{"id":4091,"date":"2010-03-25T14:40:11","date_gmt":"2010-03-25T17:40:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=4091"},"modified":"2010-03-25T14:40:11","modified_gmt":"2010-03-25T17:40:11","slug":"vinte-anos-depois-do-plano-collor-ex-presidente-pede-desculpas-a-populacao-pelo-bloqueio-do-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/03\/25\/vinte-anos-depois-do-plano-collor-ex-presidente-pede-desculpas-a-populacao-pelo-bloqueio-do-dinheiro\/","title":{"rendered":"Vinte anos depois do Plano Collor, ex-presidente pede desculpas \u00e0 popula\u00e7\u00e3o pelo bloqueio do dinheiro"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"[Fotos: Arquivo Nacional e Moreira Mariz]\" src=\"http:\/\/www.senado.gov.br\/noticia\/multimidia\/verImagem.aspx?codImagem=215943\" border=\"0\" alt=\"[Fotos: Arquivo Nacional e Moreira Mariz]\" width=\"360\" height=\"269\" \/><\/div>\n<p>&#8220;Pe\u00e7o desculpas, as mais sentidas e as mais humildes, aos brasileiros que passaram por constrangimentos, traumas, medos, incertezas e dramas pessoais com o bloqueio do dinheiro. Lamento que tenha acontecido. Hoje, n\u00e3o faria de novo&#8221;. Assim o senador Fernando Collor (PTB-AL) se manifesta hoje sobre o empr\u00e9stimo compuls\u00f3rio que deixou apenas 50 mil cruzados novos (equivalente a R$ 6 mil) nas contas correntes, cadernetas de poupan\u00e7a e demais investimentos em 16 de mar\u00e7o de 1990, dia posterior \u00e0 posse do primeiro presidente eleito ap\u00f3s o regime militar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a minha agenda macroecon\u00f4mica prevalece at\u00e9 hoje, quebrou tabus como a abertura da economia, a Lei da Inform\u00e1tica, as reservas de mercado, as privatiza\u00e7\u00f5es, o n\u00e3o-calote da d\u00edvida externa. Tudo isso era parte do plano de estabiliza\u00e7\u00e3o, mas hoje s\u00f3 falam no bloqueio do dinheiro &#8211; lamenta Collor.<!--more--><\/p>\n<p>O hoje senador, que renunciou \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em dezembro de 1992, na reta final do processo de <em>impeachment<\/em>, garante que sua queda foi &#8220;orquestrada pelo grande empresariado&#8221;, que n\u00e3o aceitou a perda de privil\u00e9gios, reservas de mercado e n\u00e3o absorveu a competi\u00e7\u00e3o com produtos estrangeiros decorrente da abertura de mercado.<\/p>\n<p>&#8211; Minha queda come\u00e7ou na Avenida Paulista, ainda em 1990, pouco tempo depois da posse &#8211; disse Collor, que tem pronto um livro em que conta detalhes de todo o per\u00edodo, com conversas e conspira\u00e7\u00f5es, mas que n\u00e3o sabe ainda quando ser\u00e1 lan\u00e7ado. Fernando Collor concedeu a seguinte entrevista \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Senado<\/strong> e \u00e0 <strong>R\u00e1dio Senado<\/strong>:<\/p>\n<p><strong>Em que momento da campanha o senhor sentiu que a vit\u00f3ria era mais do que prov\u00e1vel e, a partir da\u00ed, come\u00e7ou a montar uma equipe, escolher cada um, elaborar o Plano Brasil Novo, com uma infla\u00e7\u00e3o j\u00e1 de 84% ao m\u00eas?<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Desde a campanha, sab\u00edamos que os problemas na economia que ir\u00edamos enfrentar eram de uma magnitude nunca vista no Brasil do s\u00e9culo passado. Por isso, pensamos em um plano que aproveitasse os erros e acertos do Plano Cruzado, para ter chances de \u00eaxito. Quando a candidatura come\u00e7ou a ganhar musculatura, a ter resposta nas ruas e nas pesquisas e o segundo turno parecia certo, iniciamos ent\u00e3o a prepara\u00e7\u00e3o do programa de governo, que teve a coordena\u00e7\u00e3o da economista Z\u00e9lia Cardoso de Mello.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E como o senhor chegou ao nome da Z\u00e9lia? J\u00e1 a conhecia?<\/strong><span style=\"text-decoration: underline;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Sim, eu a conheci quando eu era governador de Alagoas e ela, assessora do ent\u00e3o ministro da Fazenda D\u00edlson Funaro, que a designou para acompanhar o meu governo, o ajuste fiscal e as reformas que faz\u00edamos para equilibrar as contas do estado. Quando o ministro Funaro deixou o governo, a doutora Z\u00e9lia continuou a trabalhar conosco, eu a contratei, ela formou uma equipe e nos prestou assessoria. Quando, j\u00e1 candidato a presidente, comecei a elaborar meu programa de governo, eu a convidei para coordenar o trabalho.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O senhor j\u00e1 tinha id\u00e9ia, durante a campanha, do que iria fazer depois de eleito?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. As contas p\u00fablicas estavam absolutamente deterioradas, tudo estava indexado em uma ciranda realimentadora da infla\u00e7\u00e3o absurda, a d\u00edvida externa era insuport\u00e1vel, as reservas em moeda estrangeira estavam zeradas. Mas o pior de tudo era a infla\u00e7\u00e3o que impedia qualquer planejamento, tanto de governo quanto da vida das pessoas comuns. Era o pior dos impostos, o elemento mais cruel e concentrador de renda de uma economia, que castiga justamente os mais pobres, que n\u00e3o podem se defender. Esse era o problema mais imediato. Mas a agenda que implantamos permanece at\u00e9 hoje, e permitiu o sucesso do Plano Real dois anos depois. Era tabu, era proibido no pa\u00eds falar em abertura da economia, no fim das reservas de mercado como o da inform\u00e1tica.<\/p>\n<p>Diziam que abrir o mercado de inform\u00e1tica permitiria que o capital internacional tivesse acesso \u00e0 nossa intelig\u00eancia, aos nossos segredos, ao nosso conhecimento.Diziam que a d\u00edvida externa n\u00e3o deveria ser paga, porque era ileg\u00edtima, fora contra\u00edda de forma irregular. Diziam que o Brasil deveria romper com o FMI. Tanto que o nosso programa, em entrevistas e debates, era o oposto dos outros candidatos. N\u00f3s j\u00e1 fal\u00e1vamos em estado menos pesado e mais eficiente, em abertura da economia. Os outros candidatos defendiam um estado que resolvesse todos os problemas do pa\u00eds; diziam que a abertura da economia iria quebrar a ind\u00fastria brasileira, constru\u00edda para substituir importa\u00e7\u00f5es. Diziam que a ind\u00fastria automobil\u00edstica n\u00e3o poderia competir com os carros importados, iria fechar e provocar desemprego.\u00a0<\/p>\n<p>O \u00fanico ponto em comum que todos t\u00ednhamos, e era um consenso na sociedade inteira, era a urg\u00eancia de vencer a infla\u00e7\u00e3o. O resto eram falsos dilemas, que foram desmoralizados e n\u00e3o s\u00e3o levados mais a s\u00e9rio, o que demonstra que, h\u00e1 20 anos, nossa vis\u00e3o estava correta. Infelizmente, n\u00e3o coube a mim estabilizar a economia, mas as bases, a semente do Plano Real foram lan\u00e7adas com a nossa agenda macroecon\u00f4mica.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E como se chegou \u00e0 id\u00e9ia de bloquear o dinheiro, os ativos financeiros, e como o senhor recebeu a id\u00e9ia?<\/strong><\/p>\n<p>Todo presidente aprende com o antecessor, tanto com os erros quanto com os acertos. No Plano Cruzado, vimos que o congelamento de pre\u00e7os foi feito em um momento de liquidez, n\u00e3o excessiva, mas real. E quem tinha dinheiro na ciranda financeira, no <em>overnight<\/em>, at\u00e9 mesmo quem vivia de sal\u00e1rio, correu \u00e0s compras, para aproveitar os pre\u00e7os congelados. Quem pensava em comprar geladeira, m\u00e1quina de lavar e televis\u00e3o nova, em trocar de carro, em consumir mais, correu \u00e0s lojas. E a ind\u00fastria, naquele momento, n\u00e3o estava preparada para repor estoques, para atender \u00e0 demanda. Veio o desabastecimento, as prateleiras ficaram vazias, as pessoas tinham o dinheiro mas n\u00e3o tinham o que comprar. A infla\u00e7\u00e3o voltou ent\u00e3o forte, uma infla\u00e7\u00e3o de demanda.\u00a0<\/p>\n<p>Quando tomamos posse, havia ainda mais liquidez, o dinheiro aplicado na ciranda financeira se havia decuplicado, o quadro de dinheiro em circula\u00e7\u00e3o era incontrol\u00e1vel, e a moeda valia cada vez menos.Vimos ent\u00e3o que um dos pressupostos b\u00e1sicos para estancar o processo, era um novo congelamento de pre\u00e7os. Mas n\u00e3o pod\u00edamos faz\u00ea-lo com todo aquele dinheiro dispon\u00edvel em bancos, em aplica\u00e7\u00f5es financeiras.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E a\u00ed veio a id\u00e9ia do bloqueio do dinheiro&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio, pensamos apenas em bloquear por tempo determinado os t\u00edtulos ao portador, os t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica, do Tesouro. Mas o mercado, essa coisa intang\u00edvel, sabe se defender muito bem. Quando ent\u00e3o falamos em acabar a infla\u00e7\u00e3o com um tiro s\u00f3, perceberam logo que vinha congelamento. E pensaram: v\u00e3o congelar, mas n\u00e3o podem incorrer no mesmo erro do Plano Cruzado. Ent\u00e3o, o bloqueio do dinheiro ser\u00e1 muito mais amplo. E todos come\u00e7aram a migrar dos investimentos para as contas correntes e para caderneta de poupan\u00e7a, houve at\u00e9 enormes saques em dinheiro. E n\u00f3s, \u00e0s v\u00e9speras da posse, est\u00e1vamos monitorando todo esse movimento.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Ainda na campanha, o senhor garantiu que a poupan\u00e7a seria preservada.<\/strong><\/p>\n<p>Eu nunca afirmei isso. Ao contr\u00e1rio, em um dos debates eu disse que o meu advers\u00e1rio \u00e9 que iria confiscar as poupan\u00e7as, justamente para evitar que a pergunta me fosse feita. O fato \u00e9 que, quando todos da minha equipe viram que as contas correntes e a poupan\u00e7a receberam enormes aportes, conclu\u00edmos que n\u00e3o bastava bloquear os t\u00edtulos, n\u00e3o seria suficiente. E posso garantir que todos os candidatos tinham a mesma inten\u00e7\u00e3o. O PT, o PMDB. Tanto \u00e9 verdade que, dois dias depois, economistas e pol\u00edticos do PT paulista, alguns ex-colegas da ministra Z\u00e9lia na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), a procuraram e disseram: &#8220;Era este exatamente o programa que quer\u00edamos aplicar. S\u00f3 que, no nosso caso, o governo cairia no dia seguinte&#8221;. Ent\u00e3o, todos trabalhavam com essa sa\u00edda. A grande surpresa foi o volume dos ativos, ningu\u00e9m esperava tanto. Mas n\u00f3s precis\u00e1vamos de um tempo para respirar e dar os passos seguintes, como renegociar a d\u00edvida externa; restabelecer a confian\u00e7a dos credores internacionais, abalada com a morat\u00f3ria de 1987; reiniciar as linhas de cr\u00e9dito; acenar com o programa liberal, mas com preocupa\u00e7\u00f5es sociais.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E como foi a rea\u00e7\u00e3o do empresariado brasileiro com a abertura da economia?<\/strong><\/p>\n<p>A minha queda come\u00e7ou na Avenida Paulista, com a insatisfa\u00e7\u00e3o dos que perderam suas reservas de mercado, seus privil\u00e9gios. Mas a ind\u00fastria brasileira deu um grande salto de produtividade e qualidade depois da abertura da economia. Criamos as c\u00e2maras setoriais para analisar cada setor, o que poderia ser feito para lhes garantir competitividade, como enfrentar a competi\u00e7\u00e3o internacional. Depois da abertura, nossos carros melhoraram, nossos computadores deram um salto de qualidade &#8211; a gente tinha uma coisa impens\u00e1vel que chamavam de computador, mas que era tr\u00eas ou quatro gera\u00e7\u00f5es atrasada em rela\u00e7\u00e3o ao que se encontrava em qualquer shopping norte-americano.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o t\u00ednhamos celular, fizemos uma campanha sem qualquer mem\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o a elei\u00e7\u00f5es anteriores, coordenar uma log\u00edstica nacional era uma coisa absurdamente dif\u00edcil. Hoje, temos celulares, computadores de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m mais pensa em reservas de mercado, ningu\u00e9m mais tem medo de privatiza\u00e7\u00f5es, a d\u00edvida externa est\u00e1 equacionada, e o in\u00edcio foi ali, no meu governo. Meu negociador da d\u00edvida externa foi o embaixador J\u00f3rio Dauster, que fez um extraordin\u00e1rio trabalho e reabriu as portas para o Brasil.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Voltando a falar do bloqueio de ativos: como se chegou ao valor de 50 mil cruzados novos? H\u00e1 muita especula\u00e7\u00e3o, e chegou-se at\u00e9 a falar em sorteio com papeizinhos, que teria sido na base do improviso&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Decidimos com base na caderneta de poupan\u00e7a. Porque n\u00e3o quer\u00edamos atingir o pequeno poupador, o t\u00edpico aplicador em caderneta, que vive de sal\u00e1rio, pens\u00e3o ou aposentadoria. Tiramos uma m\u00e9dia e vimos que 50 mil cruzados novos (NR: o equivalente, na \u00e9poca, a US$ 1.300) era a m\u00e9dia dos aplicadores em caderneta de poupan\u00e7a. No entanto, houve uma corrida para a poupan\u00e7a de grandes aplicadores.Hoje, quando se fala no Plano Brasil Novo, fala-se no bloqueio, fala-se em confisco, esquecendo-se de todo o conjunto do plano, e de que o dinheiro foi devolvido 18 meses depois, em 18 parcelas, com juros de 6%, acima do que pagava a poupan\u00e7a.Ao contr\u00e1rio de outros empr\u00e9stimos compuls\u00f3rios, como o das viagens ao exterior, no governo Geisel, e o da gasolina, nos anos 80, de que ningu\u00e9m nunca mais teve not\u00edcia, n\u00e3o recebeu o dinheiro de volta e nem sabe quanto perdeu.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E por que deu errado? O impacto do bloqueio do dinheiro teria sido t\u00e3o grande que levou a popula\u00e7\u00e3o a ficar contra o governo e o plano?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o sabotou. Ao contr\u00e1rio, uma pesquisa logo depois do plano mostrou que t\u00ednhamos 67% de aprova\u00e7\u00e3o. Erramos em uma s\u00e9rie de pequenas coisas, que se tornaram grandes. Por exemplo, na administra\u00e7\u00e3o da libera\u00e7\u00e3o do dinheiro no que cham\u00e1vamos de &#8220;torneiras&#8221;. Todo dia nos depar\u00e1vamos com uma surpresa. Nossas reservas cambiais eram atacadas no mercado, e n\u00f3s precis\u00e1vamos delas. Muitas frentes estavam abertas, mas a grande resist\u00eancia veio da Avenida Paulista, como disse, dos grandes industriais e empres\u00e1rios brasileiros, que n\u00e3o gostaram de perder suas reservas de mercado. Em nenhum momento tivemos problemas com sindicatos de trabalhadores ou partidos de oposi\u00e7\u00e3o, embora o PT j\u00e1 fosse uma oposi\u00e7\u00e3o forte e ativa.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Quem sabotou foram os que queriam manter privil\u00e9gios, aumentar pre\u00e7os e tarifas, a burocracia, os que se envolviam com a Cacex (C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Exterior do Banco do Brasil, que estabelecia tarifas de importa\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o). Enfim, era a mesma gente que me apoiou no segundo turno, que defendia a medidas que adotei. Mas logo percebi que defendiam as medidas em rela\u00e7\u00e3o ao vizinho, mas n\u00e3o aceitavam que fossem adotadas em rela\u00e7\u00e3o a eles pr\u00f3prios. Tanto que, quando o ent\u00e3o presidente da CUT, Jair Meneguelli, foi ao Pal\u00e1cio falar sobre greves e movimentos contra o plano, eu lhe disse: &#8220;N\u00e3o se preocupe, porque voc\u00eas, os trabalhadores, n\u00e3o desestabilizam o governo, mesmo com greves. Quem est\u00e1 realmente causando problemas s\u00e3o os seus patr\u00f5es, os industriais&#8221;.<\/p>\n<p><strong>E a perda do apoio congressual, principalmente no Senado?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 mesmo depois de 1991, quando tomou posse um novo Congresso. Tanto que, em 1990, todas as medidas foram aprovadas no Congresso Nacional e at\u00e9 pelo Judici\u00e1rio. A perda de apoio no Senado s\u00f3 aconteceu um ano depois, porque eu peguei na posse o Congresso anterior, do cruzado, foi uma elei\u00e7\u00e3o solteira para presidente da Rep\u00fablica. No ano seguinte, em 1990, a\u00ed sim, veio a elei\u00e7\u00e3o para o Congresso e, em 1991, tomou posse um Congresso Nacional que se defrontou com o desgaste do governo, renovou-se a C\u00e2mara dos Deputados e dois ter\u00e7os das cadeiras do Senado. E veio uma oposi\u00e7\u00e3o forte, ainda sob os efeitos do segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial e do desgaste do governo com o plano econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>O bloqueio do dinheiro provocou dramas pessoais, mexeu com a vida de milh\u00f5es debrasileiros, havia vi\u00favas que viviam dos rendimentos da poupan\u00e7a, foi traum\u00e1tico. Como o senhor v\u00ea hoje de uma perspectiva hist\u00f3rica tudo isso?<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Eu pe\u00e7o desculpas, as mais humildes e sentidas desculpas, a todas as pessoas e todas as fam\u00edlias que sofreram constrangimentos, medos, inseguran\u00e7as, contrariedades, viveram dramas pessoais, e tenho a dizer que lamento muito que isso tenha acontecido. Acho que, mais tarde, todos devem ter percebido que n\u00e3o tomei aquela medida por gosto, mas porque eu queria salvar o pa\u00eds e a popula\u00e7\u00e3o do flagelo da infla\u00e7\u00e3o, esse imposto draconiano que corroia sal\u00e1rios. Eu lamento que tenha acontecido, foi um sacrif\u00edcio muito maior do que eu teria imaginado.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O senhor disse que, na \u00e9poca, era tecnicamente inevit\u00e1vel, e que qualquer que fosse o eleito, faria o mesmo. De novo, com a dist\u00e2ncia hist\u00f3rica de hoje, faria o mesmo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o, \u00e9 a \u00fanica coisa que eu n\u00e3o faria de novo. H\u00e1 instrumentos hoje que permitiriam medidas mais brandas. Se a situa\u00e7\u00e3o se repetisse, seguramente eu n\u00e3o tomaria a mesma medida, n\u00e3o faria o bloqueio, encontraria f\u00f3rmula mais criativa, menos traum\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>A gente v\u00ea hoje a foto da equipe econ\u00f4mica anunciando o plano econ\u00f4mico, todos muito jovens. Faltou maturidade \u00e0 equipe, houve erros?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, faltou maturidade, havia muito voluntarismo, o que leva a erros. Aquele minist\u00e9rio era o do idealismo. \u00c9ramos todos jovens, sonhadores, com vontade de fazer o melhor para o pa\u00eds, com vontade de realizar o que sonh\u00e1vamos nas ruas, quando estudantes, em passeatas, em movimentos, nas universidades, combater o que critic\u00e1vamos. E essa juventude leva ao voluntarismo, que por sua vez leva a decis\u00f5es temer\u00e1rias, a correr riscos. Mas sem essa juventude, n\u00e3o ter\u00edamos a coragem de fazer o que fizemos, e que era preciso fazer. O governador Leonel Brizola, gentilmente, em sua posse, disse que &#8220;est\u00e3o tentando derrubar o Collor muito mais por suas qualidades do que por seus defeitos&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Vinte anos depois, o que o senhor pode contar daquele per\u00edodo, daquela crise, que n\u00e3o p\u00f4de contar ent\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso est\u00e1 contado em um livro que repousa docemente em dois disquetes, ainda nem pus em CD.Um livro que comecei a escrever logo depois da minha queda. Eu sei o que voc\u00eas querem que eu conte agora, mas n\u00e3o posso faz\u00ea-lo. Eventualmente, quando h\u00e1 alguma provoca\u00e7\u00e3o, alguma informa\u00e7\u00e3o errada, eu conto o que realmente houve. Recentemente, por exemplo, o Delfim Netto disse que n\u00e3o foi consultado na \u00e9poca do plano por ningu\u00e9m da equipe. Realmente, ningu\u00e9m da equipe o procurou, mas ele esteve comigo. Ele desmente e diz que, convenientemente, escolho s\u00f3 testemunhas j\u00e1 mortas. Mas h\u00e1 as esposas que estavam presentes. Este encontro foi na casa do ex-deputado Amaral Neto, e a d. \u00c2ngela, mulher dele, estava l\u00e1, um final de tarde, com o ent\u00e3o deputado Ricardo Fi\u00faza e o senador Roberto Campos. Eu os consultei sobre a situa\u00e7\u00e3o da economia, e todos foram un\u00e2nimes: com essa liquidez, nenhum plano anti-infla\u00e7\u00e3o dar\u00e1 certo. Disseram que seria decisiva a escolha do presidente do Banco Central. Era preciso um nome capaz, que o mercado respeitasse. Eu mencionei alguns nomes, e quando citei Ibrahim Eris, Delfim vibrou: &#8220;extraordin\u00e1rio nome, extraordin\u00e1rio nome, perfeito!&#8221;. J\u00e1 Roberto Campos n\u00e3o gostou: &#8220;Esse n\u00e3o pode, Delfim, \u00e9 um fiscalista, seria um erro&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p><strong>E depois da posse e do plano apresentado?<\/strong><\/p>\n<p>Logo depois, o Delfim foi ao Planalto, l\u00e9pido e fagueiro, com aquele cabelo sempre bem penteado, bem barbeado, sorridente, e disse: &#8220;genial presidente, genial!! Nem eu com o AI-5 teria condi\u00e7\u00f5es de fazer isso. Parab\u00e9ns!&#8221; Hoje ele nega o encontro. Mas houve, e dou mais um detalhe da conversa. Ele me perguntou: &#8220;Mas esse dinheiro n\u00e3o vai ser devolvido, n\u00e3o \u00e9?&#8221; E eu respondi: &#8220;Sim, vai ser devolvido e com juros&#8221;. Ele riu e duvidou: &#8220;Ah, mas isso eu quero estar vivo pra assistir&#8221;.Pois o dinheiro foi devolvido e Deus permitiu a ele estar vivo para testemunhar. Ele desmente o encontro, mas explicou que apenas prop\u00f4s o pagamento em t\u00edtulos. Ou seja, sem querer, confirmou.<\/p>\n<p><strong>E quando o livro com as hist\u00f3rias dos bastidores da \u00e9poca ser\u00e1 lan\u00e7ado?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei ainda. Tenho contado alguns dos epis\u00f3dios aos poucos, \u00e0 medida que a necessidade se apresenta. Aqui mesmo no Senado contei o epis\u00f3dio do jornalista Roberto Pompeu de Toledo que, uma vez, pediu uma audi\u00eancia a um ministro do Supremo Tribunal Federal a pretexto de uma entrevista e lhe prop\u00f4s: ministro, condene o Collor que eu lhe garanto tantas p\u00e1ginas da <em>Veja<\/em>, al\u00e9m da capa, com o t\u00edtulo &#8220;O homem que condenou o ca\u00e7ador de maraj\u00e1s&#8221;, alguma coisa assim. Isso n\u00e3o \u00e9 coisa que um jornalista fa\u00e7a. E o ministro do Supremo est\u00e1 vivo&#8230;\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quando vou lan\u00e7ar o livro, mas \u00e9 prematuro. Uma vez, em 1993, procurei meu querido amigo Thales Ramalho, ent\u00e3o ministro do TCU, homem de grande experi\u00eancia e sabedoria, infelizmente j\u00e1 falecido, e lhe mostrei o texto. Ele lia e balan\u00e7ava a cabe\u00e7a&#8230; Lia e balan\u00e7ava a cabe\u00e7a, em nega\u00e7\u00e3o.At\u00e9 que me disse: &#8220;Presidente, isto \u00e9 um livro de mem\u00f3rias, coisa que s\u00f3 pode ser lan\u00e7ada por quem, como eu, est\u00e1 na ante-sala da morte. O senhor \u00e9 jovem, mais cedo ou mais tarde vai retomar sua vida pol\u00edtica, n\u00e3o pode fazer isso agora. A maioria dessas pessoas est\u00e1 viva, tem filhos, fam\u00edlia, netos, n\u00e3o seria bom.&#8221;E eu respondi, mas o senhor sabe que tudo o que est\u00e1 a\u00ed \u00e9 verdade, n\u00e3o \u00e9?E ele respondeu que sim, e me contou uma passagem, que conto no livro, em que ele foi convidado em 1990 para um jantar com um l\u00edder de um setor empresarial de S\u00e3o Paulo. Eu tinha tomado posse havia pouco tempo.O empres\u00e1rio, ent\u00e3o, sentou-se \u00e0 mesa com convidados e disse: vamos ent\u00e3o retomar o assunto que iniciamos na semana passada. O doutor Thales perguntou: &#8220;Que assunto?&#8221; E o empres\u00e1rio: &#8220;A queda do Collor, temos que afast\u00e1-lo da Presid\u00eancia&#8221;. O doutor Thales disse ent\u00e3o: &#8220;Voc\u00eas est\u00e3o loucos? Acabamos de eleger um presidente da Rep\u00fablica depois de vinte anos, o pa\u00eds n\u00e3o ag\u00fcenta mais golpes, voc\u00eas querem mergulhar em outra aventura?&#8221; Eles, ent\u00e3o, esfriaram ali a conversa. Thales disse que nem me contou depois porque achou aquilo um verdadeiro del\u00edrio.Mas a minha queda come\u00e7ou a ser tramada na Avenida Paulista ainda em 1990.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Houve mesmo um acordo para que o ent\u00e3o senador Fernando Henrique Cardoso assumisse o Itamaraty em 1991?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Sim, sim, fechamos o acordo com o presidente do PSDB, o ent\u00e3o deputado Franco Montoro, o partido nos apoiaria no Congresso, o Fernando Henrique seria chanceler e o Jos\u00e9 Serra seria o ministro da Fazenda. Viajei com tudo acertado, e quando voltei soube que o senador M\u00e1rio Covas havia vetado tudo, anulado o acordo. Soube ainda de outra tentativa de golpe quando formei uma comiss\u00e3o, coordenada pelo ministro da Justi\u00e7a, Jarbas Passarinho, para trabalhar a opini\u00e3o p\u00fablica em favor do parlamentarismo, no plebiscito de 1993. Por campanha educativa, mostrar\u00edamos que o nosso presidencialismo era arcaico, imperfeito, disfuncional. Passarinho, que era presidencialista, me procurou um dia e disse: &#8220;presidente, uma comiss\u00e3o de parlamentares est\u00e1 preparando tudo para, uma vez vitorioso no plebiscito, o parlamentarismo seja implantado imediatamente, ainda no seu mandato&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.senado.gov.br\/agencia\/verNoticia.aspx?codNoticia=100456&amp;codAplicativo=2\">Primeiro presidente eleito ap\u00f3s regime militar, Collor adota plano para matar infla\u00e7\u00e3o &#8216;com um s\u00f3 tiro&#8217;<\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0Ag\u00eancia Senado<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Pe\u00e7o desculpas, as mais sentidas e as mais humildes, aos brasileiros que passaram por constrangimentos, traumas, medos, incertezas e dramas pessoais com o bloqueio do dinheiro. Lamento que tenha acontecido. Hoje, n\u00e3o faria de novo&#8221;. Assim o senador Fernando Collor (PTB-AL) se manifesta hoje sobre o empr\u00e9stimo compuls\u00f3rio que deixou apenas 50 mil cruzados novos (equivalente a R$ 6 mil) nas contas correntes, cadernetas de poupan\u00e7a e demais investimentos em 16 de mar\u00e7o de 1990, dia posterior \u00e0 posse do primeiro presidente eleito ap\u00f3s o regime militar. &#8211; Mas a minha agenda macroecon\u00f4mica prevalece at\u00e9 hoje, quebrou tabus como a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[1869],"class_list":["post-4091","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-plano-collor"],"acf":[],"views":1075,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4091","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4091"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4091\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4092,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4091\/revisions\/4092"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4091"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4091"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4091"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}