{"id":69508,"date":"2015-10-12T14:47:08","date_gmt":"2015-10-12T17:47:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=69508"},"modified":"2015-10-12T14:47:08","modified_gmt":"2015-10-12T17:47:08","slug":"20-meses-apos-inauguracao-porto-brasileiro-gera-frustracao-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2015\/10\/12\/20-meses-apos-inauguracao-porto-brasileiro-gera-frustracao-em-cuba\/","title":{"rendered":"20 meses ap\u00f3s inaugura\u00e7\u00e3o, porto &#8216;brasileiro&#8217; gera frustra\u00e7\u00e3o em Cuba"},"content":{"rendered":"<p>Na casa de paredes \u00e1speras e sem pintura que divide com a mulher e os dois filhos, o pescador Juan Alberto Valdez Rodriguez se lembra de quando as carro\u00e7as e bicicletas que trafegam pela vizinhan\u00e7a deram lugar a uma longa fila de carros escoltados por viaturas policiais.<\/p>\n<p>A passagem da comitiva &#8211; que inclu\u00eda a presidente Dilma Rousseff e outros dois l\u00edderes sul-americanos &#8211; se devia \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o, em janeiro de 2014, da maior obra em <a class=\"premium-tip\" href=\"http:\/\/g1.globo.com\/tudo-sobre\/cuba\/\">Cuba<\/a> desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1959, a reforma do porto de Mariel. A cargo da empreiteira brasileira Odebrecht, a obra contou com um empr\u00e9stimo de US$ 802 milh\u00f5es (R$ 3,1 bilh\u00f5es) do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social).<\/p>\n<p>&#8220;Achei que depois daquele dia tudo mudaria: ter\u00edamos mais dinheiro, mais oportunidades, mais investimentos&#8221;, diz Rodriguez, morador de uma vila vizinha ao porto, a 40 quil\u00f4metros da capital Havana.<\/p>\n<p>A reforma de Mariel foi uma etapa crucial da maior aposta do governo Ra\u00fal Castro para atrair investimentos estrangeiros e estimular a economia cubana: a cria\u00e7\u00e3o de uma zona econ\u00f4mica especial numa \u00e1rea de 465 quil\u00f4metros quadrados vizinha ao porto, projetada para abrigar um parque industrial e um centro log\u00edstico.<\/p>\n<p>A moderniza\u00e7\u00e3o do porto deixou muitos moradores de Mariel esperan\u00e7osos de que a cidade de 40 mil habitantes, at\u00e9 ent\u00e3o um modesto entreposto comercial bastante dependente de recursos estatais, viveria dias mais pr\u00f3speros.<!--more--><\/p>\n<p>Vinte meses ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o de Mariel e a cria\u00e7\u00e3o da zona especial, por\u00e9m, Rodriguez e v\u00e1rios outros moradores disseram \u00e0 BBC Brasil que quase n\u00e3o houve benef\u00edcios para a cidade e que continuam a lidar com problemas comuns a outros pontos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea vai buscar comida no mercado, n\u00e3o h\u00e1. Se vai buscar frango, n\u00e3o h\u00e1. Dinheiro, n\u00e3o h\u00e1. Aqui n\u00e3o h\u00e1 nada&#8221;, afirma o pescador.<\/p>\n<p>Embora o porto j\u00e1 esteja funcionando a pleno vapor e a reaproxima\u00e7\u00e3o entre Cuba e os Estados Unidos tenha feito muitos empres\u00e1rios voltarem as aten\u00e7\u00f5es para a ilha caribenha, at\u00e9 agora nenhuma ind\u00fastria se instalou na zona especial.<\/p>\n<p>Para analistas, a manuten\u00e7\u00e3o do embargo econ\u00f4mico dos Estados Unidos e as complexas regras para investimentos estrangeiros em Cuba fazem com que empres\u00e1rios resistam a investir em Mariel.<\/p>\n<p>J\u00e1 a ag\u00eancia que administra a \u00e1rea diz que sete empresas &#8211; duas estatais cubanas e cinco pequenas companhias estrangeiras (nenhuma do Brasil) &#8211; tiveram seus projetos aprovados e come\u00e7ar\u00e3o a operar ali em 2016.<\/p>\n<p><strong>Financiamento &#8216;secreto&#8217;<\/strong><br \/>\nO financiamento do BNDES ao porto de Mariel se tornou objeto de disputa na \u00faltima campanha presidencial brasileira. Pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o, entre os quais o ent\u00e3o candidato tucano A\u00e9cio Neves, condenaram o repasse de dinheiro p\u00fablico brasileiro \u00e0 obra.<\/p>\n<p>Na inaugura\u00e7\u00e3o do porto, Dilma afirmou que Mariel simbolizava a &#8220;amizade duradoura&#8221; entre Brasil e Cuba. Em dezembro passado, ela disse que o an\u00fancio de que Washington e Havana retomariam os la\u00e7os diplom\u00e1ticos refor\u00e7aram a import\u00e2ncia da obra &#8220;para a regi\u00e3o e para o Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>Em nota \u00e0 BBC Brasil, o BNDES diz que o empr\u00e9stimo &#8211; com prazo de 25 anos para ser quitado &#8211; vem sendo pago normalmente e gerou empregos e receitas no Brasil, tendo mobilizado uma &#8220;extensa cadeia de fornecedores de bens e servi\u00e7os nacionais&#8221;. Segundo o banco, o ritmo de outras obras associadas ao empreendimento &#8220;n\u00e3o comprometem a pertin\u00eancia e o cumprimento dos objetivos&#8221; do financiamento.<\/p>\n<p>A Odebrecht afirma que j\u00e1 encerrou seus trabalhos no porto e que est\u00e1 estudando op\u00e7\u00f5es de investimento na zona especial.<\/p>\n<p><strong>Segunda revolu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nPara alguns moradores, \u00e9 quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que Mariel e Cuba sintam os benef\u00edcios dos novos empreendimentos.<\/p>\n<p>Na pra\u00e7a \u00e0 beira da ba\u00eda da cidade, o pedreiro aposentado Pedro Antonio Rodrigues, 83 anos, aponta para os cargueiros que passaram a trafegar pelas \u00e1guas ap\u00f3s o aprofundamento do calado do porto.<\/p>\n<p>Com a reforma, Mariel hoje pode receber embarca\u00e7\u00f5es com at\u00e9 18 metros de profundidade e movimentar cerca de 1 milh\u00e3o de cont\u00eaineres por ano, ou um ter\u00e7o da capacidade do porto de Santos, o maior do Brasil. O porto \u00e9 administrado por uma empresa de Cingapura.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\" Pedro Antonio Rodrigues (dir.) e seu filho est\u00e3o otimistas com o futuro de Mariel (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/Q7pSnNaWQS8YVSs-F3SlOV8aDnw=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/10\/12\/cuba2.jpg\" alt=\" Pedro Antonio Rodrigues (dir.) e seu filho est\u00e3o otimistas com o futuro de Mariel (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)\" width=\"620\" height=\"349\" \/><strong>Pedro Antonio Rodrigues (dir.) e seu filho est\u00e3o otimistas com o futuro de Mariel (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)<\/strong><\/div>\n<p>Rodrigues diz que aquele mar s\u00f3 viveu dias t\u00e3o agitados entre abril e outubro de 1980, quando centenas de barcos partiram cheios de cubanos para os Estados Unidos. O \u00eaxodo dos 125 mil &#8220;marielitos&#8221;, como os imigrantes ficaram conhecidos na Fl\u00f3rida, ocorreu em meio ao decl\u00ednio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, na \u00e9poca o maior parceiro econ\u00f4mico de Cuba.<\/p>\n<p>Rodrigues diz que, diferentemente daquela \u00e9poca, a movimenta\u00e7\u00e3o atual na ba\u00eda prenuncia tempos auspiciosos. &#8220;Tive a sorte de presenciar a Revolu\u00e7\u00e3o em 1959&#8221;, ele afirma.<\/p>\n<p>&#8220;Agora espero viver o suficiente para testemunhar a revolu\u00e7\u00e3o que vir\u00e1 com o novo porto.&#8221;<\/p>\n<p>Para Rodrigues, &#8220;empresas do mundo todo brigar\u00e3o para se instalar&#8221; na zona econ\u00f4mica assim que embargo econ\u00f4mico americano \u00e0 ilha for derrubado (a medida depende do Congresso americano e n\u00e3o tem prazo para ocorrer). A \u00e1rea fica a cerca de 180 quil\u00f4metros da costa da Fl\u00f3rida, o que a tornaria um ponto privilegiado para a exporta\u00e7\u00e3o de produtos para os Estados Unidos.<\/p>\n<p><strong>Burocracia e des\u00e2nimo<\/strong><br \/>\nNa mesma pra\u00e7a, outros moradores se disseram desanimados com os efeitos do empreendimento.<\/p>\n<p>Uma funcion\u00e1ria de um \u00f3rg\u00e3o estatal cubano diz que tentou se candidatar a vagas de trabalho no porto e em ind\u00fastrias que venham a se instalar na zona especial, mas que exig\u00eancias burocr\u00e1ticas lhe fizeram desistir. A seu lado, uma jovem rec\u00e9m-formada em contabilidade conta que p\u00f4de se cadastrar no banco de dados, mas jamais foi chamada para entrevistas.<\/p>\n<p>Elas afirmam ainda ter esperan\u00e7a de conseguir empregos, apesar das dificuldades e da falta de informa\u00e7\u00f5es sobre os projetos. O principal atrativo para as duas \u00e9 a chance de trabalhar com empresas estrangeiras e receber mais.<\/p>\n<p>A possibilidade, por\u00e9m, ainda \u00e9 incerta. Analistas dizem que um dos maiores entraves aos investimentos em Mariel \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o, prevista na legisla\u00e7\u00e3o cubana, de que empresas estrangeiras contratem funcion\u00e1rios de cooperativas indicadas pelo governo.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica busca garantir que os trabalhadores recebam sal\u00e1rios equivalentes aos de empregos p\u00fablicos, limitados a algumas dezenas de d\u00f3lares por m\u00eas. O procedimento barateia a m\u00e3o de obra, mas \u00e9 rejeitado por v\u00e1rias empresas interessadas em investir em Mariel e que preferem pagar sal\u00e1rios maiores que a m\u00e9dia para manter os funcion\u00e1rios motivados.<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\" Carro\u00e7a passa pelo centro de Mariel, onde o clima rural ainda predomina  (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/001bBuYrAnhLawDD95WN1xywvAc=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/10\/12\/cuba3.jpg\" alt=\" Carro\u00e7a passa pelo centro de Mariel, onde o clima rural ainda predomina  (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)\" width=\"620\" height=\"349\" \/><strong>Carro\u00e7a passa pelo centro de Mariel, onde o clima rural ainda predomina (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)<\/strong><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"foto componente_materia midia-largura-620\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\" Vilarejo pr\u00f3ximo a Mariel; nenhuma empresa ainda se instalou na nova zona econ\u00f4mica especial  (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)\" src=\"http:\/\/s2.glbimg.com\/1rWGoI3XBLp12SXvZxP4iDjAmNg=\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2015\/10\/12\/cuba4.jpg\" alt=\" Vilarejo pr\u00f3ximo a Mariel; nenhuma empresa ainda se instalou na nova zona econ\u00f4mica especial  (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)\" width=\"620\" height=\"349\" \/><strong>Vilarejo pr\u00f3ximo a Mariel; nenhuma empresa ainda se instalou na nova zona econ\u00f4mica especial (Foto: Jo\u00e3o Fellet\/BBC Brasil)<\/strong><\/div>\n<p><strong>&#8216;Experimento capitalista&#8217;<\/strong><br \/>\nOs sal\u00e1rios pagos no porto hoje s\u00e3o a principal queixa de cubanos que trabalham no empreendimento.<\/p>\n<p>Na principal avenida que cruza a cidade, dois homens com macac\u00f5es alaranjados conversavam enquanto aguardavam o \u00f4nibus que os levaria para casa ap\u00f3s o servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Ambos atuam no porto como t\u00e9cnicos assistentes e dizem receber cerca de 30 pesos cubanos (R$ 116) por m\u00eas para jornadas de 12 horas di\u00e1rias, de segunda a s\u00e1bado. Para sobreviver, dizem fazer bicos.<\/p>\n<p>Ainda que os sal\u00e1rios sejam compar\u00e1veis aos do setor p\u00fablico cubano, eles dizem que, pelo montante investido no porto e a presen\u00e7a de empresas estrangeiras, achavam que receberiam mais.<\/p>\n<p>Um deles diz ter se interessado pelo emprego ao ouvir que Mariel seria um &#8220;experimento capitalista&#8221;, onde vigorariam pr\u00e1ticas de trabalho distintas.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio da Zona de Especial de Desenvolvimento (ZED) Mariel n\u00e3o respondeu repetidos pedidos de entrevista da BBC Brasil nem quis comentar cr\u00edticas ao empreendimento.<\/p>\n<p>Em entrevista recente ao portal Cuba Debate, a diretora geral da ZED, Ana Teresa Igarza, disse que empresas estrangeiras que se instalem na zona ter\u00e3o liberdade para negociar os sal\u00e1rios com os funcion\u00e1rios cubanos.<\/p>\n<p>Igarza afirmou que as cinco companhias estrangeiras que tiveram os projetos aprovados para operar ali s\u00e3o pequenas e que muitas empresas grandes com que teve contato atribuem o receio de investir em Mariel ao embargo econ\u00f4mico americano.<\/p>\n<p>Ela ainda disse que a zona come\u00e7ar\u00e1 a gerar resultados em cinco anos e que o ritmo de implanta\u00e7\u00e3o do projeto est\u00e1 &#8220;mais ou menos&#8221; dentro do previsto.<\/p>\n<p><strong>Novos &#8216;marielitos&#8217;<\/strong><br \/>\nNem todos pretendem esperar. Mesmo ganhando 60 pesos cubanos (R$ 233), o dobro do que recebem seus subordinados, um jovem t\u00e9cnico cubano que trabalha no porto diz \u00e0 BBC Brasil que o valor n\u00e3o cobriria nem a roupa que ele vestia naquele dia, a camisa do jogador portugu\u00eas Cristiano Ronaldo, do Real Madrid.<\/p>\n<p>Ele afirma que s\u00f3 p\u00f4de comprar a pe\u00e7a porque seu pai mora em Miami e lhe envia dinheiro todos os meses. O jovem diz que, no ano que vem, se juntar\u00e1 ao pai nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo em Cuba \u00e9 incerto, n\u00e3o h\u00e1 garantias de que as coisas v\u00e3o melhorar amanh\u00e3 ou daqui a dez anos&#8221;, ele afirma.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 por isso que os &#8216;marielitos&#8217; se foram, \u00e9 por isso que muitos continuam e continuar\u00e3o a ir embora.&#8221; Fonte: G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na casa de paredes \u00e1speras e sem pintura que divide com a mulher e os dois filhos, o pescador Juan Alberto Valdez Rodriguez se lembra de quando as carro\u00e7as e bicicletas que trafegam pela vizinhan\u00e7a deram lugar a uma longa fila de carros escoltados por viaturas policiais. A passagem da comitiva &#8211; que inclu\u00eda a presidente Dilma Rousseff e outros dois l\u00edderes sul-americanos &#8211; se devia \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o, em janeiro de 2014, da maior obra em Cuba desde a Revolu\u00e7\u00e3o de 1959, a reforma do porto de Mariel. 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