{"id":49004,"date":"2013-03-08T11:02:36","date_gmt":"2013-03-08T14:02:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=49004"},"modified":"2013-03-08T11:02:36","modified_gmt":"2013-03-08T14:02:36","slug":"programa-de-transferencia-de-renda-fortalece-cidadania-da-mulher-do-interior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2013\/03\/08\/programa-de-transferencia-de-renda-fortalece-cidadania-da-mulher-do-interior\/","title":{"rendered":"Programa de transfer\u00eancia de renda fortalece cidadania da mulher do interior"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ag\u00eancia Brasil<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo &#8211; &#8220;Com o dinheiro, a gente tem mais liberdade&#8221;. Mais do que estar livre para consumir, a frase de uma benefici\u00e1ria do Programa Bolsa Fam\u00edlia, moradora da regi\u00e3o do Vale do Jequitinhonha (MG), revela outro tipo de autonomia possibilitada pelo recebimento de uma renda fixa mensal: a liberdade para fazer escolhas sobre a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Pesquisa da soci\u00f3loga Walqu\u00edria Le\u00e3o R\u00eago, professora da Universidade de Campinas (Unicamp), mostra que o programa levou uma l\u00f3gica de planejamento familiar para essas mulheres e desencadeou processos que favoreceram o papel delas como cidad\u00e3s. De 2006 a 2012, foram entrevistadas cerca de 150 mulheres que recebem recursos do programa de transfer\u00eancia de renda.<\/p>\n<p>&#8220;Dizer que com o dinheiro elas t\u00eam mais liberdade, \u00e0s vezes, foi o jeito que ela teve para assegurar: &#8216;eu sou mais livre&#8217;, avaliou Walqu\u00edria. A pesquisa Vozes do Bolsa Fam\u00edlia ser\u00e1 publicada em livro ainda neste semestre.<!--more--><\/p>\n<p>As entrevistas foram feitas no interior e no litoral de Alagoas, no sert\u00e3o do Piau\u00ed, na regi\u00e3o do Vale do Jequitinhonha e na periferia de S\u00e3o Lu\u00eds, capital do Maranh\u00e3o. &#8220;Eu queria come\u00e7ar por algumas das regi\u00f5es mais desassistidas pelo Estado brasileiro&#8221;, justificou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Atitudes tomadas pelas mulheres, como encorajar-se para pedir o div\u00f3rcio, refletir sobre quantos filhos deseja ter, comprar um batom pela primeira vez, abrir uma conta no mercadinho da cidade s\u00e3o algumas das situa\u00e7\u00f5es observadas no estudo.<\/p>\n<p>O cart\u00e3o e a senha do Bolsa Fam\u00edlia ficam sob o controle delas. &#8220;\u00c9 diferente de dar cesta b\u00e1sica, porque voc\u00ea est\u00e1 dizendo o que a pessoa tem que comer e quanto. Apesar de a renda ser pequena, [com o dinheiro] voc\u00ea oferece um leque de op\u00e7\u00f5es, de escolhas. Isso trouxe [para elas] uma liberdade pessoal maior, que n\u00f3s chamamos de efeito moral. Abrem-se brechas de liberdade na vida delas&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>A professora contou que a ideia inicial do trabalho era entender se as benefici\u00e1rias consideravam a bolsa um direito ou um favor. &#8220;Mas, \u00e0 medida que fomos nos aprofundando nas entrevistas e nas pesquisas te\u00f3ricas, fomos vendo que o fato de elas receberem uma renda monet\u00e1ria regular provocava um efeito muito especial, pr\u00f3prio da fun\u00e7\u00e3o social do dinheiro&#8221;, relatou. Segundo Walqu\u00edria, uma dessas fun\u00e7\u00f5es \u00e9 &#8220;decidir com ele o que voc\u00ea quer fazer&#8221;.<\/p>\n<p>A possibilidade de pensar adiante mudou a perspectiva de vida dessas mulheres. &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 submetida completamente \u00e0 mis\u00e9ria, de tal modo que n\u00e3o tem nenhuma oportunidade de determinar nada em sua vida. Voc\u00ea sai atr\u00e1s de comida, se achar come, se n\u00e3o achar n\u00e3o come&#8221;, exp\u00f4s a pesquisadora, considerando a condi\u00e7\u00e3o anterior das benefici\u00e1rias.<\/p>\n<p>Entre os efeitos morais encontrados pela autora do trabalho est\u00e1 a manifesta\u00e7\u00e3o do desejo de fazer a cirurgia de laqueadura. &#8220;[Isso] j\u00e1 \u00e9 algo que est\u00e1 no horizonte delas. Essa ideia de que querem se encher de filhos para aumentar a bolsa \u00e9 puro preconceito. Como qualquer mulher do mundo, elas t\u00eam medo da gravidez, gostariam de ter menos filhos&#8221;, disse. As condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos maridos que, para conseguir algum servi\u00e7o, passam meses fora de casa tamb\u00e9m contribuem para a vontade de evitar a gravidez. &#8220;Fica sob a responsabilidade delas administrar toda a vida das crian\u00e7as&#8221;, destacou.<\/p>\n<p>A pesquisadora tamb\u00e9m identificou casos em que as mulheres se encorajam para pedir o div\u00f3rcio de um marido violento. &#8220;Esses assuntos s\u00e3o ainda cercados de tabus. Elas t\u00eam grande dificuldade de falar sobre isso. \u00c0s vezes, quando consegui conversar com a mesma mulher pela terceira vez, houve uma abertura maior para falarmos sobre esse assunto&#8221;, contou.<\/p>\n<p>Apesar de obter relatos que deixam claras situa\u00e7\u00f5es emancipat\u00f3rias vivenciadas pelas mulheres, a professora ponderou que existem fatores culturais que interferem fortemente nesse contexto, como a religi\u00e3o e a fam\u00edlia. &#8220;H\u00e1 um caso ou outro em que isso aconteceu, mas \u00e9 um assunto muito dif\u00edcil de falar com elas. Nessas regi\u00f5es, a fam\u00edlia tem um peso muito grande. Normalmente, elas moram perto da sogra ou dos pais&#8221;.<\/p>\n<p>Embora algumas mulheres tenham relatado compras de cosm\u00e9ticos, como um xampu ou um batom, com recursos do benef\u00edcio, a pesquisadora destacou que essa quest\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de ser assumida. &#8220;O dinheiro do Bolsa Fam\u00edlia \u00e9 gasto, em primeiro lugar, com comida para as crian\u00e7as. Essa \u00e9 uma moralidade muito forte que elas t\u00eam. Tanto que, quando voc\u00ea indaga sobre cuidados com o corpo, elas ficam muito assustadas com a pergunta&#8221;.<\/p>\n<p>De acordo com Walqu\u00edria, para citar que comprou um item de beleza, a mulher, em primeiro lugar, enumera os gastos com as crian\u00e7as. &#8220;Ela acha que \u00e9 como se estivesse confessando um erro. Precisa explicar que comprou material escolar, comida, mas sobrou um pouquinho e ela p\u00f4de parcelar em duas vezes. Elas v\u00e3o aprendendo a administrar a escassez do dinheiro, e algumas me contaram: &#8216;eu comprei xampu, eu estou comprando batom, esmalte para unha&#8217;. Ent\u00e3o, o cuidado consigo mesma, com o corpo, ainda est\u00e1 em segundo, terceiro lugar&#8221;.<\/p>\n<p>Outra fun\u00e7\u00e3o do dinheiro nesses casos foi o estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a. &#8220;\u00c9 muito comum elas contarem que agora podem ir ao mercadinho e dizer: &#8216;olha, meu dinheiro n\u00e3o chegou ainda, mas est\u00e1 aqui o meu cart\u00e3o, eu vou levar e quando sair [o dinheiro], venho aqui e pago&#8217;. O dinheiro trouxe uma experi\u00eancia nova de confiabilidade para essas mulheres&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Segundo Walqu\u00edria, anteriormente elas sequer entrariam nessas lojas, porque o dono sabia que n\u00e3o poderiam comprar nada. &#8220;Voc\u00ea h\u00e1 de convir que nesses lugares as mulheres serem confi\u00e1veis \u00e9 um ganho de autonomia e liberdade muito grande. E de autoestima&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Ag\u00eancia Brasil S\u00e3o Paulo &#8211; &#8220;Com o dinheiro, a gente tem mais liberdade&#8221;. Mais do que estar livre para consumir, a frase de uma benefici\u00e1ria do Programa Bolsa Fam\u00edlia, moradora da regi\u00e3o do Vale do Jequitinhonha (MG), revela outro tipo de autonomia possibilitada pelo recebimento de uma renda fixa mensal: a liberdade para fazer escolhas sobre a pr\u00f3pria vida. 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