Redação CORREIO
Duas notas fiscais emitidas pela Mastermed Administradora de Planos de Saúde, que somam R$2.143.702,89, foram apreendidas pela Polícia Civil, na terça-feira (29), durante perícia no Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários do Estado. Os documentos serão confrontados pelo Departamento de Polícia Técnica com os dados do computador notebook do diretor-tesoureiro Paulo Roberto Colombiano dos Santos, 53 anos. Ele e a mulher Catarina Ascensão Galindo, 53, secretária do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foram assassinados na terça-feira, em Brotas.

Manoel Machado, presidente do Sindicato dos Rodoviários, depôs ontem pela manhã na delegacia
A intenção dos policiais é saber se a morte do casal está relacionada com supostas irregularidades do sindicato na arrecadação dos valores correspondentes à assistência médica dos rodoviários, conforme noticiou o CORREIO na edição de ontem. Fontes da Secretaria de Segurança Pública informaram que uma briga para elevar os rendimentos do sindicato pode ter sido o motivo do crime.
De acordo com próprios dirigentes, além das notas fiscais, foi apreendido o termo aditivo do contrato entre o sindicato e o plano de saúde. Também foram recolhidas várias caixas com documentos contábeis de 2008 a 2010, que também serão confrontados com dados do notebook e também com as três memórias de computadores da sala de Colombiano, também recolhidos para perícia.
DEPOIMENTO
Ontem (1º) pela manhã, o presidente do sindicato Manoel Machado prestou depoimento na Delegacia de Homicídios. Depois de ter sido ouvido pela delegada Maria Andrade, foi liberado e falou com a imprensa. “Até agora não podemos atualizar nada. A direção do sindicato está à disposição da polícia”. Sobre a investigação de uma possível irregularidade na arrecadação dos valores correspondentes à assistência, Machado afirmou novamente de que não tinha conhecimento. “Ele (Colombiano) não chegou a
comentar sobre nenhuma irregularidade durante as reuniões. O que estão dizendo por aí é leviano ”, declarou.
Machado disse que a delegada perguntou sobre as ameaças que vinham recebendo. “Disse a ela que eu e Colombiano fomos avisados pelos colegas de classe que estávamos jurados de morte. Os recados eram diversos: ‘Você vai cair’, ou do tipo: ‘Vocês não vão demorar muito no poder’”, declarou.
TRANSBORDO
O presidente do sindicato disse que ele e o colega morto não procuraram a polícia porque não tinham provas das intimidações. “Os comentários surgiram nas garagens e estações de transbordo, mas nada de concreto chegou até nós”.
Mesmo assim, Machado disse que adotou algumas medidas de segurança. “Andando com seguranças, mudo sempre o percurso para casa e o trabalho. Flexibilizei meus horários de trabalho”, contou. Ainda segundo o sindicalista, Colombiano não mudou a rotina porque acreditava que as ameaças não passavam de rumores. Disse ainda que tinha um bom relacionamento com a vítima e acredita no trabalho da polícia.
“Todos nós estamos indignados com a morte brutal do companheiro, que era um pessoa atuante e querida. O sindicato está de luto e só voltará a funcionar na segunda”. Questionado sobre as origens das intimidações, Machado respondeu: “Elas foram intensificadas após a decisão judicial que favoreceu a nossa chapa no ano passado”.
Ainda ontem pela manhã, a titular da Delegacia de Homicídios Francineide Moura, agora presidente do inquérito que apura o caso, limitou-se a dizer que já foram colhidos depoimento de familiares e amigos de Colombiano e de pessoas ligadas ao sindicato. “Estamos investigando e todas as informações estão concentradas com o delegado- chefe”. Também procurada pela imprensa, a delegada Fernanda Porfírio, da 6ª Delegacia, nos Galés, disse que todas as informações serão passadas pela assessoria de comunicação da Secretaria de Segurança Pública.
A morte de Colombiano e da mulher aconteceu a poucos metros do Conjunto Catavento, onde o casal residia.Eles chegavam em casa em um Sportage, na rua Teixeira Barros, quando dois homens numa moto se aproximaram e dispararam. Colombiano morreu com sete perfurações de pistola ponto 40. Catarina foi atingida com um único disparo na têmpora.
Eleições com homens armados
Um dos depoimentos marcados para ontem, o do diretor administrativo do sindicato, Ubirajara Sales, acabou não acontecendo. O sindicalista será ouvido apenas na Delegacia de Homicídios, na próxima terça-feira. Enquanto aguardava, no entanto, Ubirajara contou que, após a morte de Colombiano mudou a rotina e que todos os integrantes da entidade têm vivido um dia a dia de pânico.
“Até a confirmação da eleição, no ano passado, pela Justiça, muitas ameaças e tentativas de intimidação foram feitas pelos integrantes das chapas concorrentes, principalmente a Chapa 4. Depois, parou, mas veio coisa pior. Esse duplo homicídio, que está alterando o nosso dia a dia”, explicou o diretor.
Ele lembrou ainda que, após o indício de fraude na primeira eleição para a presidência do sindicato, em novembro do ano passado, foi realizado novo pleito, mas com um fato novo: a presença de homens armados nas garagens das empresas de ônibus. “Foi ostensivo. Confusão nas eleições acontecem sempre. Mas, dessa vez foi além da conta. Tinham homens armados e intimidando os rodoviários”, disse.
Em novembro, houve denúncia do desvio das urnas de números 4, 5 e 6, durante o transporte dos votos de Porto Seguro para Eunápolis. Só em maio, seis meses depois, a Justiça confirmou o resultado e deu à Chapa 1, da qual Colombiano fazia parte, a vitória.
ONDA
“Desde que esse pessoal do Rio e de São Paulo chegou aqui, querendo entrar na disputa, que essa onda de pânico se instalou. A polícia deveria investigá-los a fundo, já que eles não têm um histórico positivo naquela região”, acusa se referindo a sindicalistas da Chapa 4.
O diretor social do órgão, que preferiu não se identificar, também esteve na delegacia e confirmou que levou documentos para entregar à delegada Francineide Moura. Segundo ele, lá contém informações sobre o funcionamento do sindicato, podem ajudar a indicar pistas dos autores ou dos mandantes do crime.
“Foram três horas e 29 minutos de depoimento. Acho que eu pude contribuir com alguma coisa. Mas, infelizmente, não posso dar detalhes. A delegada disse que as informações são importantes e que podem ajudar nas investigações. Espero que tudo dê certo e que a polícia descubra logo quem foi”, explicou.
Parentes dão depoimentos emocionados
Além dos dois diretores do sindicato, parentes de Paulo Colombiano e de Catarina Galindo também estiveram na delegacia. Muito nervosos, eles não quiseram dar entrevistas. De acordo com investigadores, a primeira mulher de Colombiano, com quem ele teve três filhos, foi uma das pessoas ouvidas. Eles contaram que ela estava
muito tensa e emocionada.
Já a filha de Catarina, Ana Paula, também foi ouvida. O depoimento dela precisou ser interrompido algumas vezes devido ao nervosismo. De acordo com um policial, até a delegada foi alvo da tensão da jovem. Francinede Moura e os investigadores do caso passaram mais de três horas com cada um deles.
Os filhos de Paulo também estiveram na delegacia, mas os depoimentos deles não foram confirmados. A polícia já ouviu também a contadora de Colombiano e mais dois funcionários do sindicato, que trabalham ligados diretamente com o diretor-tesoureiro.
