Correio da Bahia
O cenário é de um massacre e o cheiro da carnificina está impregnado no ar de São Bento do Inhatá. Dezenas de corpos espalhados pelas propriedades, cadáveres deixados na beira da estrada e uma comunidade inteira estarrecida. A única diferença dessa para outras chacinas é que, em vez de seres humanos, as vítimas foram 47 cães, um gato e três galinhas. De tabela, um urubu que resolveu se banquetear com a carniça acabou aumentando a conta de mortos.
O extermínio cruel ocorreu na última sexta-feira, nas localidades de Bângala e Bolandeira, em São Bento do Inhatá, distrito de Amélia Rodrigues, a 84 quilômetros de Salvador. O autor, ao contrário de suas vítimas, é um animal racional. Supostamente.
Pior: além de ser humano, o acusado é ex-prefeito da cidade
vizinha, Conceição do Jacuípe, e tem uma fazenda em São Bento do Inhatá. Dezenas
de testemunhas descrevem o momento em que, usando uma motocicleta tipo “Biz”, o
fazendeiro João Barros de Oliveira, conhecido como João de Roque, circulou pela
região e cometeu o massacre.
O serial killer não escolheu raça, tamanho ou cor. Com uma
luva e um saco amarelo cheio de carne, arremessou as ‘iscas’ envenenadas sobre
muros e cercas dos terrenos. A carne, segundo moradores, era de um boi que João
teria matado só para cometer o “cãocídio”. O que motivou tal atitude? Os
moradores acreditam que o simples fato de alguns cães vizinhos terem atacado um
dos seus bezerros. Quando perceberam o que João fazia, os moradores avisaram a
PM. Tarde demais.
O veneno colocado pelo criminoso nos pedaços de carne era tão
forte que, ao comer os restos mortais dos cachorros, um urubu morreu. Algumas
pessoas passaram mal, inclusive um policial militar. Em protesto, donos de
cachorros jogaram seus animais na propriedade de João de Roque. Um cão foi
pendurado na cancela da fazenda.
Indignação
O funcionário do sítio que fica defronte
à propriedade de João de Roque não segurou as lágrimas quando lembrou do
vira-lata Wel, um dos cachorros que não resistiu ao veneno. Ontem de manhã,
Agnaldo alimentou só o pastor preto Hulk e o outro vira-lata, Scooby. “Quando vi
que Wel não estava mais com a gente, não aguentei. Ele era especial. O nosso cão
de guarda. Muito triste ver ele vomitando até morrer”, disse, aos prantos.
O dono do sítio, o administrador Raimundo das Neves, também
estava desolado. “Minha filha chorou a manhã inteira. Era como se fosse da
família”. Apesar do medo de uma retaliação, o funcionário não conteve a raiva.
“Sei que corro risco de vida, que ele tem dinheiro, mas a gente não pode deixar
isso impune”.
Mas nenhuma dor era como a de Jacira dos Santos, 64 anos. A
aposentada perdeu sete cães na matança. “Biscuí”, “Latoia”, “Jack Chan”,
“Preta”, “Zóio Furado”, “Quatro Ôio” e “Raquele” se estribucharam antes de
morrer. “Latoia veio babando em cima de mim com aquela carinha de quem pede
socorro, sabe?”, conta dona Jacira, ainda chocada.
“Sargento”, de apenas um mês de vida, foi um dos
sobreviventes. Órfão, perdeu a mãe, a cadela “Raquele”. Já “Pintada” tinha
acabado de ter ninhada de oito cachorrinhos. Envenenada, resistiu. Mas não pode
amamentar. “Ela ainda está tremendo. Pode passar para os filhotes”.
Medo
Ainda há pedaços de carne espalhados por aí. Agora, o
maior temor dos moradores é de que crianças entrem em contato com o veneno. O
comerciante João José Pires, o Dendê, que perdeu o Pit Bull “Preto”, teme que
seu outro cachorro também morra. “Salvei ele dando leite e azeite doce. Já
chorei a morte de um animal. Não quero chorar de novo. Alguém tem que recolher
tudo isso”, sugeriu.
Defesa
Apesar das testemunhas oculares,
o fazendeiro e ex-prefeito de Conceição do Jacuípe negou ao CORREIO todas as
acusações. “Não sei por que estão me acusando disso. Vou apurar e depois te
respondo. Eu tenho cachorro. Gosto de animais”, garantiu, por telefone, João de
Roque, que não mais apareceu em Amélia Rodrigues. “Ele tem que ser muito homem
pra voltar aqui no São Bento”, disse um morador.
Na propriedade que há mais de 20 anos mantém em São Bento do
Inhatá, João de Roque cria gado, porcos e galinhas. “A família sempre teve
posses e poder. Um homem como ele acha que pode passar por cima de tudo e
todos”, afirmou a vereadora Maria Quitéria Ferreira, que teve o poodle
“Guguinha” morto na chacina.
Polícia recolhe carne para fazer perícia
Passava
das 11h de ontem, quase quatro dias depois do massacre, e o carro do
Departamento de Polícia Técnica (DPT) finalmente se dirigiu para onde tudo
ocorreu. Os policiais tinham a companhia do secretário de Agricultura e Meio
Ambiente da prefeitura, Mário Augusto Filho. No local, foram recolhidos pedaços
de carne enviados para a perícia, em Salvador.
Ainda não se sabe que tipo de veneno foi usado. O delegado
José Antônio Costa disse que ainda vai ouvir o acusado e os donos de cachorros.
João de Roque pode responder por crime de maus-tratos previsto na lei ambiental
9605/98. Se punido, pode pegar de três meses a um ano de prisão. ONGs de
proteção animal prometem ação coletiva de indenização por danos morais.
