{"id":63224,"date":"2014-11-10T09:36:05","date_gmt":"2014-11-10T12:36:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=63224"},"modified":"2014-11-10T09:36:05","modified_gmt":"2014-11-10T12:36:05","slug":"caso-petrobras-abre-devassa-em-empreiteiras-e-em-outras-estatais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2014\/11\/10\/caso-petrobras-abre-devassa-em-empreiteiras-e-em-outras-estatais\/","title":{"rendered":"Caso Petrobras abre devassa em empreiteiras e em outras estatais"},"content":{"rendered":"<p>O fim da guerra eleitoral deu \u00e0 Justi\u00e7a Federal tranquilidade para analisar o conte\u00fado da dela\u00e7\u00e3o premiada e, nos pr\u00f3ximos dias, autorizar a Pol\u00edcia Federal a deflagrar uma nova fase da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Na mira, agora, est\u00e3o os gigantes das obras p\u00fablicas, suspeitos de participar do esquema de desvios na Petrobras: as empreiteiras que, segundo as den\u00fancias, pagaram suborno aos partidos da base aliada do governo e que podem levar as investiga\u00e7\u00f5es para outras estatais federais de peso. A propina que teria beneficiado o PP e o PT pela diretoria de Abastecimento equivale a 3% do valor l\u00edquido de cada contrato.<\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/i0.statig.com.br\/bancodeimagens\/d7\/rw\/wv\/d7rwwvgq6svs98d9c5amyrmcb.jpg\" \/><figcaption><cite>Geraldo Magela\/Ag\u00eancia Senado<\/cite><\/p>\n<div>Ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto da Costa<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p>A nova ofensiva da Lava Jato est\u00e1 sustentada no depoimento do ex-diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, prestado no dia 8 de outubro, sob o juramento de dizer a verdade. O relato de Costa, ao qual o\u00a0<strong>iG<\/strong>\u00a0teve acesso, descreve o esc\u00e2ndalo da maior estatal brasileira como a \u201cponta do iceberg\u201d que esconderia um enorme e invis\u00edvel bloco de empresas p\u00fablicas e privadas unidas para desviar dinheiro p\u00fablico.<!--more--><\/p>\n<p><strong>E mais:<\/strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/politica\/2014-11-05\/cpmi-da-petrobras-adia-votacao-do-relatorio-para-18-de-dezembro.html\">CPMI da Petrobras adia vota\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio para 18 de dezembro<\/a><\/p>\n<p>Costa revela que o esquema funcionou em toda a estrutura da Petrobras e cita nominalmente as principais empreiteiras de um cartel organizado, conforme afirma, para controlar obras de grande envergadura, mediante o pagamento de propinas a partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Segundo Costa, fazem parte do cartel Odebrecht, Camargo Corr\u00eaa, Andrade Gutierrez, Mendes J\u00fanior, OAS, Iesa, Engevix, UTC e, entre outras, a Toyo Setal _ tamb\u00e9m citada na dela\u00e7\u00e3o premiada pelo doleiro Alberto Youssef. Essa empresa firmou um acordo com a justi\u00e7a, colabora nas investiga\u00e7\u00f5es e aceitou devolver ao er\u00e1rio R$ 40 milh\u00f5es, iniciativa que, segundo os investigadores, pode estimular uma nova onda de colabora\u00e7\u00e3o _ o que seria in\u00e9dito num mundo em que pol\u00edtica e neg\u00f3cios do poder se tornaram uma via de m\u00e3o dupla.<\/p>\n<p><strong>Relembre:<\/strong>\u00a0<a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/politica\/2014-10-18\/pela-primeira-vez-dilma-admite-que-houve-desvio-na-petrobras.html\">Pela primeira vez, Dilma admite que houve desvio na Petrobras<\/a><\/p>\n<p>O doleiro Youssef, tamb\u00e9m por acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada, citou ainda, entre empreiteiras e fornecedoras de material e servi\u00e7o \u00e0s obras da Petrobras, v\u00e1rias outras empresas. Nesse grupo est\u00e3o Engesa, Queiroz Galv\u00e3o, Rigidez, Treviso, Clyde Union, Muranno, Sanko Sider, MO Consultoria, GDF, Jaragu\u00e1 Equipamentos, Tom\u00e9 Engenharia, RCI, KFC e o Labogen.<\/p>\n<p>Todas as empresas negam que tenham participado de irregularidades, embora algumas se proponham a reparar eventuais erros via acordo de leni\u00eancia \u2013 vers\u00e3o econ\u00f4mica dos acordos de dela\u00e7\u00e3o na \u00e1rea criminal. No judici\u00e1rio e na CPI mista da Petrobras, que patina no Congresso, h\u00e1 pedidos de quebra de sigilo fiscal e banc\u00e1rio de todas elas.<\/p>\n<p>Paulo Roberto Costa diz que durante anos o esquema foi mantido em segredo porque o alvo da das empresas n\u00e3o se restringia \u00e0s obras da Petrobras. \u201cVisava (tamb\u00e9m) hidrovias, ferrovias, rodovias, hidroel\u00e9tricas, etc, etc, etc&#8230;\u201d, revela. Se suas confiss\u00f5es forem verdadeiras, a corrup\u00e7\u00e3o pode ter ferido o cora\u00e7\u00e3o do governo, que s\u00e3o os programas de infraestrutura destinados a alavancar o crescimento econ\u00f4mico e a inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Minha casa, minha vida<\/strong><\/p>\n<figure><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/i0.statig.com.br\/bancodeimagens\/04\/wb\/9k\/04wb9k9wx14rqvz648o2af3uo.jpg\" \/><figcaption><cite>Jeso Carneiro\/Ag\u00eancia Senado<\/cite><\/p>\n<div>Doleiro Alberto Yousseff<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dos advogados de defesa do doleiro Alberto Youssef pediu durante o interrogat\u00f3rio que Costa esclare\u00e7a melhor por que o cartel se rendeu ao ass\u00e9dio dos partidos na montagem do esquema de corrup\u00e7\u00e3o. Ele, ent\u00e3o, reafirma que a preocupa\u00e7\u00e3o era manter o conjunto de obras \u201ca n\u00edvel de Brasil\u201d e diz, textualmente, que havia \u201cinteresses em outros minist\u00e9rios capitaneados por partidos\u201d.<\/p>\n<p>Esclarece que os tent\u00e1culos do esquema se esparramam para obras em aeroportos, portos, \u201csaneamento b\u00e1sico\u201d e, entre os programas considerados vitrines do governo na \u00e1rea social, o \u201cMinha Casa Minha Vida\u201d. E diz que ningu\u00e9m deixava honrar os acordos criminosos no caso da Petrobras para n\u00e3o perder outros \u201cnichos\u201d na Esplanada. O roteiro que ele tra\u00e7a \u00e9 estarrecedora sinceridade:<\/p>\n<p>\u201c(&#8230;)Todos os programas, a n\u00edvel de governo, nos minist\u00e9rios, t\u00eam pol\u00edticos de partidos. Se voc\u00ea criar problemas de um lado, pode-se criar um problema de outro. Ent\u00e3o no meu tempo l\u00e1 eu n\u00e3o lembro de nenhuma empresa ter deixado de pagar. Houveram alguns atrasos, de empresas do cartel, mas deixar de pagar, nunca deixaram (sic)\u201d afirma.<\/p>\n<p>A propina que teria beneficiado o PP e o PT pela diretoria de Abastecimento equivale, segundo conta, a 3% do valor l\u00edquido de cada contrato, recursos origin\u00e1rios da manipula\u00e7\u00e3o de uma \u201czona cinzenta\u201d entre os custos indiretos da estatal e a margem de lucro das empresas Para dar fachada legal \u00e0s opera\u00e7\u00f5es era necess\u00e1rio, no entanto, controlar as licita\u00e7\u00f5es para que as empresas vencedoras fossem do cartel e superfaturar as obras, atos que ficavam dilu\u00eddos numa cl\u00e1usula que trata da margem de manobra da estatal, o chamado \u201cBDI\u201d citado pelo delator.<\/p>\n<p>Costa afirma que ao efetuar o repasse da propina _ de uma semana a dez dias depois que o Tesouro Nacional pagava _, as empresas tinham pleno conhecimento sobre o destino do dinheiro: partidos pol\u00edticos, testas de ferro de empresas, muitas delas de fachada, campanhas eleitorais e servidores corruptos da Petrobras _ como ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><strong>Interesses de vulto<\/strong><\/p>\n<p>O juiz S\u00e9rgio Moro, da 13\u00aa Vara Criminal da Justi\u00e7a Federal do Paran\u00e1 _ respons\u00e1vel pela A\u00e7\u00e3o Penal 5026212-82, que faz parte do processo de dela\u00e7\u00e3o, na qual Costa \u00e9 r\u00e9u por lavagem de dinheiro e forma\u00e7\u00e3o de quadrilha _ quis saber o que impedia a Petrobras de quebrar o cartel ou tomar alguma provid\u00eancia. Costa responde que num certo momento a Petrobras at\u00e9 que tentou, mas sucumbiu diante do poder das grandes que, segundo ele, s\u00e3o poucas no Brasil e n\u00e3o tinham interesse em deixar outras empresas entrar no esquema.<\/p>\n<p>Das que conseguiram furar o bloqueio _ ele cita nominalmente a Santa B\u00e1rbara, AIT e Tenace _, v\u00e1rias n\u00e3o conseguiram honrar os contratos com a Petrobras e acabaram falindo. \u201cN\u00e3o tinha interesse nenhum dessas empresas abrir para outras empresas. Porque iam perder _ vamos dizer _ um nicho de mercado que eles j\u00e1 tinham na m\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAlgumas delas se recusaram a fazer esse pagamento?\u201d, inquiriu o juiz. \u201cNunca, nunca\u201d, respondeu Costa. \u201cHouve alguns atrasos, mas deixar de pagar, nunca tive conhecimento que deixaram de pagar, devido a esses interesses maiores a n\u00edvel de Brasil (sic)\u201d, esclarece o ex-diretor de Abastecimento.<\/p>\n<p><strong>Tesouro<\/strong><\/p>\n<p>O acordo firmado por Costa com a Justi\u00e7a Federal foi homologado pelo Supremo Tribunal Federal e dar\u00e1 ao delator a vantagem de reduzir a pena. Ele aceitou devolver US$ 25 milh\u00f5es que foram desviados para o exterior e atualmente est\u00e3o em bancos da Su\u00ed\u00e7a e Ilhas Cayman prestes a serem repatriados.<\/p>\n<p>O que surpreendeu os investigadores, no entanto, foi a resigna\u00e7\u00e3o de Costa ao abrir m\u00e3o de uma verdadeira fortuna, algo que nem a c\u00fapula inteira do setor que dirigia, formada por funcion\u00e1rios graduados da Petrobras, conseguiria acumular numa vida toda dedicada ao trabalho. Ele, de fato, estava assustado por um acontecimento inusitado: no mesmo instante em que era liberado do flagrante, em junho deste ano, teve de voltar \u00e0 pris\u00e3o quando autoridades su\u00ed\u00e7as informaram \u00e0 justi\u00e7a brasileira sobre a conta com US$ 23 milh\u00f5es. Na g\u00edria policial \u201ccaiu a casa\u201d e ele, ent\u00e3o, se rendeu \u00e0s sugest\u00f5es dos policiais federais e procuradores.<\/p>\n<p>Como de esmola grande at\u00e9 o Santo desconfia, os \u00f3rg\u00e3os de controle que auxiliam a Justi\u00e7a Federal rastreiam as pegadas dele no exterior em busca de pistas sobre um eventual tesouro escondido em para\u00edsos fiscais. As revela\u00e7\u00f5es dele na dela\u00e7\u00e3o premiada s\u00e3o um ind\u00edcio das suspeitas: Costa era o operador do PP, que levava 1% de bilion\u00e1rios contratos.<\/p>\n<p><strong>Leni\u00eancia e altru\u00edsmo<\/strong><\/p>\n<p>Da propina l\u00edquida levantada, o partido levava 60%, Costa, 30%, enquanto o doleiro Youssef e o lobista Jo\u00e3o Cl\u00e1udio Gen\u00fa, envolvido tamb\u00e9m no mensal\u00e3o e ent\u00e3o testa de ferro do ex-deputado Jos\u00e9 Janene (PP-PR), dividiam os 10% restantes. No PT, segundo Costa, a propina era de 2%. Para se ter uma ideia da envergadura das opera\u00e7\u00f5es de desvios, o plano de neg\u00f3cios e gest\u00e3o da Petrobras para o per\u00edodo de 2014 e 2018 prev\u00ea investimentos da ordem de US$ 206,8 bilh\u00f5es, dos quais US$ 38,7 bilh\u00f5es ser\u00e3o gastos apenas na \u00e1rea de Abastecimento, que foi dirigida pelo delator _ indicado pelo PP _, entre 2006 e 2012.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de Costa em abrir o jogo rara nas tenebrosas rela\u00e7\u00f5es da pol\u00edtica e os neg\u00f3cios estatais. O mais interessante para o futuro das investiga\u00e7\u00f5es \u00e9 que ele cita num depoimento mantido em sigilo no processo de dela\u00e7\u00e3o premiada, 32 pol\u00edticos como foro especial e cita os nomes de quem operava pelos partidos e empresas. Nem Paulo C\u00e9sar Farias, o operador da corrup\u00e7\u00e3o no governo de Fernando Collor fez isso. PC assumiu sozinho as consequ\u00eancias e morreu v\u00edtima de um atentado a tiro.<\/p>\n<p>\u201cEsse envolvimento pol\u00edtico \u00e9 uma m\u00e1cula dentro da companhia\u201d, diz um Costa arrependido, que mescla revela\u00e7\u00f5es escabros\u00edssimas com lampejos de um altru\u00edsmo visto como algo distante do tradicional comportamento no ambiente que frequentou: ele jura que aceitou colaborar para melhorar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um processo complicado, dif\u00edcil, longo. Eu decidi fazer a dela\u00e7\u00e3o premiada (para que) a gente tenha no futuro um Brasil melhor\u201d, disse Costa, encerrando o depoimento com uma declara\u00e7\u00e3o segundo a qual estaria cumprindo sua parte numa eventual a\u00e7\u00e3o institucional de f\u00f4lego para combater a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de Costa estimulou outros tr\u00eas acordos de dela\u00e7\u00e3o premiada. O do doleiro Alberto Youssef cujas declara\u00e7\u00f5es respigaram no Pal\u00e1cio do Planalto e foram usadas pelo PSDB para tentar, sem sucesso, derrotar a presidente Dilma Rousseff no segundo turno e de dois supostos operadores na distribui\u00e7\u00e3o de propinas pelas empreiteiras, J\u00falio Camargo e Augusto Ribeiro de Mendon\u00e7a, ligados a Toyo Setal.<\/p>\n<p>Uma nova ferramenta no combate a corrup\u00e7\u00e3o junto com a nova Lei Anticorrup\u00e7\u00e3o, as dela\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m est\u00e3o obrigando as empreiteiras a seguir o mesmo caminho, optando por acordos de leni\u00eancia, pelo qual, admitem culpa, esclarecem a participa\u00e7\u00e3o, devolvem parte dos recursos desviados e reduzem a possibilidade de seus controladores irem parar atr\u00e1s das grades.<\/p>\n<p>Fonte: IG<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fim da guerra eleitoral deu \u00e0 Justi\u00e7a Federal tranquilidade para analisar o conte\u00fado da dela\u00e7\u00e3o premiada e, nos pr\u00f3ximos dias, autorizar a Pol\u00edcia Federal a deflagrar uma nova fase da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Na mira, agora, est\u00e3o os gigantes das obras p\u00fablicas, suspeitos de participar do esquema de desvios na Petrobras: as empreiteiras que, segundo as den\u00fancias, pagaram suborno aos partidos da base aliada do governo e que podem levar as investiga\u00e7\u00f5es para outras estatais federais de peso. 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