{"id":43945,"date":"2012-04-18T07:24:30","date_gmt":"2012-04-18T10:24:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=43945"},"modified":"2012-04-18T07:24:30","modified_gmt":"2012-04-18T10:24:30","slug":"do-filtro-ao-dominio-do-tempo-redes-sociais-exibem-os-impasses-da-convivencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2012\/04\/18\/do-filtro-ao-dominio-do-tempo-redes-sociais-exibem-os-impasses-da-convivencia\/","title":{"rendered":"Do filtro ao dom\u00ednio do tempo: redes sociais exibem os impasses da conviv\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Bruno Aziz | A TARDE<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 sempre um sorriso em pixels e uma janela que pisca, insinuante e curvil\u00ednea, para nos dizer do que se ocupam os outros. Aberto a intera\u00e7\u00e3o, est\u00e1 aquilo que v\u00eaem, escutam e pensam nossos contatos etiquetados como amigos. Jo\u00e3o fala bengali e l\u00ea Nietzsche. Maria dedica-se aos resqu\u00edcios de sua desilus\u00e3o amorosa. Em um territ\u00f3rio loteado por redes sociais, parece apropriado que nesta quarta-feira, 18, quando se comemora o Dia do Amigo criado pelo argentino Enrique Febraro (h\u00e1, ainda, o Dia do Amigo em 20 de julho, mesma data da chegada do homem \u00e0 lua) voltemos a quest\u00e3o: de que forma a internet reconfigura nossas formas de conviver?<!--more--><\/p>\n<p>Se voc\u00ea logo aponta para a superficialidade das rela\u00e7\u00f5es, estudos recentes v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Nunca se estreitou tanto os la\u00e7os como agora. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Toronto, por exemplo, constatou que a internet possibilita estabelecer la\u00e7os \u00edntimos de forma mais r\u00e1pida e eficaz. E se seu inc\u00f4modo vem do excesso de exposi\u00e7\u00e3o, o centro de estudos de internet da Universidade de Harvard indica que vivemos em um momento de ressignifica\u00e7\u00e3o do conceito de privacidade, no qual novos valores sobre o que deve ou n\u00e3o ser p\u00fablico est\u00e3o sendo fundados.<\/p>\n<p>&#8220;A quest\u00e3o tem menos a ver com privacidade ou tipo de rela\u00e7\u00e3o que mantemos, e mais com o excesso de informa\u00e7\u00e3o a que estamos expostos&#8221;, diz a pesquisadora do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo L\u00edgia Telles. &#8220;Todos dizem o que pensam o tempo todo sobre qualquer assunto. Somos expostos a not\u00edcias s\u00e9rias e f\u00fateis no mesmo ambiente, em uma espiral de informa\u00e7\u00e3o que tende a nos puxar para baixo&#8221;.<\/p>\n<p>Retomando o trabalho de autores como Nicolas Carr (do livro &#8220;O que a internet est\u00e1 fazendo com os nossos c\u00e9rebros&#8221;) e Tyler Cowen (de &#8220;O guia da prosperidade em um mundo em desordem&#8221;), L\u00edgia aponta para a absor\u00e7\u00e3o de conte\u00fado de forma ca\u00f3tica, geradora de um comportamento bastante compartilhado: olhar a caixa de email a cada cinco minutos, verificar compulsivamente atualiza\u00e7\u00f5es no\u00a0<a href=\"http:\/\/pt-br.facebook.com\/\" target=\"_blank\">Facebook<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/\" target=\"_blank\">Twitter<\/a>. O consumo de informa\u00e7\u00e3o desenfreado, em pequenas doses distribu\u00eddas aleatoriamente, estaria mudando nossa maneira de pensar.<\/p>\n<p>Se, por um lado, o contato constante com unidades de informa\u00e7\u00e3o pode nos manter atentos por mais tempo, aprimorando nossa capacidade cognitiva (como defende Cowen), por outro, essa media\u00e7\u00e3o pode nos oferecer como resposta a ansiedade e o vazio (tese de Carr). No centro da quest\u00e3o, defende L\u00edgia, est\u00e1 a curadoria.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o se trata de ser bom ou ruim, mas de que forma reunimos e manipulamos a informa\u00e7\u00e3o do mundo externo e relacionamos com nossas preocupa\u00e7\u00f5es individuais. O filtro \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia que podemos adotar&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Isolados<\/strong>\u00a0&#8211; A rede social mais popular do mundo parece ser aquela que exp\u00f5e com maior clareza os males de uma curadoria deficiente. O Facebook, com seus 850 milh\u00f5es de usu\u00e1rios &#8211; no Brasil, a rede tem 36,1 milh\u00f5es de usu\u00e1rios ativos, contra 34,4 do concorrente\u00a0<a href=\"http:\/\/www.orkut.com.br\/PreSignup\" target=\"_blank\">Orkut<\/a>, segundo dados da empresa de medi\u00e7\u00e3o ComScore &#8211; &#8220;mimetiza a liberdade oferecida pela web 2.0, potencializando a exposi\u00e7\u00e3o a conte\u00fados de todo tipo. O polegar levantado, com toda sua simplicidade, virou o elemento essencial da autopublica\u00e7\u00e3o&#8221;, como acredita o professor da Universidade de Navarra Jos\u00e9 Serrano.<\/p>\n<p>Serrano, al\u00e9m de dedicar-se ao estudo dos efeitos da informa\u00e7\u00e3o, debru\u00e7a-se sobre outro fen\u00f4meno a que estamos imersos e que, ironicamente, nada tem de social. Tomando como base o Facebook, uma caracter\u00edstica chama sua aten\u00e7\u00e3o: a presen\u00e7a de softwares que, cruzando dados dos usu\u00e1rios, cria sistemas de recomenda\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea interage com amigos espec\u00edficos, s\u00e3o as atualiza\u00e7\u00f5es deles (o que fazem e os links que postam) que aparecer\u00e3o na sua tela; se voc\u00ea troca mensagens com palavras como &#8220;cinema&#8221; ou &#8220;m\u00fasica&#8221;, an\u00fancios de DVDs e CDs cintilar\u00e3o \u00e0 sua frente. \u00c9 como se a rede estivesse filtrando informa\u00e7\u00f5es o tempo todo e suprimindo aquilo que, supostamente, n\u00e3o interessa.<\/p>\n<p>Para Serrano, esse tipo de recomenda\u00e7\u00e3o cria uma &#8220;bolha antissocial&#8221;. No lugar da liberdade irrestrita para passear por caminhos diversos, estar\u00edamos fechados em uma sala com possibilidades e combina\u00e7\u00f5es limitadas.<\/p>\n<p>&#8220;Somos desencorajados a caminhar sem um prop\u00f3sito definido, como quando entramos em uma grande loja de discos e descobrimos o desconhecido. Essa media\u00e7\u00e3o \u00e9 isolante, embora a diversidade proporcionada pela internet esteja sempre dispon\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>A opini\u00e3o encontra eco em Bia Granja, organizadora e curadora do\u00a0<a href=\"http:\/\/youpix.com.br\/festival\/\" target=\"_blank\">festival YouPix<\/a>, o maior evento dedicado a cultura da internet no Brasil. Destacando que a a\u00e7\u00e3o de softwares e algoritmos para dizer o que \u00e9 importante impede o acesso a opini\u00f5es diferentes, Bia acredita que encontrar perfis e respostas variadas na timeline \u00e9 o passo \u201cvital para termos uma vis\u00e3o t\u00e3o ampla quanto a internet sugere em sua ess\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Imag\u00e9ticos<\/strong>\u00a0&#8211; \u00c9 tamb\u00e9m o Facebook que indica o aspecto em ascens\u00e3o revelador sobre todos n\u00f3s: a predile\u00e7\u00e3o por uma comunica\u00e7\u00e3o feita atrav\u00e9s de fotos e n\u00e3o por textos. A rede criada por Mark Zuckberg tem 70% de suas intera\u00e7\u00f5es feitas por imagens e, na semana passada, anunciou a aquisi\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"http:\/\/instagr.am\/\" target=\"_blank\">Instagram<\/a>, aplicativo fotogr\u00e1fico para dispositivos m\u00f3veis que oferece aos seus usu\u00e1rios a possibilidade de utilizar filtros nas imagens.<\/p>\n<p>A investida vem fundada no pr\u00f3prio crescimento de redes cuja media\u00e7\u00e3o \u00e9 feita por fotos. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.tumblr.com\/\" target=\"_blank\">Tumblr<\/a>, uma esp\u00e9cie de blog dedicado a imagens, cresceu 1.540% de fevereiro de 2010 para fevereiro de 2011, chegando a 15 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, segundo a ComScore. O\u00a0<a href=\"http:\/\/pinterest.com\/\" target=\"_blank\">Pinterest<\/a>, que possibilita criar um mural com refer\u00eancias est\u00e9ticas (roupas, objetos, paisagens), chegou a 11 milh\u00f5es de usu\u00e1rios e, em mar\u00e7o deste ano, recebeu 104 milh\u00f5es de visitas, ficando atr\u00e1s apenas do Facebook (7 bilh\u00f5es) e Twitter (182 milh\u00f5es), segundo dados da Experian Hitwise. E o pr\u00f3prio Instagram, criado h\u00e1 600 dias e vendido ao Facebook por 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares, j\u00e1 vale mais que o centen\u00e1rio jornal New York Times, que tem suas a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas estimadas em 950 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Para Ligia, o poder agregado a essas redes \u2013 e, consequentemente, nosso interesse pela linguagem visual \u2013 pode ser explicado pela \u201cefici\u00eancia na comunica\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cA foto tem uma linguagem emocional e universal\u201d. Mas a raiz da escolha por imagens, ela acredita, \u00e9 o ponto de partida para entender como o homem movimenta-se na contemporaneidade.<\/p>\n<p>\u201cA imagem deixa aberta a decis\u00e3o de quanto voc\u00ea quer dedicar a ela: um segundo ou uma hora. E isso tem a ver com o tempo\u201d, diz. \u201cDominar o tempo foi sempre uma possibilidade valiosa. Agora, passou a ser existencial\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Bruno Aziz | A TARDE H\u00e1 sempre um sorriso em pixels e uma janela que pisca, insinuante e curvil\u00ednea, para nos dizer do que se ocupam os outros. Aberto a intera\u00e7\u00e3o, est\u00e1 aquilo que v\u00eaem, escutam e pensam nossos contatos etiquetados como amigos. Jo\u00e3o fala bengali e l\u00ea Nietzsche. Maria dedica-se aos resqu\u00edcios de sua desilus\u00e3o amorosa. Em um territ\u00f3rio loteado por redes sociais, parece apropriado que nesta quarta-feira, 18, quando se comemora o Dia do Amigo criado pelo argentino Enrique Febraro (h\u00e1, ainda, o Dia do Amigo em 20 de julho, mesma data da chegada do homem \u00e0&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-43945","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"acf":[],"views":450,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43945"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43945\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43946,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43945\/revisions\/43946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}