CORREIO

O clima de medo se instalou no povoado de Genipapo, na zona rural de Crisópolis, a 215 quilômetros de Salvador depois que cinco homens encapuzados assassinaram sete lavradores da região na noite de sexta-feira.
“Eles (os criminosos) disseram que vão voltar. Tô com tanto pânico que até quando alguém chega perto de mim dentro de casa fico assustada”, descreve Elisabete Dantas, 56, sogra do lavrador Abelardo Xavier de Jesus, 44, uma das vítimas da chacina. “A gente nem dorme de noite de tanto medo e preocupação”, relata José João Bispo, 53, pai de Evanildo Dantas, que também foi morto.

Além deles, os lavradores José Milton Xavier, 32, José do Monte, 66, Silvado Neves, 39, Jorge Batista, 42, e o adolescente Ailton Moraes da Silva, 16 anos, foram executados com tiros na nuca enquanto bebiam e jogavam dominó em frente à casa de Abelardo.  Ontem pela manhã, os corpos das vítimas foram sepultados nos cemitérios dos povoados de Genipapo, Mãe Maria e Cacimba do Saco.

De acordo com o delegado Ricardo Costa, titular da 2ª Coordenadoria de Polícia do Interior (Coorpin), em Alagoinhas, a 108 quilômetros da capital, a motivação e a autoria do crime são desconhecidas. “As investigações estão em andamento, mas até o momento não há suspeitos”.

Parentes dos lavradores contam que os assassinos chegaram em um Fiat Siena prata atirando para o alto. “Gritaram: ‘polícia, polícia!’. Mandaram as mulheres fechar portas e janelas e obrigaram eles a deitarem de bruços. Tava ali a filinha”, aponta Elisabete para o local onde os lavradores foram mortos.

Campana 

Segundo um morador, que pediu para não ser identificado, o Siena já circulava pela região há alguns dias. “Eles (os criminosos) estavam estudando a área. Ninguém foi lá à toa”, afirma.

De acordo com ele, um dos filhos de Abelardo – não identificado pelo morador -, além das vítimas Jorge e Sivaldo eram envolvidos com roubos de motos e tráfico de drogas em Crisópolis.

“Esses três deviam fazer parte de uma quadrilha e passaram a perna nos caras que vieram cobrar. Abelardo dava cobertura ao filho que conseguiu escapar pelo fundo da casa quando os assassinos chegaram. Os caras eram ‘quiabos’, lisos, e escapavam de várias situações. Mas tinha gente lá que estava no lugar errado e morreu inocente”, define.

Em Crisópolis, um morador, que também pediu para não ser identificado, emenda: “Tinham uns dois no meio que eram ‘sem futuro’”, diz, sem citar os nomes.
Por pouco
Um primo de Abelardo ressalta que a tragédia poderia ter sido maior. “Tinha uns quatro minutos que eu saí do local e os caras chegaram. Por pouco não entrei na roda. Quando ouvi os caras gritando ‘polícia! Mãos pra cima, vagabundos’, corri para casa. Depois só vi a tragédia”.

A avó de Evanildo, dona Maria Carmosina, 70 anos, brada: “Eu não aguento ouvir isso. Essa gente toda é minha gente. Todos trabalhavam e não viviam em coisa errada”.

Sentada na varanda de casa, desolada, a mãe de José Milton, a lavradora Florentina Ferreira, 65, desabafa: “Ele nunca me deixou sozinha. Só nesse dia que me largou para sempre. Aqui, as pessoas tinham o costume de caçar passarinho, mas agora quem tá virando passarinho é o povo”, disse, chorando.
A vítima deixa a esposa grávida de cinco meses e uma filha de 7 anos. “Ele estava feliz e cheio de planos para reformar a casa”, diz Daiana Páscoa, 21, mulher dele.

Já o lavrador José do Monte, conhecido como Zeca, tinha voltado da caça e parou para beber com os amigos. “Os assassinos disseram: ‘velho safado! Gosta de andar armado, né? Deita aí no chão que você também vai morrer”, conta a viúva Elvira Neves do Monte, 60.

Segundo ela, Zeca tinha voltado de São Paulo há dois anos. “Ele gostava de trabalhar com a terra e visitava a gente duas vezes por ano”. Os parentes de Jorge e Sivaldo não foram localizados.

Abaladas, famílias agora querem justiça
A demora de Ailton Moraes da Silva, 16 anos, em voltar para casa preocupou seus pais, os lavradores Antônio José da Silva, 55, e Genivalda Moraes Alves, 50. “Ele nunca chegava depois das 6h30 (18h30). Ninguém dormiu depois que passou da hora dele chegar. Nesse dia ele foi de moto”, conta a mãe.
A notícia da morte do filho veio por telefone. “Foi assim que ficamos sabendo. Essa tragédia abalou o nosso mundo. Meu filho não andava com malandragem. Além de estudar, ele trabalhava comigo. Me acabei chorando que já não tenho mais lágrimas”, lamenta o pai do adolescente.

No momento do crime, Ailton correu para a casa de Abelardo e se escondeu debaixo da cama, mas foi arrastado para fora do imóvel. “Ele ia dormir aqui porque já estava tarde para voltar para casa e no sábado ia trabalhar”, lembra a esposa de Abelardo, a lavradora Teresa Dantas, 41.

Já Evanildo Dantas, 20 anos, deixaria o povoado de Genipapo nos próximos dias. “Ele ia trabalhar de pedreiro em Alagoinhas daqui a 20 dias. Em agosto se apresentaria no Exército. Meu filho era um ‘tipão’. Nunca tive nenhuma queixa sobre o comportamento dele”, atesta a mãe dele, a lavradora Evalda Dantas, 41. O pai da vítima, o lavrador José João Bispo dos Santos, 53, quer providências. “Não vamos deixar a morte do meu filho passar assim. Ele era um menino excelente, se dava bem com todos e foi morto injustamente”.

Na varanda da casa onde morava com a família, os parentes de Evanildo passaram todo o dia de ontem refletindo sobre a chacina. “Não dá para acreditar. Tanta gente inocente morrendo dessa forma.  A gente ouve falar dessas coisas, mas nunca pensa que pode acontecer por perto”, disse a mãe.

Compartilhe