazenamento para dois tanques de serviço, que ficam próximos aos geradores de energia elétrica.
Ele abriu as válvulas de entrada de combustível e ligou a bomba de transferência. Como a operação demoraria cerca de 30 minutos para terminar, o primeiro-sargento dirigiu-se à sala de estar da base, onde ocorria uma confraternização de despedida de uma pesquisadora.
Medeiros teria permanecido na sala de estar até as 00h40, quando houve uma variação de energia elétrica. Ele teria voltado correndo à praça de máquinas, encontroando um incêndio já de grandes proporções.
Segundo o laudo da perícia, o militar não concluiu a transferência do combustível no tempo hábil e, por isso, os tanques de serviço transbordaram e o combustível, óleo diesel, entrou em contato com partes mais quentes do gerador que estava em funcionamento, provocando o incêndio.
O fogo destruiu cerca de 70% da base brasileira na Antártida. O prejuízo estimado é de quase R$ 25 milhões.
Em depoimento no Inquérito instaurado na Marinha, Medeiros afirmou que retornou à praça de máquinas 20 minutos após ter saído e que desligou a bomba de transferência de combustível.
As outras testemunhas que estavam na festa disseram, entretanto, que Medeiros permaneceu o tempo todo na sala de estar, retirando-se apenas quando as luzes piscaram e o incêndio já começara.
“A conduta imprudente do ora denunciado restou patente quando decidiu efetuar a transferência de combustível durante a noite, sozinho, sem autorização superior e sem comunicar tal fato a qualquer outra pessoa e, igualmente, quando se afastou do local, deixando de observar as normas de segurança”, escreveu o procurador.
Inocentes
Dois outros militares que haviam sido indiciados pelo incêndio na estação Comandante Ferraz foram considerados inocentes pelo MPM, que pediu o arquivamento do processo contra eles. Os militares seriam o comandante da estação, capitão de fragata Fernando Tadeu Coimbra, e o sargento João Cavaci, técnico em eletrônica.
Eles foram acusados de terem participação no não funcionamento do sistema de detecção de incêndios, que teria sido desligado em função da utilização de uma máquina de fumaça na festa.
‘Ele era um herói’, diz filho
Victor Longo
Um pai visto como um grande exemplo para os filhos, um profissional considerado excelente por colegas, um homem que fazia amigos por onde passava e um marido romântico. Assim era na visão da família o suboficial da Marinha Carlos Alberto Vieira Figueiredo, 47 anos, morto no incêndio em uma base militar de pesquisa brasileira na Antártida.
Baiano de Vitória da Conquista, Carlos Alberto fez jus à imagem de herói e morreu enquanto tentava combater o incêndio que destruiu 70% da Estação Antártica Comandante Ferraz.
“Eu cresci vestindo a farda do meu pai. Quando ele saía e deixava o uniforme no quarto, eu e meu irmão vestíamos. Eu cresci tentando copiá-lo, ele sempre será um herói para mim”, disse ao CORREIO o filho primogênito do subcomandante, Vinícius Figueiredo, de 25 anos.
“Sou oficial da Polícia Militar não porque ele pediu, mas porque tentei chegar a ser um pouco do que ele era”. Com 30 anos recém-completados de trabalho na Marinha, e de serviço na Antártida desde março de 2011, Carlos Alberto já estava prestes a se aposentar, em março, e já era esperado pela família – os filhos Vinícius e Vítor Figueiredo, de 20 anos, e a esposa Nilza Costa Figueiredo, de 44.
Romantismo
Segundo Vinícius, os pais eram muito unidos e se falavam todos os dias por Skype ou telefone. Na última conversa com a família, ele teria confirmado o retorno ao Brasil, dizendo que as malas já estavam prontas.
“Minha mãe está uma Julieta sem seu Romeu, pois ele era muito romântico; ela está muito abalada, sem condições de conversar”. Após a família ter sido informada sobre a morte de Carlos Alberto, Nilza ficou sob efeito de tranquilizantes.
fonte: Correio
