{"id":69186,"date":"2015-09-22T08:49:43","date_gmt":"2015-09-22T11:49:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=69186"},"modified":"2015-09-22T08:49:43","modified_gmt":"2015-09-22T11:49:43","slug":"direito-de-ir-e-vir-nao-e-direito-de-dirigir-diz-ativista-em-mobilidade-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2015\/09\/22\/direito-de-ir-e-vir-nao-e-direito-de-dirigir-diz-ativista-em-mobilidade-urbana\/","title":{"rendered":"Direito de ir e vir n\u00e3o \u00e9 direito de dirigir, diz ativista em mobilidade urbana"},"content":{"rendered":"<figure class=\"teaser\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"Image img__fid__39262 img__view_mode__teaser attr__format__teaser\" title=\"\" src=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/sites\/_agenciabrasil2013\/files\/styles\/interna_grande\/public\/daniel_guth.jpg?itok=rFI8wNIk\" alt=\"Daniel Guth\" width=\"466\" height=\"312\" \/><figcaption>O diretor da Associa\u00e7\u00e3o de Ciclistas Urbanos de S\u00e3o Paulo, Daniel Guth, defende o desest\u00edmulo ao uso do carro na cidade <span class=\"author\">Mariana Gil\/ WRI Brasil EMBARQ Brasil<\/span><\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p>Diretor da Associa\u00e7\u00e3o dos Ciclistas Urbanos de S\u00e3o Paulo (Ciclocidade), uma das entidades mais ativas na defesa do uso de bicicletas na capital paulista, Daniel Guth defendeu o desest\u00edmulo ao uso de ve\u00edculos na cidade e o incremento a outros modais de transporte como a bicicleta e o transporte coletivo.<\/p>\n<p>Para ele, a instala\u00e7\u00e3o de vias exclusivas de \u00f4nibus na cidade, assim como para as bicicletas, a retirada de vagas de estacionamento para carros e o fechamento de rua aos ve\u00edculos motorizados tem gerado nos motoristas o sentimento de perda de espa\u00e7o e a falsa sensa\u00e7\u00e3o da perda de direitos.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas est\u00e3o confundindo o direito de ir e vir com o direito de dirigir. N\u00e3o pode haver essa confus\u00e3o. Quando n\u00e3o \u00e9 permitido a voc\u00ea circular de carro, n\u00e3o est\u00e1 se cerceando o seu direito de ir e vir, voc\u00ea pode muito bem se deslocar, a p\u00e9, de bicicleta, de transporte p\u00fablico, uma s\u00e9rie de outros modos de transporte. As pessoas confundem, muitas vezes, o direito constitucional de ir e vir com o direito de dirigir\u201d, disse Guth, em entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil,\u00a0 <\/strong>para marcar o Dia Nacional sem Carro, comemorado hoje (22).<!--more--><\/p>\n<p>A seguir, a \u00edntegra da entrevista:<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: os modais bicicleta e carro n\u00e3o t\u00eam como se complementar sem que haja um enfrentamento entre as partes, como hoje vemos em S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Guth<\/strong>: n\u00e3o \u00e9 que existe um enfrentamento deliberado, do ponto de vista do discurso. Quando voc\u00ea tira uma faixa de estacionamento na rua e coloca uma ciclovia, os motoristas t\u00eam visto isso como enfrentamento. Mas isso n\u00e3o \u00e9 enfrentamento, isso \u00e9 s\u00f3 uma pol\u00edtica de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem se desloca de autom\u00f3vel na cidade de S\u00e3o Paulo representa pouco menos de um ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o, e esse um ter\u00e7o ocupa 80% da via p\u00fablica. A via p\u00fablica \u00e9 para todos, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para o autom\u00f3vel. Um \u00fanico meio de transporte est\u00e1 ocupando 80% do espa\u00e7o que \u00e9 para todo mundo. Isso \u00e9 chocante, isso \u00e9 falta de equidade.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea tira um pouco desse espa\u00e7o para dar a outros modais, que t\u00eam tantos direitos ou mais, como diz a legisla\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o as pessoas veem isso como enfrentamento. Mas isso tem a ver muito mais com um s\u00e9culo de narrativa da ind\u00fastria automobil\u00edstica, da publicidade, do que efetivamente um enfrentamento na pr\u00e1tica, como voc\u00ea citou.<\/p>\n<p>Tem muito mais a ver com a sensa\u00e7\u00e3o de perda de direitos que, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o direitos, s\u00e3o privil\u00e9gios. Estacionar na rua nunca foi um direito, sempre foi um privil\u00e9gio, e um privil\u00e9gio que a gente tem que aprender a abrir m\u00e3o. Estacionar na via p\u00fablica \u00e9 uma privatiza\u00e7\u00e3o tosca do espa\u00e7o p\u00fablico. Quando se retira estacionamentos, as pessoas sentem que perderam direito.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma confus\u00e3o entre direito de ir e vir e direito de dirigir. N\u00e3o pode haver essa confus\u00e3o. Quando n\u00e3o \u00e9 permitido a voc\u00ea circular de carro, n\u00e3o est\u00e1 se cerceando o seu direito de ir e vir, voc\u00ea pode muito bem se deslocar, a p\u00e9, de bicicleta, de transporte p\u00fablico, uma s\u00e9rie de outros modos de transporte. As pessoas confundem muitas vezes o direito constitucional de ir e vir com o direito de dirigir.<\/p>\n<p>No caso do fechamento de ruas para carros, como ocorre na Avenida Paulista, o debate, em vez de ser feito no sentido de entender que esse espa\u00e7o tem de ser devolvido \u00e0s pessoas, que podem usufruir a avenida de outra maneira, as pessoas elas encaram isso como um enfrentamento, como se tivessem perdendo direitos. Isso tem a ver muito mais com uma an\u00e1lise subjetiva, social, cultural, do que com enfrentamento direto, um embate, uma acarea\u00e7\u00e3o de ideias, de argumentos.<br \/>\n<strong>Ag\u00eancia Brasil: h\u00e1 muita resist\u00eancia dos motoristas?<\/strong><\/p>\n<div class=\"know_more\">\n<h3>Saiba Mais<\/h3>\n<ul class=\"field-items\">\n<li class=\"field-item first last\"><a href=\"http:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2015-09\/periferia-de-sao-paulo-pressiona-para-receber-ciclovias\">Moradores da periferia de S\u00e3o Paulo pressionam para receber ciclovias<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p><strong>Guth<\/strong>: n\u00e3o h\u00e1 nenhuma medida de desest\u00edmulo ao uso do carro que n\u00e3o seja acompanhada de uma resist\u00eancia dos motoristas. E n\u00e3o \u00e9 falta de di\u00e1logo, n\u00e3o \u00e9 falta de argumentos, n\u00e3o \u00e9 falta de campanhas, \u00e9 simplesmente o fato de que essas pessoas est\u00e3o sentindo a perda de privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>Todas as cidades do mundo que entenderam que o modelo \u201crodoviarista\u201d tem um limite &#8211; h\u00e1 um ponto em que a cidade n\u00e3o anda mais porque n\u00e3o h\u00e1 sistema que comporte a quantidade de autom\u00f3veis &#8211; passaram a criar medidas e pol\u00edticas p\u00fablicas que, de certa forma, criaram resist\u00eancias porque tiveram que tirar espa\u00e7o desse \u00fanico modal que reinou nas cidades.<\/p>\n<p>Nova York, Londres e Paris passaram por isso, Bogot\u00e1 passou por isso, Buenos Aires tem passado por isso, a Cidade do M\u00e9xico tem passado por isso, e n\u00e3o estou s\u00f3 falando de cidades europeias, estou falando de cidades vizinhas nossas. S\u00e3o Paulo tem de enfrentar isso com serenidade, com argumenta\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de bicicleta contra o carro, transporte p\u00fablico contra o carro, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o de dar maior equidade \u00e0queles que merecem ser inclu\u00eddos, aqueles que sempre estiveram marginalizados, e isso significa obviamente tirar espa\u00e7o do carro. Isso n\u00e3o \u00e9 um enfrentamento, isso \u00e9 um processo natural, que tem que acontecer.<br \/>\n<strong>Ag\u00eancia Brasil: em que medida o uso da bicicleta pode dar mais acesso \u00e0 cidade e \u00e0 cidadania?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Guth<\/strong>: a bicicleta \u00e9 um ve\u00edculo porta a porta. Voc\u00ea consegue sair da sua origem e chegar a seu destino com esse \u00fanico meio de transporte. Isso d\u00e1 autonomia, garante direito ao deslocamento. \u00c9 um ve\u00edculo econ\u00f4mico, n\u00e3o apenas porque \u00e9 mais barato comprar uma bicicleta, mas tamb\u00e9m porque a manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00ednima, \u00e9 com a sua pr\u00f3pria energia que voc\u00ea vai se deslocar.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o requer nenhuma outra media\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel, a n\u00e3o ser a sua pr\u00f3pria energia, o que tamb\u00e9m garante maior direito \u00e0 cidade, uma vez que ela pode ser acess\u00edvel a todos, todos que tenham condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas de utiliz\u00e1-la. Outro elemento importante \u00e9 a velocidade, a bicicleta traz um elemento importante para a rela\u00e7\u00e3o com a cidade que \u00e9 velocidade mais baixa.<\/p>\n<p>Faz com que a pessoa tenha uma rela\u00e7\u00e3o de maior troca, de maior diversidade de trocas com a cidade, seja com o com\u00e9rcio de rua, seja com as pessoas. Ao pedalar a uma m\u00e9dia de 10 a 15 quil\u00f4metros por hora, voc\u00ea est\u00e1 muito mais afeito a consumir em uma loja, a parar para cumprimentar algu\u00e9m, a conversar com as pessoas, a interagir com a cidade de outra maneira, coisa que com outros meios de transporte, no caso o carro, \u00f4nibus ou o metr\u00f4 e trem, voc\u00ea n\u00e3o consegue fazer.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios outros elementos, como promover a sa\u00fade, seja para a cidade seja para si mesmo, a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento e de senso cr\u00edtico da cidade, Todo mundo que passa a se deslocar de bicicleta naturalmente acaba tendo uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica sobre o meio urbano. Passa a sentir as agruras da cidade de uma maneira mais intensa, seja a viol\u00eancia do tr\u00e2nsito, sejam os cheiros, a falta de infraestrutura, a qualidade do asfalto, a feiura e a beleza da arquitetura. Ou seja, em cima de uma bicicleta voc\u00ea consegue perceber a sutileza dos elementos urban\u00edsticos de maneira muito mais intensa, o que agu\u00e7a o senso cr\u00edtico.<br \/>\n<strong>Ag\u00eancia Brasil: hoje se comemora o Dia Mundial Sem Carro. Como voc\u00ea avalia as alternativas a esse meio de transporte em S\u00e3o Paulo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Guth<\/strong>: \u00e9 um dia de concentra\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os para mostrar que outra cidade, do ponto de vista da mobilidade, \u00e9 poss\u00edvel. S\u00e3o Paulo chegou a um esgotamento do modelo \u201ccarroc\u00eantrico\u201d, de s\u00f3 nortear as pol\u00edticas de mobilidade em uma vis\u00e3o exclusivista nesse modelo \u201crodovi\u00e1rista\u201d. Um novo paradigma para a mobilidade urbana \u00e9 necess\u00e1rio, e ele est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos o amparo bastante forte de legisla\u00e7\u00f5es, sejam elas federais, estaduais ou municipais, que colocam a devida prioridade para a mobilidade urbana a partir do transporte coletivo, e depois dos modos ativos de transporte, que s\u00e3o majoritariamente a bicicleta e o pedestre.<\/p>\n<p>Tendo esses marcos legais importantes, a gente entende que a cidade de S\u00e3o Paulo tem feito isso, talvez com um pouco mais de intensidade, e por isso tem gerado mais debates. [A cidade] tem passado a inverter a l\u00f3gica que sempre foi vigente. E, necessariamente para isso, \u00e9 preciso desestimular o uso do carro.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo tem tomado diversas medidas para desestimular o uso do carro, de maneira piloto. Mudan\u00e7as que precisam ser feitas, como por exemplo a remo\u00e7\u00e3o de faixas de estacionamento nas ruas, a cria\u00e7\u00e3o de mais infraestrutura ciclovi\u00e1ria, a cria\u00e7\u00e3o de corredores e faixas exclusivas de \u00f4nibus, a amplia\u00e7\u00e3o de cal\u00e7adas, a retirada de vagas de estacionamento para ampliar as cal\u00e7adas, para que quem queira caminhar a p\u00e9 possa fazer isso com conforto e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O que o Poder P\u00fablico faz ao dar prioridade ao transporte coletivo, aos modos ativos de transporte, n\u00e3o \u00e9 nada mais do que seguir o que a legisla\u00e7\u00e3o j\u00e1 manda. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma grande ilumina\u00e7\u00e3o de um gestor, pol\u00edtico ou prefeito. O que h\u00e1 \u00e9 o cumprimento do que est\u00e1 na legisla\u00e7\u00e3o. Que precisa ser intensificado. Fonte: Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O diretor da Associa\u00e7\u00e3o de Ciclistas Urbanos de S\u00e3o Paulo, Daniel Guth, defende o desest\u00edmulo ao uso do carro na cidade Mariana Gil\/ WRI Brasil EMBARQ Brasil Diretor da Associa\u00e7\u00e3o dos Ciclistas Urbanos de S\u00e3o Paulo (Ciclocidade), uma das entidades mais ativas na defesa do uso de bicicletas na capital paulista, Daniel Guth defendeu o desest\u00edmulo ao uso de ve\u00edculos na cidade e o incremento a outros modais de transporte como a bicicleta e o transporte coletivo. 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