{"id":8810,"date":"2010-05-06T08:31:22","date_gmt":"2010-05-06T11:31:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=8810"},"modified":"2010-05-06T08:31:22","modified_gmt":"2010-05-06T11:31:22","slug":"artigo-curando-almas-a-arte-esquecida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/05\/06\/artigo-curando-almas-a-arte-esquecida\/","title":{"rendered":"Artigo: Curando Almas: a Arte Esquecida"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por: Eugene Peterson<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>No desafio de liderar uma igreja, algo de essencial foi ignorado.<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright\" title=\"alma\" src=\"http:\/\/palavrasdacoral.blogs.sapo.pt\/arquivo\/sofrimento.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"213\" \/>Pode haver uma reforma em andamento na maneira como os pastores realizam o seu trabalho. Ela pode revelar-se t\u00e3o significativa quanto a reforma teol\u00f3gica do s\u00e9culo XVI. Espero que sim. Os sinais n\u00e3o param de se acumular.<\/p>\n<p>Os reformadores recuperaram a doutrina b\u00edblica da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9. A proclama\u00e7\u00e3o \u2013 fresca, pessoal e direta \u2013 do evangelho, atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, tornou-se uma imenso e pesada engrenagem: mecanismos teol\u00f3gicos elaboradamente planejados, roldanas, niveladores produzindo ru\u00eddo com seu atrito para, no final, resultar em algo completamente trivial. Os reformadores recuperaram a paix\u00e3o pessoal e a clareza t\u00e3o evidentes nas Escrituras. Esta redescoberta do envolvimento \u00edntimo resultou em frescor e vigor.<\/p>\n<p>A reforma vocacional do nosso pr\u00f3prio tempo (caso se trate disso) \u00e9 uma redescoberta do trabalho pastoral de curar almas. A frase soa antiga, o que ela \u00e9 de fato. Mas n\u00e3o obsoleta. Ela designa, melhor do que qualquer outra express\u00e3o de que eu tenha conhecimento, por um lado o combate incessante contra o pecado e a tristeza, e, por outro, o cultivo dedicado da gra\u00e7a e da f\u00e9 ao qual os melhores pastores t\u00eam se consagrado a cada gera\u00e7\u00e3o. A sonoridade esquisita da frase pode at\u00e9 apresentar uma vantagem: chamar a aten\u00e7\u00e3o para o fato de qu\u00e3o distantes as rotinas pastorais da atualidade se tornaram.<!--more--><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou o \u00fanico pastor que descobriu esta antiga identidade. Mais e mais pastores est\u00e3o abra\u00e7ando esta forma de trabalho pastoral e considerando-a um caminho leg\u00edtimo. N\u00e3o somos muitos e n\u00e3o somos maioria. E tampouco somos uma minoria destacada. Mas, um a um, os pastores est\u00e3o rejeitando o pedido de trabalho que lhes foi entregue e preferindo este novo \u2013 ou, como parece ser o caso, o antigo tem sido usado durante quase todos os s\u00e9culos Crist\u00e3os.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fantasia pensar numa \u00e9poca em que os n\u00fameros alcan\u00e7ar\u00e3o uma massa cr\u00edtica e produzir\u00e3o uma reforma vocacional dentre os pastores. Mesmo em caso negativo, me parece a coisa mais significativa e criativa acontecendo no minist\u00e9rio pastoral dos dias de hoje.<\/p>\n<p>O trabalho da semana<\/p>\n<p>O que os pastores fazem no domingo \u00e9 diferente do que eles fazem entre os domingos. Aquilo que fazemos nos domingos n\u00e3o mudou muito ao longo dos s\u00e9culos: proclamar o evangelho, ensinar as Escrituras, celebrar os sacramentos, oferecer preces. O trabalho entre um domingo e outro, por sua vez, mudou radicalmente, e n\u00e3o no sentido de um progresso, mas de uma deser\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 mais ou menos um s\u00e9culo atr\u00e1s, o que os pastores faziam entre os domingos consistia em uma parte daquilo que eles faziam aos domingos. O contexto mudou: ao inv\u00e9s de uma congrega\u00e7\u00e3o reunida, o pastor se reunia com uma pessoa ou com um pequeno grupo, ou fazia seus estudos e ora\u00e7\u00f5es at\u00e9 mesmo sozinho. A maneira mudou: no lugar da proclama\u00e7\u00e3o, era a conversa. Mas o trabalho era o mesmo: descobrir o significado das Escrituras, desenvolver uma vida de ora\u00e7\u00e3o com o objetivo de orientar o crescimento em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o trabalho pastoral que foi historicamente definido como a cura das almas. O sentido b\u00e1sico de &#8220;cura&#8221; em latim \u00e9 &#8220;cuidado&#8221;. A alma \u00e9 a ess\u00eancia da personalidade humana. Neste sentido, a cura das almas consiste, pois, no cuidado orientado pelas Escrituras e modelado pela ora\u00e7\u00e3o, e voltado a indiv\u00edduos ou grupos, seja em contextos sagrados ou profanos. Trata-se, pois, da determina\u00e7\u00e3o de se trabalhar o centro, de se concentrar sobre o essencial.<\/p>\n<p>O trabalho entre domingos dos pastores norte-americanos neste s\u00e9culo, entretanto, \u00e9 administrar uma igreja. Ouvi esta frase pela primeira vez durante minha ordena\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s 25 anos, ainda consigo lembrar da impress\u00e3o desagrad\u00e1vel que ela deixou em mim.<\/p>\n<p>Eu viajava em companhia de um pastor pelo qual tinha muito respeito. Eu estava cheio de entusiasmo e expectativas, antecipando minha vida pastoral. Minha convic\u00e7\u00e3o interior da chamada ao pastoreio estava prestes a ser confirmada por outras pessoas. O que Deus desejava que eu fizesse, o que eu queria fazer e o que os outros queriam que eu fizesse estavam em ponto de converg\u00eancia. A partir de uma leitura razoavelmente extensa de pastores e padres do passado, eu me impressionava com o fato de que a vida pastoral tinha como preocupa\u00e7\u00e3o primeira o desenvolvimento de uma vida de ora\u00e7\u00e3o entre as pessoas. Liderar a devo\u00e7\u00e3o, pregar o evangelho e ensinar as Escrituras aos domingos desenvolveria, nos seis dias seguintes, a representa\u00e7\u00e3o da vida de Cristo durante o tr\u00e2nsito humano do dia-a-dia.<\/p>\n<p>Enquanto minha mente estava repleta destes pensamentos, meu amigo pastor e eu paramos em um posto de gasolina. Ele, uma pessoa greg\u00e1ria, discutiu com o frentista. Algo relacionado ao troco provocou a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;O que voc\u00ea faz?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu lidero uma igreja&#8221;.<\/p>\n<p>Nenhuma resposta teria me surpreendido mais. Eu sabia, claro, que a vida pastoral inclu\u00eda responsabilidades institucionais, mas nunca me ocorrera que eu viria a ser definido por tais responsabilidades. Mas no momento em que fui ordenado, descobri que eu era definido tanto pelos pastores e executivos ao redor quanto pelos paroquianos em volta de mim. A primeira tarefa submetida a mim omitia completamente a ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto minha identidade pastoral estava sendo moldada por Greg\u00f3rio e Bernardo, Lutero e Calvino, Richard Baxter de Kidderminster e Nicolau Ferrara de Little Gidding, George Herbert e Jonathan Edwards, John Henry Newman e Alexander Whyte, Phillips Brooks e George MacDonald, o trabalho pastoral havia sido quase completamente secularizado (exceto os domingos). Eu n\u00e3o gostava disso e decidira, ap\u00f3s um per\u00edodo de confus\u00e3o, em que me encontrava desorientado, que ser um m\u00e9dico de almas era mais importante do que administrar uma igreja, e que eu seria orientado em minha voca\u00e7\u00e3o pastoral pelos s\u00e1bios predecessores e n\u00e3o pelos meus contempor\u00e2neos. Felizmente, encontrei aliados ao longo do caminho e a prontid\u00e3o dos meus paroquianos para me ajudar a aperfei\u00e7oar minhas tarefas pastorais.<\/p>\n<p>Cumpre esclarecer que a cura das almas n\u00e3o \u00e9 uma forma especializada de minist\u00e9rio (an\u00e1loga, por exemplo, ao capel\u00e3o de hospital ou ao conselheiro pastoral), mas a atividade pastoral por excel\u00eancia. N\u00e3o se trata de um estreitamento da atividade pastoral em dire\u00e7\u00e3o aos seus aspectos devocionais, mas um modo de vida que recorre \u00e0s tarefas, encontros e situa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia como mat\u00e9ria-prima do ensinamento da ora\u00e7\u00e3o, do desenvolvimento da f\u00e9 e da prepara\u00e7\u00e3o para a morte. Curar almas \u00e9 um termo que filtra aquilo que \u00e9 introduzido pela cultura secular. Tamb\u00e9m \u00e9 um termo que nos identifica aos nossos ancestrais e aos nossos colegas de minist\u00e9rio, leigos e cl\u00e9rigos, que est\u00e3o convencidos de que uma vida de ora\u00e7\u00e3o \u00e9 o tecido de liga\u00e7\u00e3o entre a proclama\u00e7\u00e3o do dia santo e o discipulado do dia-a-dia.<\/p>\n<p>Um aviso: eu costumo distinguir a cura de almas da tarefa de administrar uma igreja, mas n\u00e3o quero ser mal compreendido. N\u00e3o me orgulho de liderar uma igreja, assim como n\u00e3o desprezo a import\u00e2ncia da tarefa. Eu mesmo administro uma h\u00e1 mais de 20 anos. Tento fazer o meu melhor.<\/p>\n<p>Eu encaro a tarefa da mesma maneira com que cuido da casa junto \u00e0 minha esposa. Existem muitas coisas que fazemos cotidianamente, muitas vezes (mas nem sempre) com prazer. Mas n\u00f3s n\u00e3o administramos uma casa; o que fazemos \u00e9 construir um lar, desenvolver um matrim\u00f4nio, educar as crian\u00e7as, praticar a hospitalidade, exercitar uma vida de trabalho e lazer. \u00c9 \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da vida pastoral a tarefas institucionais que eu me oponho, n\u00e3o \u00e0s tarefas em si, que eu orgulhosamente compartilho com outras pessoas na igreja.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 o caso, obviamente, de desafiar teimosamente as expectativas das pessoas e levar adiante de maneira exc\u00eantrica o labor pastoral, como um cura do s\u00e9culo XVII, ainda que aquele cura pudesse ser de longe mais sensato do que o cl\u00e9rigo atual. O resgate deste trabalho pastoral essencial entre domingos deve ser empreendido em tens\u00e3o com as expectativas secularizadas da nossa \u00e9poca: deve haver negocia\u00e7\u00e3o, discuss\u00e3o, experimenta\u00e7\u00e3o, confronto, adapta\u00e7\u00e3o. Os pastores que se dedicam \u00e0 dire\u00e7\u00e3o de almas devem realizar a tarefa no meio das pessoas que esperam que eles cuidem de uma igreja. Numa tens\u00e3o determinada e af\u00e1vel com aqueles que nos prescrevem irrefletidamente orienta\u00e7\u00f5es de tarefas, podemos, estou convencido disso, recuperar nosso trabalho pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, os pastores que reivindicam o vasto territ\u00f3rio da alma como sua responsabilidade preeminente, n\u00e3o o conseguir\u00e3o indo fazer um treinamento profissional. Temos de aprender na pr\u00e1tica, em nossa pr\u00f3pria profiss\u00e3o, pois n\u00e3o somos apenas n\u00f3s mesmos, mas tamb\u00e9m o nosso povo que estamos de-secularizando. A tarefa da recupera\u00e7\u00e3o vocacional \u00e9 uma reforma t\u00e3o teol\u00f3gica quanto intermin\u00e1vel. Os detalhes variam conforme o pastor e o p\u00e1roco, mas existem tr\u00eas \u00e1reas de contraste entre cuidar de uma igreja e a cura de almas com a qual estamos familiarizados: iniciativa, linguagem e problemas.<\/p>\n<p>Iniciativa<\/p>\n<p>Liderando uma igreja, eu tomo a iniciativa. Eu me adianto \u00e0 fun\u00e7\u00e3o. Tomo responsabilidade pela motiva\u00e7\u00e3o e pelo recrutamento, por mostrar o caminho, por fazer as coisas acontecerem. Caso contr\u00e1rio, as coisas so\u00e7obram. Tenho consci\u00eancia da tend\u00eancia \u00e0 apatia, da suscetibilidade humana \u00e0 indol\u00eancia, e eu uso minha posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a para evitar isso.<\/p>\n<p>Em contraste, a cura de almas \u00e9 uma consci\u00eancia cultivada de que Deus j\u00e1 tomou a iniciativa. A doutrina tradicional que define esta verdade \u00e9 a previd\u00eancia: Deus sempre toma a iniciativa. Ele faz as coisas acontecerem. Foi e sempre dele a primeira palavra. A previd\u00eancia \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que Deus trabalha diligente, estrat\u00e9gica e redentoramente, mesmo antes de eu aparecer em cena, mesmo antes de eu tomar consci\u00eancia de que havia algo para eu fazer aqui.<\/p>\n<p>A cura de almas n\u00e3o \u00e9 indiferente \u00e0s realidades da letargia humana, ing\u00eanua em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 recalcitr\u00e2ncia congregacional, ou desatenta \u00e0 teimosia neur\u00f3tica. Mas existe uma convic\u00e7\u00e3o determinada e disciplinada de que tudo (eu quero dizer tudo mesmo) \u00e9 uma resposta \u00e0 primeira palavra de Deus, ao seu ato inicial. N\u00f3s aprendemos a ficar atentos \u00e0 a\u00e7\u00e3o divina j\u00e1 em andamento, de modo que o Verbo outrora inaudito de Deus seja ouvido, e o seu ato ignorado, percebido.<\/p>\n<p>Perguntas relacionadas ao cuidar de uma igreja: O que faremos? Como podemos fazer as coisas funcionarem?<\/p>\n<p>Perguntas relacionadas ao curar as almas: O que Deus tem feito aqui? Quais tra\u00e7os de gra\u00e7a posso discernir nesta vida? Que hist\u00f3ria de amor eu posso ler neste grupo? O que Deus colocou em movimento de modo que eu possa dar continuidade?<\/p>\n<p>N\u00f3s nos equivocamos e distorcemos a realidade quando tomamos a n\u00f3s mesmos como ponto de partida e nossa situa\u00e7\u00e3o atual como o crit\u00e9rio fundamental. Ao inv\u00e9s de confrontar a condi\u00e7\u00e3o humana deca\u00edda e tomar a iniciativa de recuper\u00e1-la sem perda de tempo, n\u00f3s nos voltamos \u00e0 previd\u00eancia divina e descobrimos como podemos fazer as coisas acontecerem no momento certo, do jeito certo.<\/p>\n<p>A cura de almas exige tempo para que se leia os minutes da \u00faltima reuni\u00e3o, na qual eu provavelmente n\u00e3o estava presente. Quando me detenho em uma conversa, quando me re\u00fano com um comit\u00ea ou quando visito um lar, estou conduzindo algo que j\u00e1 est\u00e1 em processo h\u00e1 muito, muito tempo. Deus sempre foi e sempre ser\u00e1 a realidade central deste processo. A convic\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 de que Deus &#8220;h\u00e1 muito se antecipou \u00e0 minha alma&#8221; (God is &#8220;long beforehand with my soul.&#8221;) Deus j\u00e1 tomou a iniciativa. Como algu\u00e9m que chega atrasado para uma reuni\u00e3o, eu adentro uma situa\u00e7\u00e3o complexa em que Deus j\u00e1 proferiu palavras decisivas e j\u00e1 tomou decis\u00f5es sumamente importantes. Meu trabalho n\u00e3o \u00e9 necessariamente anunciar isto, mas descobrir o que ele est\u00e1 fazendo e viver apropriadamente de acordo com isso.<\/p>\n<p>Linguagem<\/p>\n<p>Na igreja, eu uso uma linguagem que \u00e9 descritiva e motivacional. Eu quero que as pessoas fiquem informadas para n\u00e3o haver mal-entendidos. E quero que as pessoas estejam motivadas para fazer as coisas acontecerem. Mas no tocante \u00e0 cura das almas eu estou muito mais interessado em saber quem elas s\u00e3o e quem elas est\u00e3o se tornando em Cristo, do que estou interessado no que elas sabem e no que est\u00e3o fazendo. Neste quesito eu logo percebo que nem a linguagem descritiva nem a linguagem motivacional ajudam muito.<\/p>\n<p>A linguagem descritiva \u00e9 uma linguagem &#8220;sobre&#8221;, ela nomeia o que existe; orienta-nos na realidade. Ela torna poss\u00edvel encontrarmos nosso caminho em meio a labirintos. Nossas escolas se especializam em nos ensinar esta linguagem. A linguagem motivacional \u00e9 uma linguagem &#8220;para&#8221; \u2013 ela recorre \u00e0 palavra para fazer as coisas acontecerem. Comandos s\u00e3o transmitidos, promessas feitas, solicita\u00e7\u00f5es encaminhadas. Tais palavras fazem com que as pessoas fa\u00e7am coisas que n\u00e3o fariam por iniciativa pr\u00f3pria. A ind\u00fastria da propaganda \u00e9 o exemplo mais h\u00e1bil desta arte ling\u00fc\u00edstica.<\/p>\n<p>Por mais indispens\u00e1veis que sejam estas formas de linguagem, existe outra, t\u00e3o essencial \u00e0 humanidade quanto \u00e9 fundamental para a vida da f\u00e9. Trata-se da linguagem pessoal. Atrav\u00e9s dela, recorremos \u00e0s palavras para nos expressar, para conversar, para nos relacionarmos. Esta \u00e9 uma linguagem &#8220;para&#8221; e &#8220;com&#8221;. O amor \u00e9 oferecido e recebido, id\u00e9ias s\u00e3o desenvolvidas, sentimentos s\u00e3o articulados, sil\u00eancios s\u00e3o honrados. \u00c9 a linguagem que utilizam, espontaneamente, as crian\u00e7as, os amantes, os poetas e os fi\u00e9is que rezam. Ela est\u00e1 expressivamente ausente quando tomamos conta de uma igreja \u2013 h\u00e1 tanto a se dizer e a se fazer que n\u00e3o sobra tempo nem ocasi\u00e3o para que se fa\u00e7a presente.<\/p>\n<p>Curar almas \u00e9 uma decis\u00e3o de se trabalhar o cora\u00e7\u00e3o das coisas, onde somos n\u00f3s mesmos da maneira mais plena e onde nossos relacionamentos atrav\u00e9s da f\u00e9 e da intimidade s\u00e3o desenvolvidos. A linguagem prim\u00e1ria deve ser, portanto, &#8220;para&#8221; e &#8220;com&#8221;, a linguagem pessoal do amor e da ora\u00e7\u00e3o. A voca\u00e7\u00e3o pastoral n\u00e3o se d\u00e1 primeiramente numa escola onde os assuntos s\u00e3o ensinados, nem em quart\u00e9is onde for\u00e7as de ataque s\u00e3o empregadas contra o mal (&#8220;nor in a barracks where assault forces are briefed for attacks on evil&#8221;), mas dentro da fam\u00edlia \u2013 o lugar onde o amor \u00e9 ensinado, onde se d\u00e1 o nascimento, onde a intimidade \u00e9 aprofundada. A tarefa pastoral consiste em adotar a linguagem apropriada para este aspecto fundamental da humanidade \u2013 n\u00e3o uma linguagem que descreve, nem que motiva, mas uma linguagem espont\u00e2nea: queixas e exclama\u00e7\u00f5es, confiss\u00f5es e aprecia\u00e7\u00f5es, palavras que o cora\u00e7\u00e3o pronuncia.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos, obviamente, muito o que ensinar e muito o que fazer, mas nossa tarefa principal \u00e9 ser. A linguagem fundamental da cura de almas, portanto, \u00e9 a conversa e a ora\u00e7\u00e3o. Ser pastor implica aprender a utilizar uma linguagem em que a singularidade pessoal e a santidade individual \u00e9 reconhecida e respeitada. Trata-se de uma linguagem calma, sem pressa e sem press\u00e3o, tranq\u00fcila \u2013 a linguagem vagarosa dos amigos e dos amantes, que \u00e9 tamb\u00e9m a linguagem da ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Problemas<\/p>\n<p>Enquanto cuido de uma igreja, tenho que resolver problemas. Sempre que duas ou mais pessoas se juntam, os problemas aparecem. Os egos s\u00e3o feridos, os procedimentos se complicam, os acordos tornam-se confusos, os planos s\u00e3o distorcidos, os temperamentos se acirram. Existem problemas de pol\u00edtica interna, conjugais, profissionais, familiares, emocionais. Algu\u00e9m tem de interpretar, explicar, desenvolver novos planos e melhores procedimentos, organizar e administrar. A maioria dos pastores gosta de fazer isso, e eu me incluo entre eles. \u00c9 gratificante ajudar a tornar macios os lugares pedregosos.<\/p>\n<p>A dificuldade consiste em que os problemas surgem num fluxo t\u00e3o constante que a solu\u00e7\u00e3o acaba se tornando um trabalho de tempo integral. Por ser \u00fatil e pelo pastor geralmente conseguir fazer isso bem, n\u00e3o conseguimos enxergar que a voca\u00e7\u00e3o pastoral foi subvertida. Gabriel Marcel escreveu que a vida n\u00e3o \u00e9 tanto um problema a ser resolvido quanto um mist\u00e9rio a ser explorado. Esta \u00e9 certamente a mensagem b\u00edblica: a vida n\u00e3o \u00e9 algo que podemos martelar e moldar, deixando exatamente do jeito que queremos; ela \u00e9 uma d\u00e1diva inexplic\u00e1vel. Estamos imersos em mist\u00e9rios: o amor inacredit\u00e1vel, o mal enganador, a Cria\u00e7\u00e3o, a Cruz, a Gra\u00e7a de Deus, Deus.<\/p>\n<p>A mente secularizada se aterroriza mediante os mist\u00e9rios. Ent\u00e3o, ela faz listas, rotula as pessoas, distribui fun\u00e7\u00f5es, resolve problemas. Mas uma vida &#8220;resolvida&#8221; \u00e9 uma vida reduzida. Tais indiv\u00edduos engravatados jamais correm grandes riscos ou apresentam um discurso convincente sobre o amor. Eles negam ou ignoram os mist\u00e9rios e reduzem a exist\u00eancia humana a algo pass\u00edvel de ser administrado, controlado, consertado. Vivemos um culto aos especialistas que explicam e resolvem. O vasto aparato tecnol\u00f3gico que nos rodeia d\u00e1 a impress\u00e3o de que para tudo existe uma ferramenta, que s\u00f3 precisamos ter condi\u00e7\u00f5es financeiras de adquirir. Os pastores que desempenham o papel de tecn\u00f3logos espirituais t\u00eam dificuldades em evitar que este papel absorva outras coisas, j\u00e1 que h\u00e1 muitas coisas que precisam e podem, de fato, ser consertadas.<\/p>\n<p>Mas &#8220;existem coisas&#8221;, escreveu Marianne Moore, &#8220;cuja import\u00e2ncia vai al\u00e9m dessas ninharias&#8221;. O antigo guia de almas garante a prioridade do &#8220;al\u00e9m&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s &#8220;ninharias&#8221; do aqu\u00e9m. Quem est\u00e1 dispon\u00edvel para este trabalho sen\u00e3o os pastores? Alguns poetas, talvez; e as crian\u00e7as, sempre. Mas as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o bons guias, e a maioria dos nossos poetas perderam o interesse em Deus. Isto faz dos pastores os guias em dire\u00e7\u00e3o aos mist\u00e9rios. Vivemos, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo, vivemos com a nossa consci\u00eancia, nossas paix\u00f5es, nossos vizinhos, e nosso Deus. Qualquer vis\u00e3o estreitada dos nossos relacionamentos n\u00e3o corresponder\u00e1 \u00e0 complexidade da nossa realidade humana.<\/p>\n<p>Se os pastores se tornam se comprometem a tratar cada crian\u00e7a como um problema a ser decifrado, cada esposa como um problema que exige reconcilia\u00e7\u00e3o e todo conflito de vontades no coro ou no comit\u00ea como um problema a ser julgado, assim n\u00f3s abdicamos da parte mais importante do nosso trabalho, a saber, orientar a devo\u00e7\u00e3o em meio ao tr\u00e1fego cotidiano, descobrir a presen\u00e7a da Cruz nos paradoxos e no caos de entre os domingos, chamar a aten\u00e7\u00e3o para o &#8220;esplendor contido no ordin\u00e1rio&#8221; e, acima de tudo, ensinar uma vida de ora\u00e7\u00e3o aos nossos amigos e companheiros de peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eugene Peterson \u00e9 pastor na Christ Our King United Presbyterian Church (Igreja Presbiteriana Unida Cristo Nosso Rei), localizada na cidade de Bel Air, em Maryland, EUA.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Eugene Peterson No desafio de liderar uma igreja, algo de essencial foi ignorado. Pode haver uma reforma em andamento na maneira como os pastores realizam o seu trabalho. Ela pode revelar-se t\u00e3o significativa quanto a reforma teol\u00f3gica do s\u00e9culo XVI. Espero que sim. Os sinais n\u00e3o param de se acumular. Os reformadores recuperaram a doutrina b\u00edblica da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9. A proclama\u00e7\u00e3o \u2013 fresca, pessoal e direta \u2013 do evangelho, atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, tornou-se uma imenso e pesada engrenagem: mecanismos teol\u00f3gicos elaboradamente planejados, roldanas, niveladores produzindo ru\u00eddo com seu atrito para, no final, resultar em algo completamente trivial. Os&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[4,6],"tags":[3818,2831,3819,11],"class_list":["post-8810","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-noticias","tag-alma","tag-artigo","tag-cura-interior","tag-igreja"],"acf":[],"views":762,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8810","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8810"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8810\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8811,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8810\/revisions\/8811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8810"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8810"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8810"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}