Acordamos ontem com a estarrecedora notícia sobre o terremoto no Chile, a qual veio junto com a notícia sobre o tremor também no Japão. Estávamos nos preparando para mais um dia de atividades, onde nossa tarefa da manhã seria ir com Peterson (O diretor da JOCUM Haiti), orar sobre um terreno que lhes foi proposto para doação. A Equipe pioneira está aqui desde o terremoto e resolveu se implantar de vez como base na Capital Port Au Prince (PaP). Como costumeiramente fazemos, pulamos todos nas traseiras das pick ups e fomos para nossa aventura matinal. Digo aventura mais pelo ao fato de sermos conduzido através do caótico transito local, sem leis e com regras próprias individuais, tipo: Você decide, ou quem for menos responsável, acelera primeiro e…dê no que der!.  Durante o percurso nos perdemos umas quatro vezes entrando e saindo de ruas muito similares, isso porque tínhamos um guia que conhecia o caminho, mas, os sinais que lhe eram familiares antes do terremoto, foram todos alterados.

Ao chegarmos finalmente no lugar, um terreno plano de mais ou menos 30 mil metros quadrados, em meio á poucas casas, e de vizinhança bem pobre, deparamos com algumas pessoas que mediam o terreno e outros que já haviam amontoado seus materiais de construção. Soubemos se tratar de grileiros que estão se tornando comuns por aqui. Esses aproveitadores vendem as terras que não são suas, principalmente aquelas que pertencem a estrangeiros que se ausentaram temporariamente do país devido ao terremoto. Essa atitude, porém, não reflete a atitude dos Haitianos que é notoriamente muito coletiva e amável.

Quando a tensão já nos parecia que terminaria em no mínimo fortes argumentos verbais, várias mães e crianças da comunidade notaram a presença de um dos membros de nossa equipe (Wesley) que se encontrava deitado no assoalho da caminhonete. Ele havia batido as costas na lateral da pickup durante outra viagem e sofria com fortes dores, porém, se esforçou em ir orar conosco naquele que seria o lugar da base de JOCUM PaP. Como se fossem uma só pessoa portadora de muitas vozes e de ações sinérgicas, cada um da comunidade se prontificou a diagnosticar e dar opiniões sobre o estado de saúde dele. Rápidos como um piscar de olhos agiram pronta e voluntariamente, e quando notamos realmente do que se tratava, já estavam na caçamba massageando as costas do Wesley com a única pedra de gelo que tinham (soubemos disso depois).

Tão rápido quanto os haitianos em se prontificar a socorrer o Wesley, foi nossa equipe, e abro parêntesis (que equipe!), rapidamente chamou todas as crianças para uma roda com uma isca infalível para os pequeninos aqui..histórias e brincadeiras, essa linguagem é mesmo universal. Aquelas carinhas sorridentes olhavam atentas  enquanto várias brincadeiras criativas e evangelizadoras lhes faziam brilhar os olhos, os quais se quedavam imóveis enquanto assistiam as criatividades inclusivas daquele que talvez tenha sido o único grupo que visitara a sua pequena e quase imperceptível comunidade, para quem apenas passa pela rodovia.

Voltamos de lá com os corações muitíssimo gratos a Deus por nos permitir ter esta oportunidade de mais uma vez aprender como viver contentes em toda e qualquer situação.

Voltamos jubilosos ao acampamento montado no campo de futebol de um orfanato, o qual em si, já é uma história a parte.

Pela noite fomos à base da Mission Rescate, uma clinica multifuncional, com atendimento médico, distribuição de alimentos, roupas, entretenimento e cultos ao ar livre. Esta base operacional temporária foi estabelecida pela JOCUM de República Dominicana. Foi lá que nossa primeira equipe ficou acampada e fez sua base operacional.

A noite já começou com um imenso desafio, pois chovia muito. Esse foi o primeiro dia que pegamos chuva forte, e eu me lembrava do buraco das latrinas que havíamos passado um dia inteiro tirando a água no qual já havíamos encontrado uma mina d´agua a qual se tornou um problema sério. E agora com a chuva…sem chance!. Vamos ter que ser criativos e estudar outra forma para as latrinas.

Chegamos na Mission Rescate já um pouco molhados pela chuva. Mas o culto começou assim mesmo. Antes que percebêssemos várias crianças já estavam do lado de fora da tenda acompanhando freneticamente a melodia com pulos e danças regado por um sorriso peculiar e característico.  Peterson e seus obreiros haitianos lideraram o louvor em Crioulo (a língua de seu coração). Nossa equipe, como sempre muito atenta, entrou na dança, acompanhando as coreografias dos baixinhos e ensinando passos de danças e as vezes apenas movimentos criados na hora, mais foi muito bom.

Encerramos o culto e o dia cantando em crioulo, juntamente com todos ali fora da tenda, literalmente inundados, por fora pela chuva, e por dentro pela presença de Deus.

Foi indescritível. Ali, em frente ao palácio presidencial em escombros, debaixo de uma chuva contínua, abraçados com nossos amigos haitianos, os quais, não apenas tem recebido nosso amor e carinho, mas tem igualmente nos abençoado com sua simpatia e inclusão, saímos todos com a alma lavada.  Eles amam os brasileiros.

Amados, essa é nossa hora no tempo do Haiti.
Wellington Oliveira
Em nome da segunda equipe de JOCUM-Brasil no Haiti

Fundador da JOCUM Rio de Janeiro, e pioneiro em Maringá-PR, Wellington Olivera é o atual presidente de Jovens Com Uma Missão no Brasil.