“Se não se comportar bem, Papai Noel não vai te dar presente!” Foi apenas dessa forma que, depois de muito grito e estresse, Fernanda Lopes, de 2 anos, enxugou as lágrimas e parou de chorar. Aliviada, a mãe Valéria Lopes conseguiu enfim um pouco de paz. A famosa chantagem natalina é uma arma que se faz muito presente no processo educacional.
Nesta época do ano, muitos pais se apoiam na imagem do bom velhinho para conseguir se livrar, sem muito escândalos, das manhas e birras. Com medo de não serem presenteados, as crianças repensam o mau comportamento do ano todo e tornam-se anjinhos. Pelo menos até o dia 25 de dezembro.
O que parece ser uma excelente forma de evitar conflitos e educar pode trazer, futuramente, consequências negativas para as crianças. De acordo com a psicóloga e diretora de uma escola infantil, Regina Tacla, “esse processo de pular a fase de educar e utilizar a chantagem para ensinar formará um adulto distante da realidade, que não sabe respeitar regras. E na vida real, se ele não se adaptar as normas será marginalizado e excluído da sociedade”.
Além disso, os pais podem comprometer a figura satisfatória do Papai Noel. Diante da chantagem, o bom velhinho pode ser tornar um “mau velhinho” para as crianças. O Papai Noel Edson Correia diz que diversas mães pedem a ele que reafirme a chantagem feita anteriormente por elas. Mas Edson conta que as crianças se assustam: “Quando falo na possibilidade delas não serem presenteadas, caso elas sejam mal comportadas, os pequenos geralmente me olham assustados”.
Outro ponto importante ressaltado por Regina é que a chantagem tende a sempre aumentar. “Quando se fala em chantagem, vem a mente um processo de compra e venda. E como estamos falando de crianças, essa ‘compra’ vai aumentando dia a dia e se tornar um tormento para os pais”, completa Regina.
Diferente do que os pais imaginam, chantagear não é a mesma coisa que negociar. Na hora de educar, eles devem escolher a segunda opção, já que a chantagem é uma forma de ameaça, o que pode transformar a relação pai e filho em algo baseado na desconfiança e receio. Ao contrário da negociação, que é uma troca satisfatória para ambos.”Qualquer comportamento que os pais almejarem deve ser negociado, desde os pequenos detalhes’, explica REgina.
Ela ainda afirma que as maiores consequências da educação chantagista aparecem na vida adulta: “O adulto apresentará dificuldades de se adaptar a leis, a regras e a valores da sociedade e até de convivência com as pessoas”.
Para desarmar uma criança chantagista, a psicóloga afirma que o primeiro passo é a auto-análise dos pais: “Eles devem se questionar como lindam com os próprios limites. Se os pais não souberem aceitar seus limites, dificilmente conseguirão passá-los aos filhos”.
Não importa qual seja a época do ano, se é Natal ou um dia comum, a chantagem é carta fora do baralho quando o assunto é educação. “Afinal, aguentar um chantagista é uma tarefa infernal”, complementa Regina. Eband
