{"id":37179,"date":"2011-09-19T08:34:53","date_gmt":"2011-09-19T11:34:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=37179"},"modified":"2011-09-19T08:34:53","modified_gmt":"2011-09-19T11:34:53","slug":"policia-perde-a-guerra-e-crack-agora-se-alastra-pelo-interior-nordestino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2011\/09\/19\/policia-perde-a-guerra-e-crack-agora-se-alastra-pelo-interior-nordestino\/","title":{"rendered":"Pol\u00edcia perde a guerra e crack agora se alastra pelo interior nordestino"},"content":{"rendered":"<h6><strong><em>ESTAD\u00c3O<\/em><\/strong><\/h6>\n<p><strong>Pedra rompe limites das metr\u00f3poles, entra na rotina policial em cidades de at\u00e9 10 mil habitantes e lota cl\u00ednica de recupera\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/fotos\/met6(7).jpg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"212\" \/>Policiais fazem abordagem a ve\u00edculo suspeito na rodovia PE-483, sentido Cabrobr\u00f3<\/p>\n<\/div>\n<p>Ele come\u00e7ou com \u00e1lcool h\u00e1 dez anos, quando tinha 17. Depois, viciou-se em maconha. H\u00e1 cinco anos, quando chegou aos 23, mergulhou de cabe\u00e7a na pedra de coca\u00edna, o crack. Hoje, aos 28, \u00e9 um dos 43 internos em uma ch\u00e1cara de recupera\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos no interior do Nordeste. Diz que est\u00e1 limpo, sente-se bem depois de quatro meses sem drogas, e lamenta o inferno vivido no crack ao lembrar que s\u00f3 conseguiu parar quando viu a m\u00e3e dentro de um carro de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Etelvi Nascimento Silva nunca esteve em S\u00e3o Paulo, a metr\u00f3pole que convive com o crack ao ar livre. Da cracol\u00e2ndia, s\u00f3 ouviu falar. Etelvi fumou a primeira pedra de coca\u00edna no sert\u00e3o pernambucano, em Floresta, cidade de 30 mil habitantes, a 430 km do Recife, onde nasceu.<\/p>\n<p>Hoje, embora o governo federal ainda pesquise o tamanho do estrago do crack no fund\u00e3o do Pa\u00eds \u2013 via Fiocruz -, na sertaneja Floresta de Etelvi e nas vizinhas Petrol\u00e2ndia (32 mil habitantes), Bel\u00e9m do S\u00e3o Francisco (20 mil) e Itacuruba (10 mil), a droga avan\u00e7a. E essa regi\u00e3o dentro do \u201cpol\u00edgono da seca\u201d est\u00e1 prestes a trocar a alcunha de \u201cpol\u00edgono da maconha\u201d por \u201cpol\u00edgono do crack\u201d.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Rota.<\/strong>\u00a0\u201dO crack hoje faz parte do cotidiano do sert\u00e3o\u201d, afirma o capit\u00e3o Marcondes Ferraz, da PM pernambucana, um dos chefes do combate ao tr\u00e1fico de drogas na regi\u00e3o de Petrolina (cerca de 300 mil habitantes). O militar explica que o 5.\u00ba Batalh\u00e3o de Petrolina, no qual chefia uma companhia, \u00e9 hoje o segundo no ranking das apreens\u00f5es de drogas no Estado. Perde somente para a delegacia especializada da \u00e1rea (Denarc), do Recife. Petrolina est\u00e1 \u00e0s margens do Rio S\u00e3o Francisco, ao lado da baiana Juazeiro (200 mil habitantes). \u00c9 uma pr\u00f3spera regi\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>As duas cidades ficam \u00e0 beira da BR-407, que liga Sul-Sudeste \u00e0 BR-116, os Estados de Piau\u00ed e Maranh\u00e3o pela BR-316, e o Cear\u00e1 pela BR-020. Esse conjunto de estradas forma a malha rodovi\u00e1ria que funciona como rota de tr\u00e1fico para a coca\u00edna que passa pelos centros distribuidores, como S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Sob a jurisdi\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o Marcondes est\u00e3o ainda Dormentes (16 mil habitantes) e Afr\u00e2nio (18 mil habitantes), nas quais tamb\u00e9m h\u00e1 registros da presen\u00e7a do crack. \u201cE onde h\u00e1 drogas, h\u00e1 armas\u201d, acrescenta o policial. Nas opera\u00e7\u00f5es antidrogas do primeiro semestre, o 5.\u00ba Batalh\u00e3o apreendeu 112 armas curtas, 102 longas e 61 brancas (faca).<\/p>\n<p>Um investigador de pol\u00edcia, que trabalha em \u00e1rea ainda mais isolada, em pleno \u201cpol\u00edgono da maconha\u201d, onde fica o munic\u00edpio de Floresta, diz que o uso do crack nas comunidades pequenas n\u00e3o ocorre como em S\u00e3o Paulo, onde os dependentes vagam em turmas, consumindo a droga nas ruas. Na cracol\u00e2ndia do sert\u00e3o, a coca\u00edna em pedacinhos se espalhou pelos pontos de venda, as \u201cbocas de fumo\u201d, e, como os saquinhos de p\u00f3, \u00e9 consumida dentro de casa.<\/p>\n<p><strong>Entreposto.<\/strong>\u00a0O policial conta que encontrou em Floresta, a cidade de Etelvi, uma pedra de 120 gramas de crack enterrada em um quintal. \u201cEles desenterram, quebram para vender os peda\u00e7os, depois voltam a enterrar o que sobra dentro de sacos pl\u00e1sticos\u201d, explicou o investigador. \u201cSe n\u00e3o houver uma a\u00e7\u00e3o mais efetiva e r\u00e1pida do Estado, logo vamos ver por aqui o que ocorre em S\u00e3o Paulo.\u201d<\/p>\n<p>Conferindo as planilhas da PF, ele conta: nos \u00faltimos 12 meses foram apreendidos 47 kg de coca\u00edna, 1.081 de maconha pronta para consumo, 281 mil mudas da planta, mais de 8 kg de sementes e 606 gramas de crack. \u201cO que \u00e9 registrado como crack, \u00e9 pedra de coca\u00edna. Mas pode haver tamb\u00e9m a pedra registrada s\u00f3 como coca\u00edna\u201d, diz ele, que defende normatiza\u00e7\u00e3o para os registros.<\/p>\n<p>O delegado, no entanto, se diz otimista com os resultados da presen\u00e7a da PF na caatinga. \u201cApreendemos dias atr\u00e1s um carregamento de 100 quilos de maconha que vinha do Paraguai dentro da arma\u00e7\u00e3o met\u00e1lica da carroceria de um carro\u201d, contou. \u201c\u00c9 sinal de sucesso das opera\u00e7\u00f5es de erradica\u00e7\u00e3o das planta\u00e7\u00f5es, que repetimos a cada tr\u00eas meses.\u201d<\/p>\n<p>No Instituto de Criminal\u00edstica de Salgueiro, a perita Yeda S\u00e1 Ara\u00fajo passa boa parte do tempo analisando amostras de drogas. Foram 356 exames de comprova\u00e7\u00e3o qu\u00edmica neste ano. Os laudos se acumulam na pequena e abafada sala. \u201cAqui aparece de tudo. Maconha, coca\u00edna e crack, e muito armamento.\u201d<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do constante trabalho da pol\u00edcia, a chaga do v\u00edcio r\u00e1pido da pedra no interior nordestino pode ser constatada na observa\u00e7\u00e3o da cl\u00ednica de recupera\u00e7\u00e3o existente em Juazeiro. Ali j\u00e1 supera as interna\u00e7\u00f5es por alcoolismo. De acordo com o presidente da Comunidade Evang\u00e9lica para Recupera\u00e7\u00e3o de Viciados (Ceprev), Robson Vieira Pereira, 70% dos internos na institui\u00e7\u00e3o est\u00e3o em tratamento da depend\u00eancia do crack. S\u00e3o os colegas de Etelvi, gente at\u00e9 de outros Estados que chega a Juazeiro em busca de uma sa\u00edda da pedra.<\/p>\n<p>Na semana passada, sob temperatura de 38\u00b0C, \u00e0s 14h, um grupo de homens se reunia \u00e0 sombra de uma constru\u00e7\u00e3o sem paredes. Ouviam uma palestra pontuada de prega\u00e7\u00f5es de f\u00e9 religiosa contra as drogas e em defesa da vida. \u201cOs dependentes do crack recorrem ao Ceprev em maior quantidade\u201d, diz Ferreira, ressaltando que \u201c\u00e9 a velocidade do v\u00edcio e o efeito danoso da droga na sa\u00fade dos usu\u00e1rios e de suas fam\u00edlias que os levam a buscar ajuda rapidamente\u201d.<\/p>\n<p><strong>V\u00edcio e roubo.<\/strong>\u00a0Assim ocorreu com Et\u00e9, o rapaz de Floresta, assim chamado pelas irm\u00e3s e pela m\u00e3e. \u201cAqui j\u00e1 se pode ver eles fumando na rua (sic)\u201d, conta Olindina Maria da Silva, m\u00e3e de Etelvi, em entrevista na casa da fam\u00edlia, em um bairro simples, na semana passada. Lembrando dos dias dif\u00edceis que passou, Olindina diz que lutou para tir\u00e1-lo do mau caminho. \u201cEle aqui vivia, dava uma volta e de repente chegava doido da cabe\u00e7a. Ent\u00e3o, quer dizer, n\u00e3o ia buscar em Bel\u00e9m, Petrol\u00e2ndia. Era aqui na cidade mesmo que encontrava.\u201d<\/p>\n<p>Foi no dia em que ela estava no carro da pol\u00edcia, com o filho preso por roubar um celular para pagar a droga, que os dois tiveram um di\u00e1logo duro para ambos. \u201cEle me disse: \u201cM\u00e3e, me ajude. N\u00e3o sou eu, m\u00e3e; me ajude\u201d&#8221;, recorda Olindina, emocionada, ao lado de uma filha e de netos, na varanda da pequena casa.<\/p>\n<p>\u201cEle come\u00e7ou na cacha\u00e7a e na maconha\u201d, recorda Olindina. H\u00e1 uns quatro anos, entrou no crack. \u201cEu disse a ele: \u201c\u00d4, meu filho, eu j\u00e1 passei por tanta coisa. Vou passar por essa agora, meu filho?\u201d&#8221; O rapaz, ent\u00e3o, respondeu: \u201cM\u00e3e, tenha f\u00e9 em Jesus. O que a senhora passou, n\u00e3o passa mais. Deus \u00e9 mais.\u201d<\/p>\n<p>Firme diante de mais uma promessa do filho de largar a pedra, Olindina batalhou os R$ 300 necess\u00e1rios para o pagamento da taxa mensal de interna\u00e7\u00e3o no Ceprev, para onde Et\u00e9 foi mandado. Ela afirma que acredita na recupera\u00e7\u00e3o do rapaz. Mas n\u00e3o quer o filho de volta a Floresta t\u00e3o cedo. Teme por ele. \u201cA gente s\u00f3 n\u00e3o pode dizer a casa, ou \u00e9 ali que vende, ou acol\u00e1. Ningu\u00e9m \u00e9 doido de entregar ningu\u00e9m. Porque o senhor sabe: entregou agora, mais tarde j\u00e1 t\u00e1 \u00e9 l\u00e1 duro, enterrado. \u00c9 desse jeito.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESTAD\u00c3O Pedra rompe limites das metr\u00f3poles, entra na rotina policial em cidades de at\u00e9 10 mil habitantes e lota cl\u00ednica de recupera\u00e7\u00e3o. Policiais fazem abordagem a ve\u00edculo suspeito na rodovia PE-483, sentido Cabrobr\u00f3 Ele come\u00e7ou com \u00e1lcool h\u00e1 dez anos, quando tinha 17. Depois, viciou-se em maconha. H\u00e1 cinco anos, quando chegou aos 23, mergulhou de cabe\u00e7a na pedra de coca\u00edna, o crack. Hoje, aos 28, \u00e9 um dos 43 internos em uma ch\u00e1cara de recupera\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos no interior do Nordeste. 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