O número de casos de dengue no Brasil dobrou em relação aos dois primeiros meses do ano passado, mas ainda está abaixo do registrado em janeiro e fevereiro de 2007, quando houve o último grande surto da doença no país.
Como a contabilização do Ministério da Saúde, divulgada ontem em Brasília, só incluiu dados registrados até o dia 13, o Rio Grande do Sul aparece com apenas 28 infectados – bem abaixo dos 345 casos notificados desde o dia 22 em Ijuí, foco da contaminação no Estado.
O levantamento também subestima o impacto da enfermidade em São Paulo e no Paraná. Embora cite 2.930 contágios entre os paulistas, a realidade é bem mais assustadora, ultrapassando os 7 mil enfermos. Entre os paranaenses, os 1.861 casos endossados pelo ministério estão aquém das 3 mil notificações feitas até o fim da semana.
Apesar de obsoletos, os resultados comprovam a escalada da dengue no país e reforçam a necessidade de combate ao Aedes aegypti. Em comparação com os primeiros 60 dias de 2009, o índice de infectados aumentou 109,4% este ano. Embora estejam abaixo dos 135,4 mil casos registrados no mesmo período de 2007, especialistas acreditam que, até o fim deste mês, a marca seja igualada.
Questionado sobre os motivos do insucesso na erradicação da doença, o coordenador-geral do Programa Nacional de Controle da Dengue, Giovanini Coelho, disse que o crescimento “preocupa”, mas negou que haja uma epidemia no Brasil.

– Algumas variáveis podem explicar esse aumento, como a questão das chuvas e das altas temperaturas – disse.
Outro fator que pode estar contribuindo para o problema, segundo Coelho, é a circulação de um tipo de dengue conhecido como DEN-1, que apareceu com maior intensidade na década de 90 e depois sumiu. Quem não contraiu a doença naquela época, tem mais chance de se contaminar agora.

– Muita gente não está imunizada contra o sorotipo DEN-1, em especial crianças e adolescentes – afirma Coelho.

Para o chefe do serviço de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Luciano Goldani, a explicação para a incapacidade do governo em eliminar a moléstia tem relação com as características climáticas e socioeconômicas do país. De um lado, o Brasil é marcado pelo clima tropical, ideal para a reprodução dos transmissores. De outro, por imensos bolsões de miséria, onde o acúmulo de lixo é um prato cheio para as larvas.

Na opinião do professor de Epidemiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jair Ferreira, o drama só terá fim quando surgir uma vacina eficaz. A má notícia é que ainda deve levar pelo menos cinco anos para que chegue ao mercado.
Enquanto isso, o Ministério da Saúde anunciou que reforçará a batalha nos cinco Estados que concentram 71% dos casos divulgados ontem. O Rio Grande do Sul, por apresentar índices mais baixos, por enquanto não é prioridade.

*Colaborou Leticia Luvison
Zero Hora

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