{"id":36533,"date":"2011-09-01T15:20:05","date_gmt":"2011-09-01T18:20:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=36533"},"modified":"2011-09-01T15:20:05","modified_gmt":"2011-09-01T18:20:05","slug":"no-nordeste-prosperidade-e-violencia-do-narcotrafico-crescem-juntas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2011\/09\/01\/no-nordeste-prosperidade-e-violencia-do-narcotrafico-crescem-juntas\/","title":{"rendered":"No Nordeste, prosperidade e viol\u00eancia do narcotr\u00e1fico crescem juntas"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>The New York Times\u00a0 (via IG)<\/em><\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_22156\"><a title=\"\" href=\"http:\/\/www.nucleodenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/6engaqjf7cn4losrx2ym3b1de.jpg\" rel=\"gallery['22154']\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"6engaqjf7cn4losrx2ym3b1de\" src=\"http:\/\/www.nucleodenoticias.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/6engaqjf7cn4losrx2ym3b1de-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/a>Foto: Lalo de Almeida\/The New York Times-Policial revista homem durante patrulhamento em Calabar, em Salvador<\/p>\n<\/div>\n<p>Jenilson Dos Santos Concei\u00e7\u00e3o, 20, estava de bru\u00e7os no concreto \u00e1spero, seu corpo retorcido, sand\u00e1lias ainda nos p\u00e9, conforme o sangue de seus 14 ferimentos de bala manchava o corredor inclinado. Uma pequena multid\u00e3o de moradores assistia sem qualquer emo\u00e7\u00e3o enquanto uma d\u00fazia de policiais girava em torno do jovem corpo sem vida.<\/p>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o era a terceira pessoa encontrada morta no estado da Bahia naquele dia de julho. No fim do dia, seis morreriam violentamente e no fim do m\u00eas 354, segundo a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>A geografia da viol\u00eancia no Brasil foi transformada nos \u00faltimos anos. No Sudeste, onde fica o Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e muitos dos estere\u00f3tipos mais duradouros do Pa\u00eds de tiroteios e sequestros, a taxa de homic\u00eddios diminuiu em 47% entre 1999 e 2009, de acordo com um estudo realizado por Jos\u00e9 Maria N\u00f3brega, professor de ci\u00eancia pol\u00edtica da Universidade Federal de Campina Grande.<!--more--><\/p>\n<p>Mas aqui no Nordeste, uma regi\u00e3o pobre que mais se beneficiou dos programas de transfer\u00eancia de riqueza que o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva defendeu durante seus oito anos no cargo, a taxa de homic\u00eddios quase que dobrou no mesmo per\u00edodo de 10 anos, transformando esta \u00e1rea na mais violenta do Pa\u00eds, descobriu N\u00f3brega.<\/p>\n<p>Salvador, a maior cidade da regi\u00e3o, \u00e9 uma das maiores atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas do Brasil, a porta de entrada para algumas das praias mais espetaculares do Pa\u00eds. E como o Rio, ela se prepara para ser co-anfitri\u00e3 da Copa do Mundo de 2014. Assim, as autoridades est\u00e3o adotando aqui uma p\u00e1gina do manual usado no Rio de Janeiro, tentando lidar com a onda de crimes violentos estabelecendo unidades policiais permanentes em \u00e1reas violentas frequentadas por traficantes de drogas.<\/p>\n<p>As for\u00e7as de pol\u00edcia comunit\u00e1ria que est\u00e3o sendo instaladas aqui s\u00e3o similares \u00e0s \u201cunidades de pacifica\u00e7\u00e3o\u201d usadas pelo governo do Rio \u2013 com alarde e pol\u00eamica \u2013 desde 2008 para conter a viol\u00eancia das drogas na cidade.<\/p>\n<p>O Nordeste tem sido h\u00e1 muito atormentado pelo crime, mas o aumento ilustra como o crescimento econ\u00f4mico do Brasil est\u00e1 fazendo viol\u00eancia relacionada \u00e0s drogas \u2013 a principal causa do flagelo do homic\u00eddio \u2013 migrar para outras partes do pa\u00eds conforme os traficantes buscam novos mercados, exasperando as for\u00e7as policiais locais, de acordo com N\u00f3brega e oficiais locais.<\/p>\n<p>A mesma onda econ\u00f4mica que colocou mais dinheiro no bolso de milh\u00f5es de brasileiros pobres, especialmente aqui no norte, tamb\u00e9m estimulou o tr\u00e1fico de drogas e os crimes a ele associados, dizem as autoridades locais. Os traficantes de drogas, percebendo o potencial de um mercado forte t\u00eam-se centrado cada vez mais no Nordeste, resultando na guerra de drogas e viol\u00eancia movida \u00e0 depend\u00eancia, disseram.<br \/>\n\u201cSe o mercado consumidor est\u00e1 crescendo, o traficante de drogas tamb\u00e9m ir\u00e1 buscar espa\u00e7o aqui\u201d, disse Jaques Wagner, governador da Bahia. \u201cO progresso social no Brasil \u00e9 vis\u00edvel. Mas ao mesmo tempo ainda temos problemas com o tr\u00e1fico de drogas e com a falta de respeito pela vida humana.\u201d<\/p>\n<p>Nos estados da Bahia e Alagoas, especialmente, tem havido uma explos\u00e3o de viol\u00eancia na \u00faltima d\u00e9cada. O n\u00famero de assassinatos na Bahia cresceu 430%, chegando a 4.709 entre 1999 e 2008, disse N\u00f3brega, e no ano passado a taxa de homic\u00eddios do Estado foi de 34,2 por 100.000 habitantes \u2013 superior a do Rio de Janeiro, que caiu para 29,8. (Oficiais da Bahia disseram que, depois de se estabilizar em 2010, os homic\u00eddios ca\u00edram 13% em julho em compara\u00e7\u00e3o com os primeiros sete meses de 2010.)<\/p>\n<p>Ag\u00eancias de viagens dizem estar preocupadas com o aumento da criminalidade violenta nas favelas da Bahia \u2013 assim como com os pequenos assaltos encorajados pelo v\u00edcio no Pelourinho, colorido centro hist\u00f3rico de Salvador.<\/p>\n<p>\u201cSalvador, agora, n\u00e3o est\u00e1 pronta para a Copa do Mundo de forma nenhuma, e eles est\u00e3o come\u00e7ando a perceber isso\u201d, disse Paul Irvine, diretor da Dehouche, uma ag\u00eancia de viagens no Rio de Janeiro que organiza viagens para ambas as cidades.<\/p>\n<p>Wagner, o governador, ignorou tais afirma\u00e7\u00f5es, lembrando que a Bahia tem uma festa de Carnaval em que mais de um milh\u00e3o de pessoas saem \u00e0s ruas, com 22 mil policiais oferecendo seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cPassamos quatro anos sem um homic\u00eddio no percurso do desfile\u201d, disse ele. \u201cPara mim, o preparo da pol\u00edcia para a Copa do Mundo n\u00e3o ter\u00e1 qualquer problema.\u201d<\/p>\n<p>As favelas violentas do Rio de Janeiro tem se caracterizado por batalhas entre a pol\u00edcia e gangues de traficantes fortemente armados que controlam grandes \u00e1reas de territ\u00f3rio. Mas no Nordeste, afirmam os oficiais de seguran\u00e7a, as pessoas t\u00eam historicamente resolvido disputas por conta pr\u00f3pria \u2013 vizinho contra vizinho, com impunidade.<\/p>\n<p>\u201cO Nordeste est\u00e1 acostumado a buscar a justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d, disse Mauricio Teles Barbosa, secret\u00e1rio de seguran\u00e7a da Bahia. \u201cEles n\u00e3o acreditam na pol\u00edcia porque eram a pol\u00edcia. Eles eram os coron\u00e9is, bandidos que procuravam a justi\u00e7a sem a participa\u00e7\u00e3o do Estado.\u201d<\/p>\n<p>Wagner argumentou que essas atitudes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, juntamente com uma indiferen\u00e7a por parte do Estado em fornecer prote\u00e7\u00e3o policial e servi\u00e7os sociais, permitiu que muitos assassinatos n\u00e3o fossem investigados. Mas o tr\u00e1fico de drogas mais desenfreado, alimentado em parte por grupos criminosos que operam em S\u00e3o Paulo, tem piorado muito a situa\u00e7\u00e3o, disse Barbosa.<\/p>\n<p>A chegada do crack tem sido particularmente devastadora. Em Nova Constituinte, uma comunidade localizada na periferia de Salvador que brotou em uma antiga planta\u00e7\u00e3o de bananas, uma s\u00e9rie de assassinatos relacionados com a droga tem atingido a \u00e1rea nos \u00faltimos cinco anos, incluindo o massacre de seis adolescentes pegos no fogo cruzado de gangues rivais, disse Arnaldo Anselmo, 42, um l\u00edder comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Gild\u00e1sio Oliveira Silva disse que os traficantes de drogas tentaram matar seu filho adolescente, que se viciou em crack e devia dinheiro aos fornecedores, duas vezes. Em dezembro passado, ele disse, eles mataram a tiros sua mulher Ana Maria Passos ou Assis, 39, quando ela estava limpando o banheiro da pequena loja de conveni\u00eancia de Silva na avenida principal de Nova Constituinte.<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia piorou aqui\u201d, disse Silva, 68 e um ex-policial. \u201cE \u00e9 tudo relacionado com as drogas.\u201d<\/p>\n<p>Depois de se tornar governador em 2007, Wagner prometeu aumentar a pol\u00edcia e tentar conter a viol\u00eancia. Ele acrescentou 7.000 novos policiais nos \u00faltimos quatro anos e autorizou 3.500 mais este ano.<br \/>\nA Bahia inaugurou sua primeira unidade policial comunit\u00e1ria em Calabar, um enclave pobre cercado por caros arranha-c\u00e9us. Desde a sua abertura em abril, com 120 funcion\u00e1rios, nenhum homic\u00eddio foi relatado, disse o capit\u00e3o Maria de Oliveira Silva, que dirige a unidade.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos tr\u00eas anos, n\u00e3o passava um m\u00eas sem que algu\u00e9m fosse morto aqui\u201d, disse Lindalva Reis, 58, que vive em Calabar h\u00e1 38 anos.<\/p>\n<p>Outras tr\u00eas unidades de policiamento comunit\u00e1rio devem ser inauguradas no pr\u00f3ximo ano perto de Nova Constituinte. Como nas unidades no Rio, os policiais selecionados s\u00e3o na sua maioria novatos, numa tentativa de reduzir a corrup\u00e7\u00e3o e os h\u00e1bitos mais agressivos de alguns oficiais mais velhos.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do Rio, a instala\u00e7\u00e3o das novas unidades aqui n\u00e3o exigiu primeiro a retirada de traficantes entrincheirados em sangrentas opera\u00e7\u00f5es militares que podem durar semanas.<\/p>\n<p>Para combater as cr\u00edticas de que sua pol\u00edcia n\u00e3o t\u00eam se esfor\u00e7ado para resolver crimes, o governo do Estado da Bahia criou um departamento dedicado a homic\u00eddios no in\u00edcio deste ano, com 150 funcion\u00e1rios dedicados \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de assassinato.<\/p>\n<p>Entre os desafios da nova unidade est\u00e1 extirpar os \u201cgrupos de exterm\u00ednio\u201d, mil\u00edcias compostas por policiais que praticam a justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os e s\u00e3o suspeitos de dezenas de assassinatos, disse Arthur Gallas, diretor da unidade de homic\u00eddios.<\/p>\n<p>Depois, h\u00e1 uma montanha de casos n\u00e3o resolvidos. Nos escrit\u00f3rios do novo departamento, os investigadores recentemente se debru\u00e7avam sobre pilhas de arquivos contendo 1.500 homic\u00eddios sem solu\u00e7\u00e3o que datam de antes de 2007.<\/p>\n<p>Mas o novo esfor\u00e7o ainda \u00e9 um trabalho em andamento.<\/p>\n<p>Na cena do crime de Concei\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia n\u00e3o colocou fita de seguran\u00e7a para evitar a contamina\u00e7\u00e3o das provas. \u201cPreservar provas aqui \u00e9 muito dif\u00edcil\u201d, disse Helder Cunha, um investigador da cena do crime, observando que a proposta de exigir a coloca\u00e7\u00e3o da fita de isolamento na cena do crime na Bahia ainda n\u00e3o havia sido colocada em pr\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The New York Times\u00a0 (via IG) Foto: Lalo de Almeida\/The New York Times-Policial revista homem durante patrulhamento em Calabar, em Salvador Jenilson Dos Santos Concei\u00e7\u00e3o, 20, estava de bru\u00e7os no concreto \u00e1spero, seu corpo retorcido, sand\u00e1lias ainda nos p\u00e9, conforme o sangue de seus 14 ferimentos de bala manchava o corredor inclinado. Uma pequena multid\u00e3o de moradores assistia sem qualquer emo\u00e7\u00e3o enquanto uma d\u00fazia de policiais girava em torno do jovem corpo sem vida. Concei\u00e7\u00e3o era a terceira pessoa encontrada morta no estado da Bahia naquele dia de julho. 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