ALTAMIRA (PA) – Protegida pelas águas turvas do Rio Xingu e por frondosas árvores nativas da Amazônia, a pequena aldeia Paquiçamba, dos índios juruna, é o retrato fiel do dilema que atinge o oeste do Pará. A tribo, de 83 pessoas, decidiu se separar fisicamente por causa de divergências sobre o projeto da Hidrelétrica de Belo Monte, prevista para ser leiloada terça-feira. Metade da aldeia, inclusive o cacique Manuel, de 70 anos, vê com bons olhos a construção da usina, de 11.233 megawatts (MW). A outra ala, um pouco mais jovem, não pode nem ouvir falar do empreendimento, que custará R$ 19 bilhões.

Hélvio Romero/AE 

A briga começou quando o cacique, que no passado discordava do projeto, decidiu apoiar publicamente a hidrelétrica, sem consultar os demais integrantes da tribo, conta Ozimar Juruna, de 41 anos, contrário à construção. “Ele ficou iludido com as promessas feitas pelas empresas (responsáveis pelo projeto). Nós, que sabemos ler e falar português, entendemos que a obra será um desastre para a aldeia.”

Quinze famílias devem acompanhar o novo grupo, que terá outro cacique no comando. Será Giliarde, o sobrinho do atual chefe da tribo. No dia em que a reportagem do [BOLD]Estado[/BOLD] visitou Paquiçamba, o cacique Manuel estava fora, colhendo castanhas na mata. Mas, com tanta polêmica, seu genro Claudio resolveu amenizar o discurso do sogro: “Ele não é contra nem a favor”.

A aldeia está localizada na Volta Grande do Xingu, a cerca de 40 quilômetros de Altamira. Com a construção da barragem e dos dois canais de derivação, a vazão do rio vai diminuir, podendo comprometer a única via de transporte das comunidades ribeirinhas até Altamira. É no município que eles vão a médicos, dentistas e fazem seus negócios, como a venda de peixes e castanhas.

“A vida já é difícil por aqui por causa da distância até a cidade e pode ficar ainda mais complicada com Belo Monte”, teme Ozimar, que tem oito filhos. Apesar das dificuldades e das recentes discussões, a tribo tem um dia a dia tranquilo. Os homens caçam, pescam e trabalham na roça, colhendo castanha, arroz, feijão e mandioca. As mulheres cuidam da casa e dos filhos, que ainda desfrutam das diversões que o Xingu lhes oferece. Enquanto as mães lavam a roupa na beira do rio, eles brincam dando cambalhotas na água.

Tristeza

Na outra margem do Xingu, mais uma aldeia vive atormentada pelas ameaças de Belo Monte. É a tribo Arara, que aproveita o momento delicado para recuperar as tradições dos antepassados, perdidas ao longo dos anos, como a adoção de nomes indígenas para as crianças. As lições vêm do índio mais velho da aldeia, Leoncio Ferreira Arara, de 72 anos. Ele é avô de José Carlos, o cacique da tribo, um dos mais ativos na luta contra Belo Monte.

Embora não saiba ler nem escrever, Leoncio é um homem sábio, de memória irreparável. Sabe de cor todos os períodos críticos do Rio Xingu, seja na seca ou na cheia. “Por isso digo que essa usina vai acabar com nossas vidas aqui. Belo Monte virou minha grande tristeza.” Sua esperança é que o neto, um índio calmo e muito bem articulado, consiga barrar a hidrelétrica.

Mas, se depender de alguns moradores de Altamira e região, os sonhos de Leoncio podem não se realizar. O movimento que apoia Belo Monte conta com empresários, políticos e moradores das cidades influenciadas pelo projeto. Para esse grupo, a usina é o único caminho para desenvolver a região.

Eles acreditam que muitos investidores virão para a cidade por causa do projeto. “Já há algumas sondagens no município. Mas a decisão de fechar negócio só vai ocorrer depois que o leilão for realizado”, diz o empresário Waldir Antonio Narzetti. Ele confessa, no entanto, que o grupo, batizado de Fort Xingu, anda meio nervoso com o movimento da oposição, que conta com apoio de personalidades estrangeiras – como o cineasta James Cameron e a atriz Sigourney Weaver, que visitaram as tribos indígenas semana passada.

Alheio ao glamour hollywoodiano, o pescador Raimundo dos Santos Martins, de 47 anos, só quer saber de uma decisão rápida para pôr em prática seus planos. Ele mora com a mulher e mais 11 filhos e netos numa pequena casa de madeira na zona rural de Vitória do Xingu. Sua moradia está bem no meio da área que será alagada pela hidrelétrica e, portanto, será removida.

Em troca, o projeto prevê a entrega de uma nova casa numa vila que será construída pelo vencedor do leilão ou a indenização. Martins já tomou sua decisão: “Quero receber o dinheiro para comprar uma chácara na beira do rio. Sou pescador há 37 anos. Não posso ficar longe da água”, diz ele, que é favorável à usina. “Cresci ouvindo falar de Belo Monte. Acredito que trará melhorias para o povo.”

Bem perto da casa de Martins, o pequeno Rômulo da Silva Costa, de 12 anos, não quer saber de vila nem de indenização. “Aqui tem vários lugares para brincar. Não quero ir para outro lugar”, diz o garoto, enquanto carrega madeira num carrinho de mão. Em cada comunidade, há opiniões para todos os gostos.

Há quem seja a favor, contra ou aqueles que apenas rezam para que ocorra o melhor, sem fazer grandes comentários. “Não tem como ser contra ou a favor. Eles vão fazer mesmo”, diz a capixaba Izete Celestino de Souza, que chegou à comunidade de Belo Monte há 20 anos, com sete filhos e o marido, num pau de arara. “Diziam que aqui era uma maravilha. Cheguei e não tinha nada. Quase matei meu marido.”

O rumo na vida de todas essas pessoas deverá ser definido terça-feira, 30 anos depois do primeiro estudo da usina. Isso se nenhuma nova liminar impedir o leilão. 

Estadão