{"id":62957,"date":"2014-10-25T14:02:09","date_gmt":"2014-10-25T17:02:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=62957"},"modified":"2014-10-25T14:02:09","modified_gmt":"2014-10-25T17:02:09","slug":"minas-o-campo-de-batalha-que-pode-decidir-a-eleicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2014\/10\/25\/minas-o-campo-de-batalha-que-pode-decidir-a-eleicao\/","title":{"rendered":"Minas: o campo de batalha que pode decidir a elei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A elei\u00e7\u00e3o de 2014 vai ficar marcada como uma disputa intensa e imprevis\u00edvel do come\u00e7o ao fim. Na reta final da campanha,\u00a0a \u00faltima batalha ser\u00e1 travada em Minas Gerais. O Estado, hoje, \u00e9 um territ\u00f3rio dividido: em nenhum outro lugar do Brasil houve vota\u00e7\u00f5es t\u00e3o discrepantes: em alguns munic\u00edpios do norte mineiro, Dilma obteve mais de 80% dos votos. Em outros, mais ao\u00a0sul,\u00a0A\u00e9cio foi quem ultrapassou essa marca.<\/p>\n<p>Os dois candidatos escolheram Minas Gerais para encerrar a campanha, neste s\u00e1bado, porque sabem o que est\u00e1 em jogo. O Estado tem o segundo maior col\u00e9gio eleitoral do pa\u00eds, possui um n\u00famero consider\u00e1vel de eleitores &#8220;conquist\u00e1veis&#8221; por ambos os lados e apresenta, uma configura\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e econ\u00f4mica compar\u00e1vel \u00e0 do pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n<p>A presidente da Rep\u00fablica venceu no primeiro turno no Estado de forma surpreendente. Os 3,7 pontos porcentuais de vantagem sobre A\u00e9cio serviram de arma eleitoral na segunda parte da campanha: se o tucano perde na terra que governou, n\u00e3o h\u00e1 algo de errado com ele? Depois,\u00a0o PT passou a explorar ao m\u00e1ximo os pontos fracos do tucano \u00e0 frente do governo mineiro \u2013 verdadeiras ou n\u00e3o, as afirma\u00e7\u00f5es parecem ter convencido parte do eleitorado.<!--more--><\/p>\n<p>Agora, a campanha de A\u00e9cio conta com uma vit\u00f3ria no Estado no segundo turno por causa da ofensiva do tucano em Minas e pela transfer\u00eancia dos votos que eram de Marina Silva. Mas as pesquisas continuam mostrando uma situa\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>O campo onde ser\u00e1 travada essa batalha decisiva tem idiossincrasias. No mapa eleitoral, a regi\u00e3o norte do Estado \u00e9 predominantemente vermelha. O sul tem as cores do PSDB.\u00a0O site de VEJA esteve em duas cidades-s\u00edmbolos dessa polariza\u00e7\u00e3o.\u00a0Albertina,\u00a0onde A\u00e9cio Neves teve 81,6%\u00a0dos votos, e Pedras de Maria da Cruz, onde Dilma venceu com 85,4%. Conclus\u00e3o: a petista \u00e9 reverenciada por seus eleitores gra\u00e7as aos\u00a0programas de inclus\u00e3o social\u00a0enquanto o voto no ex-governador \u00e9 fruto da aprova\u00e7\u00e3o dele como gestor \u2013 e da rejei\u00e7\u00e3o ao PT.<\/p>\n<p><strong>Territ\u00f3rio azul \u2013\u00a0<\/strong>Albertina fica na divisa com S\u00e3o Paulo e tem pouco mais de 3.000 habitantes. A produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9, especialmente nos morros que rodeiam a cidade, \u00e9 a principal atividade econ\u00f4mica local. Op\u00e7\u00f5es de lazer praticamente inexistem \u2013\u00a0a exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o lago artificial em cujas margens muitos moradores se re\u00fanem nos fins de semana.<\/p>\n<div>Gabriel Castro\/VEJA<img decoding=\"async\" title=\"\" alt=\"\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/assets\/images\/2014\/10\/246673\/DSCF9010-size-300.jpg\" data-original=\"\/assets\/images\/2014\/10\/246673\/DSCF9010-size-300.jpg\" \/>Rua central de Albertina (MG)<\/p>\n<\/div>\n<p>A vantagem de A\u00e9cio Neves na cidade se deve, pelo menos em parte, a uma obra concreta entregue pelo governo tucano em Minas:\u00a0o asfaltamento da estrada de 15 quil\u00f4metros\u00a0que leva \u00e0 vizinha Jacutinga (MG). A pista \u00e9 essencial porque uma grande parcela dos moradores de Albertina trabalha ou estuda na cidade vizinha. A pavimenta\u00e7\u00e3o foi conclu\u00edda j\u00e1 na gest\u00e3o de Antonio Anastasia (PSDB), eleito senador neste ano, e consolidou a popularidade do grupo pol\u00edtico do PSDB\u00a0na cidade.<\/p>\n<p>Mas esse n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico motivo. Albertina tem um hist\u00f3rico de vota\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis ao PSDB nos planos nacional e estadual. Em 1994 e 1998, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso tamb\u00e9m teve mais de 80% dos votos contra Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Na cidade, o PT n\u00e3o tem palanque. Os nove vereadores apoiam A\u00e9cio e pertencem a poucos partidos pouco identificados com a esquerda: PP, PRTB, PTB, PTN e PSD. Assim como o prefeito Rovilson Ferreira, do PTB, que faz campanha para o tucano.\u00a0Albertina \u00e9 a t\u00edpica cidade onde o PT ainda n\u00e3o conseguiu ganhar for\u00e7a. Em 2012, o diret\u00f3rio municipal do partido\u00a0se aliou ao DEM e ao PSDB \u00a0para apoiar o candidato PP \u00e0 prefeitura, que acabou derrotado.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucos indecisos nas ruas de Albertina:\u00a0&#8220;Tenho mais confian\u00e7a no A\u00e9cio e\u00a0e as propostas dele s\u00e3o bem melhores.\u00a0Lula e Dilma n\u00e3o fizeram nada&#8221;, diz a farmac\u00eautica Cristiane Mascarelo. O aposentado Benedito Celestino tamb\u00e9m apoia o tucano: &#8220;O A\u00e9cio tem postura de estadista, passa confian\u00e7a. E a Dilma, antes de ajudar Cuba ou outro pa\u00eds, primeiro tinha que se preocupar com o\u00a0Brasil&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Territ\u00f3rio vermelho \u2013<\/strong>\u00a0Mais de mil quil\u00f4metros ao norte de Albertina, a cidade de Pedras de Maria da Cruz surge como uma clareira \u00e0s margens do\u00a0S\u00e3o Francisco. Apesar de ser banhada pelo rio, a cidade est\u00e1 no semi\u00e1rido e tem clima e vegeta\u00e7\u00e3o semelhante aos do sert\u00e3o nordestino.\u00a0A economia \u00e9 movida pela atividade de pequenas \u00e1reas de plantio e cria\u00e7\u00e3o de gado. A pesca nas \u00e1guas do S\u00e3o Francisco tamb\u00e9m garante alimento e uma fonte m\u00ednima de renda a muitos habitantes.<\/p>\n<div>Gabriel Castro\/VEJA<img decoding=\"async\" title=\"\" alt=\"\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/assets\/images\/2014\/10\/246685\/DSCF9084a-size-300.jpg\" data-original=\"\/assets\/images\/2014\/10\/246685\/DSCF9084a-size-300.jpg\" \/>Rua sem pavimenta\u00e7\u00e3o em Pedras de Maria da Cruz<\/p>\n<\/div>\n<p>Entre os eleitores de Dilma ouvidos pelo site de VEJA na cidade, uma frase era recorrente: &#8220;Pelo menos ela a gente conhece&#8221;. Apesar de A\u00e9cio Neves ter governado Minas Gerais, o eleitorado se sente mais seguro com a perman\u00eancia do governo atual. Josias da Silva,\u00a0por exemplo, comprou sua primeira motocicleta h\u00e1 uma semana. Recebendo sal\u00e1rio m\u00ednimo, ele conseguiu pagar \u00e0 vista a maior parte dos 5.500 reais necess\u00e1rios para adquirir o produto. E atribui\u00a0melhoria de vida que teve nos \u00faltimos anos ao governo do PT.<\/p>\n<p>Josias \u00e9 beneficiado pelos 190 reais mensais que ele e a esposa recebem de Bolsa Fam\u00edlia. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 comum na cidade: formal ou informalmente, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o trabalha mas permanece recebendo o benef\u00edcio federal. O aposentado\u00a0diz que n\u00e3o gosta de A\u00e9cio: &#8221;O que o A\u00e9cio vai fazer \u00e9 tirar dos pobres e por para os ricos. Ele vai tirar o Bolsa Fam\u00edlia&#8221;. A\u00a0dona de casa Vanusa Lopes, tamb\u00e9m benefici\u00e1ria do programa federal de transfer\u00eancia de renda, diz que a presidente tem feito um bom trabalho:\u00a0&#8220;A maioria da nossa popula\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9 carente. Pelo que a gente v\u00ea no jornal, dizem que o PSDB apoia mais as pessoas que t\u00eam mais condi\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 um c\u00e1lculo racional e pol\u00edtico e ele deve ser considerado leg\u00edtimo. O eleitor pensa a partir de sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de vida&#8221;, avalia\u00a0o professor Robson S\u00e1vio, cientista pol\u00edtico da PUC mineira.<\/p>\n<p><strong>Explica\u00e7\u00e3o \u2013\u00a0<\/strong>Os n\u00fameros da elei\u00e7\u00e3o em Pedras de Maria da Cruz podem dar a impress\u00e3o de que a cidade \u00e9 historicamente simp\u00e1tica ao PT. Mas uma an\u00e1lise nos resultados das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es\u00a0resolve a charada. Pedras da Cruz de Maria n\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio\u00a0petista: \u00e9, isso sim, governista. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1998, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso teve 77% dos votos no munic\u00edpio. Mesmo em 2002, quando Luiz In\u00e1cio Lula da Silva venceu de Norte a Sul do pa\u00eds, quem obteve mais votos na cidade foi o tucano Jos\u00e9 Serra: ele era visto como a op\u00e7\u00e3o mais segura para manter os avan\u00e7os do governo Fernando Henrique Cardoso.<\/p>\n<p>O discurso de guerra de classes fomentado pelo PT continua funcionando. Por isso, as diferentes vota\u00e7\u00f5es de A\u00e9cio e Dilma em Minas Gerais tem pouco a ver com a geografia.\u00a0&#8220;A divis\u00e3o \u00e9 muito mais socioecon\u00f4mica do que geogr\u00e1fica. Nos\u00a0estados do Sul ou do Sudeste, Dilma\u00a0est\u00e1 mais bem votada entre os de menor faixa salarial&#8221;, diz o cientista pol\u00edtico Carlos\u00a0Ranulfo, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).\u00a0Os n\u00fameros comprovam\u00a0a tese. Dos dez munic\u00edpios mineiros\u00a0com maior \u00cdndice de Desenvolvimento Humano,\u00a0oito deram vit\u00f3ria a A\u00e9cio Neves. Entres dez menores \u00edndices, nove optaram por Dilma Roussseff.<\/p>\n<p>Na cidade de Albertina,\u00a0apenas 9% da popula\u00e7\u00e3o recebem o Bolsa Fam\u00edlia e 3% est\u00e3o abaixo da linha da\u00a0pobreza. J\u00e1 em Pedras de Maria da Cruz, um ter\u00e7o\u00a0dos moradores s\u00e3o considerados pobres e\u00a0mais de 60%\u00a0recebem o Bolsa Fam\u00edlia. Isso refor\u00e7a a tese de que A\u00e9cio tem um desempenho superior nas cidades com menos depend\u00eancia de programas federais.\u00a0A comerci\u00e1ria Fab\u00edola Parmezani, moradora de Albertina, explica: &#8220;A cidade n\u00e3o tem nem muitos ricos nem muitos pobres. E, quando algu\u00e9m necessita, sempre tem quem ajuda com alimento, roupa. As pessoas dependem menos do bendito Bolsa Fam\u00edlia&#8221;.<\/p>\n<p>O vencedor das elei\u00e7\u00f5es deste domingo precisar\u00e1 de um bom desempenho em Minas Gerais. Seja qual for o candidato eleito para a Presid\u00eancia, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel saber quem ter\u00e1 a maioria dos votos em Albertina em Pedras de Maria da Cruz. Por isso, a\u00a0cidade mineira que mais representa a\u00a0polariza\u00e7\u00e3o do segundo turno \u00e9 outra: Inha\u00fama, onde os dois empataram na primeira etapa da vota\u00e7\u00e3o. Dilma e A\u00e9cio tiveram, cada um, 1.571 votos. N\u00e3o por acaso, o munic\u00edpio fica no centro do Estado, no meio do caminho entre as fortalezas eleitorais de Dilma e A\u00e9cio.<\/p>\n<p>Fonte: Revista Veja<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A elei\u00e7\u00e3o de 2014 vai ficar marcada como uma disputa intensa e imprevis\u00edvel do come\u00e7o ao fim. Na reta final da campanha,\u00a0a \u00faltima batalha ser\u00e1 travada em Minas Gerais. O Estado, hoje, \u00e9 um territ\u00f3rio dividido: em nenhum outro lugar do Brasil houve vota\u00e7\u00f5es t\u00e3o discrepantes: em alguns munic\u00edpios do norte mineiro, Dilma obteve mais de 80% dos votos. Em outros, mais ao\u00a0sul,\u00a0A\u00e9cio foi quem ultrapassou essa marca. Os dois candidatos escolheram Minas Gerais para encerrar a campanha, neste s\u00e1bado, porque sabem o que est\u00e1 em jogo. 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