{"id":6615,"date":"2010-04-18T09:29:52","date_gmt":"2010-04-18T12:29:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=6615"},"modified":"2010-04-18T09:29:52","modified_gmt":"2010-04-18T12:29:52","slug":"usina-de-belo-monte-divide-ate-tribo-de-indios-no-para","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/04\/18\/usina-de-belo-monte-divide-ate-tribo-de-indios-no-para\/","title":{"rendered":"Usina de Belo Monte divide at\u00e9 tribo de \u00edndios no Par\u00e1"},"content":{"rendered":"<p>ALTAMIRA (PA) &#8211; Protegida pelas \u00e1guas turvas do Rio Xingu e por frondosas \u00e1rvores nativas da Amaz\u00f4nia, a pequena aldeia Paqui\u00e7amba, dos \u00edndios juruna, \u00e9 o retrato fiel do dilema que atinge o oeste do Par\u00e1. A tribo, de 83 pessoas, decidiu se separar fisicamente por causa de diverg\u00eancias sobre o projeto da Hidrel\u00e9trica de Belo Monte, prevista para ser leiloada ter\u00e7a-feira. Metade da aldeia, inclusive o cacique Manuel, de 70 anos, v\u00ea com bons olhos a constru\u00e7\u00e3o da usina, de 11.233 megawatts (MW). A outra ala, um pouco mais jovem, n\u00e3o pode nem ouvir falar do empreendimento, que custar\u00e1 R$ 19 bilh\u00f5es.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" title=\"H\u00e9lvio Romero\/AE\" src=\"http:\/\/economia.estadao.com.br\/imagens\/belo_monte_altamira-indios_ae_helvio_romero_14042010.jpg\" alt=\"H\u00e9lvio Romero\/AE\" width=\"190\" \/>\u00a0<\/p>\n<div>A briga come\u00e7ou quando o cacique, que no passado discordava do projeto, decidiu apoiar publicamente a hidrel\u00e9trica, sem consultar os demais integrantes da tribo, conta Ozimar Juruna, de 41 anos, contr\u00e1rio \u00e0 constru\u00e7\u00e3o. &#8220;Ele ficou iludido com as promessas feitas pelas empresas (respons\u00e1veis pelo projeto). N\u00f3s, que sabemos ler e falar portugu\u00eas, entendemos que a obra ser\u00e1 um desastre para a aldeia.&#8221;<\/div>\n<\/div>\n<p><!--more-->Quinze fam\u00edlias devem acompanhar o novo grupo, que ter\u00e1 outro cacique no comando. Ser\u00e1 Giliarde, o sobrinho do atual chefe da tribo. No dia em que a reportagem do [BOLD]Estado[\/BOLD] visitou Paqui\u00e7amba, o cacique Manuel estava fora, colhendo castanhas na mata. Mas, com tanta pol\u00eamica, seu genro Claudio resolveu amenizar o discurso do sogro: &#8220;Ele n\u00e3o \u00e9 contra nem a favor&#8221;.<\/p>\n<p>A aldeia est\u00e1 localizada na Volta Grande do Xingu, a cerca de 40 quil\u00f4metros de Altamira. Com a constru\u00e7\u00e3o da barragem e dos dois canais de deriva\u00e7\u00e3o, a vaz\u00e3o do rio vai diminuir, podendo comprometer a \u00fanica via de transporte das comunidades ribeirinhas at\u00e9 Altamira. \u00c9 no munic\u00edpio que eles v\u00e3o a m\u00e9dicos, dentistas e fazem seus neg\u00f3cios, como a venda de peixes e castanhas.<\/p>\n<p>&#8220;A vida j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil por aqui por causa da dist\u00e2ncia at\u00e9 a cidade e pode ficar ainda mais complicada com Belo Monte&#8221;, teme Ozimar, que tem oito filhos. Apesar das dificuldades e das recentes discuss\u00f5es, a tribo tem um dia a dia tranquilo. Os homens ca\u00e7am, pescam e trabalham na ro\u00e7a, colhendo castanha, arroz, feij\u00e3o e mandioca. As mulheres cuidam da casa e dos filhos, que ainda desfrutam das divers\u00f5es que o Xingu lhes oferece. Enquanto as m\u00e3es lavam a roupa na beira do rio, eles brincam dando cambalhotas na \u00e1gua.<\/p>\n<p>Tristeza<\/p>\n<p>Na outra margem do Xingu, mais uma aldeia vive atormentada pelas amea\u00e7as de Belo Monte. \u00c9 a tribo Arara, que aproveita o momento delicado para recuperar as tradi\u00e7\u00f5es dos antepassados, perdidas ao longo dos anos, como a ado\u00e7\u00e3o de nomes ind\u00edgenas para as crian\u00e7as. As li\u00e7\u00f5es v\u00eam do \u00edndio mais velho da aldeia, Leoncio Ferreira Arara, de 72 anos. Ele \u00e9 av\u00f4 de Jos\u00e9 Carlos, o cacique da tribo, um dos mais ativos na luta contra Belo Monte.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o saiba ler nem escrever, Leoncio \u00e9 um homem s\u00e1bio, de mem\u00f3ria irrepar\u00e1vel. Sabe de cor todos os per\u00edodos cr\u00edticos do Rio Xingu, seja na seca ou na cheia. &#8220;Por isso digo que essa usina vai acabar com nossas vidas aqui. Belo Monte virou minha grande tristeza.&#8221; Sua esperan\u00e7a \u00e9 que o neto, um \u00edndio calmo e muito bem articulado, consiga barrar a hidrel\u00e9trica.<\/p>\n<p>Mas, se depender de alguns moradores de Altamira e regi\u00e3o, os sonhos de Leoncio podem n\u00e3o se realizar. O movimento que apoia Belo Monte conta com empres\u00e1rios, pol\u00edticos e moradores das cidades influenciadas pelo projeto. Para esse grupo, a usina \u00e9 o \u00fanico caminho para desenvolver a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Eles acreditam que muitos investidores vir\u00e3o para a cidade por causa do projeto. &#8220;J\u00e1 h\u00e1 algumas sondagens no munic\u00edpio. Mas a decis\u00e3o de fechar neg\u00f3cio s\u00f3 vai ocorrer depois que o leil\u00e3o for realizado&#8221;, diz o empres\u00e1rio Waldir Antonio Narzetti. Ele confessa, no entanto, que o grupo, batizado de Fort Xingu, anda meio nervoso com o movimento da oposi\u00e7\u00e3o, que conta com apoio de personalidades estrangeiras &#8211; como o cineasta James Cameron e a atriz Sigourney Weaver, que visitaram as tribos ind\u00edgenas semana passada.<\/p>\n<p>Alheio ao glamour hollywoodiano, o pescador Raimundo dos Santos Martins, de 47 anos, s\u00f3 quer saber de uma decis\u00e3o r\u00e1pida para p\u00f4r em pr\u00e1tica seus planos. Ele mora com a mulher e mais 11 filhos e netos numa pequena casa de madeira na zona rural de Vit\u00f3ria do Xingu. Sua moradia est\u00e1 bem no meio da \u00e1rea que ser\u00e1 alagada pela hidrel\u00e9trica e, portanto, ser\u00e1 removida.<\/p>\n<p>Em troca, o projeto prev\u00ea a entrega de uma nova casa numa vila que ser\u00e1 constru\u00edda pelo vencedor do leil\u00e3o ou a indeniza\u00e7\u00e3o. Martins j\u00e1 tomou sua decis\u00e3o: &#8220;Quero receber o dinheiro para comprar uma ch\u00e1cara na beira do rio. Sou pescador h\u00e1 37 anos. N\u00e3o posso ficar longe da \u00e1gua&#8221;, diz ele, que \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 usina. &#8220;Cresci ouvindo falar de Belo Monte. Acredito que trar\u00e1 melhorias para o povo.&#8221;<\/p>\n<p>Bem perto da casa de Martins, o pequeno R\u00f4mulo da Silva Costa, de 12 anos, n\u00e3o quer saber de vila nem de indeniza\u00e7\u00e3o. &#8220;Aqui tem v\u00e1rios lugares para brincar. N\u00e3o quero ir para outro lugar&#8221;, diz o garoto, enquanto carrega madeira num carrinho de m\u00e3o. Em cada comunidade, h\u00e1 opini\u00f5es para todos os gostos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem seja a favor, contra ou aqueles que apenas rezam para que ocorra o melhor, sem fazer grandes coment\u00e1rios. &#8220;N\u00e3o tem como ser contra ou a favor. Eles v\u00e3o fazer mesmo&#8221;, diz a capixaba Izete Celestino de Souza, que chegou \u00e0 comunidade de Belo Monte h\u00e1 20 anos, com sete filhos e o marido, num pau de arara. &#8220;Diziam que aqui era uma maravilha. Cheguei e n\u00e3o tinha nada. Quase matei meu marido.&#8221;<\/p>\n<p>O rumo na vida de todas essas pessoas dever\u00e1 ser definido ter\u00e7a-feira, 30 anos depois do primeiro estudo da usina. Isso se nenhuma nova liminar impedir o leil\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Estad\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ALTAMIRA (PA) &#8211; Protegida pelas \u00e1guas turvas do Rio Xingu e por frondosas \u00e1rvores nativas da Amaz\u00f4nia, a pequena aldeia Paqui\u00e7amba, dos \u00edndios juruna, \u00e9 o retrato fiel do dilema que atinge o oeste do Par\u00e1. A tribo, de 83 pessoas, decidiu se separar fisicamente por causa de diverg\u00eancias sobre o projeto da Hidrel\u00e9trica de Belo Monte, prevista para ser leiloada ter\u00e7a-feira. Metade da aldeia, inclusive o cacique Manuel, de 70 anos, v\u00ea com bons olhos a constru\u00e7\u00e3o da usina, de 11.233 megawatts (MW). A outra ala, um pouco mais jovem, n\u00e3o pode nem ouvir falar do empreendimento, que custar\u00e1&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[2870,3092],"class_list":["post-6615","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-belo-monte","tag-usina"],"acf":[],"views":788,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6615","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6615"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6615\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6616,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6615\/revisions\/6616"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}