{"id":33917,"date":"2011-06-27T09:21:45","date_gmt":"2011-06-27T12:21:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=33917"},"modified":"2011-06-27T09:21:45","modified_gmt":"2011-06-27T12:21:45","slug":"marina-pede-para-sair-do-pv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2011\/06\/27\/marina-pede-para-sair-do-pv\/","title":{"rendered":"Marina pede para sair do PV"},"content":{"rendered":"<p>Marina Silva, a mulher de sa\u00fade fr\u00e1gil que aprendeu a ler aos 16 anos e quase virou freira, sonha em ser presidente do Brasil. Acriana do vilarejo de Breu Velho, pobre e filha de seringueiros, Marina entrou na pol\u00edtica em 1985, aos 27 anos, por influ\u00eancia do ambientalista Chico Mendes, com quem fundou o PT no Estado. A milit\u00e2ncia em favor dos seringueiros a levou rapidamente \u00e0 C\u00e2mara de Vereadores de Rio Branco e, em seguida, \u00e0 Assembleia do Acre. Em 1994, aos 36 anos, tornou-se a senadora mais jovem da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Sempre com a causa verde na ponta de sua afiada ret\u00f3rica, em 2003 Marina virou ministra do Meio Ambiente do governo Lula \u2013 e come\u00e7ou a cobi\u00e7ar a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. No PT, por\u00e9m, suas chances de disputar o cargo seriam nulas.<\/p>\n<p>Em nome da utopia, Marina fez uma escolha pragm\u00e1tica. Convidada a ser candidata \u00e0 Presid\u00eancia, aceitou filiar-se ao Partido Verde, o PV, uma pequena legenda identificada n\u00e3o apenas com a agenda ambientalista \u2013 mas tamb\u00e9m com propostas liberais, como a legaliza\u00e7\u00e3o da maconha e do aborto. Marina, que se convertera \u00e0 religi\u00e3o evang\u00e9lica em 1997, ignorou as latentes tens\u00f5es entre suas convic\u00e7\u00f5es religiosas e as posi\u00e7\u00f5es liberais da plataforma verde. Apesar do bom desempenho na campanha presidencial do ano passado, n\u00e3o deu certo. Dois anos e 19,5 milh\u00f5es de votos depois, Marina decidiu: deixar\u00e1 o PV. O an\u00fancio ocorrer\u00e1 nesta semana.<!--more--><\/p>\n<p>A uni\u00e3o entre Marina e o PV come\u00e7ou com promessas e terminou em desilus\u00f5es. Desilus\u00f5es produzidas, sobretudo, ao sabor das inevit\u00e1veis diverg\u00eancias de uma campanha eleitoral. Marina e o PV, especialmente por meio de seu presidente, Jos\u00e9 Luiz Penna, discordaram em quase tudo nas elei\u00e7\u00f5es. Aos poucos, sua campanha separou-se da estrutura do partido. Os problemas come\u00e7aram na arrecada\u00e7\u00e3o de dinheiro. O vice da chapa, o empres\u00e1rio e fundador da Natura, Guilherme Leal, centralizou os trabalhos de coleta de recursos. Os tradicionais arrecadadores do PV se incomodaram com a resist\u00eancia de Leal aos m\u00e9todos tradicionais \u2013 e heterodoxos \u2013 de financiamento de campanhas no Brasil, do qual o partido nunca foi exce\u00e7\u00e3o. Um dos dirigentes do PV conta como anedota o dia em que Marina mandou devolver uma mala de dinheiro \u201cn\u00e3o contabilizado\u201d, em linguajar delubiano, ao empres\u00e1rio paulista que o havia enviado.<\/p>\n<p>O segundo ponto de atrito entre Marina e o PV deu-se em raz\u00e3o da entrada de l\u00edderes evang\u00e9licos na organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da campanha. Pastores da Assembleia de Deus, igreja de Marina, influenciavam decisivamente na elabora\u00e7\u00e3o da agenda da candidata. A for\u00e7a deles no comando da campanha n\u00e3o casava com o perfil hist\u00f3rico do PV. Se em sua plataforma e em seu discurso o PV era favor\u00e1vel \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o da maconha, do aborto e do casamento gay, era uma clara incoer\u00eancia que sua candidata \u00e0 Presid\u00eancia se colocasse contra essas posi\u00e7\u00f5es. O PV temia perder o eleitorado urbano, moderno, descolado. As lideran\u00e7as evang\u00e9licas argumentavam que isso n\u00e3o seria um problema e prometiam trazer 40 milh\u00f5es de votos para a candidata, caso a campanha se voltasse aos eleitores evang\u00e9licos.<br \/>\nMarina quer criar um partido para concorrer novamente \u00e0 Presid\u00eancia nas elei\u00e7\u00f5es de 2014<\/p>\n<p>Era t\u00e3o dif\u00edcil conciliar a dualidade entre os evang\u00e9licos de Marina e os liberais do PV que, at\u00e9 o meio da campanha, Marina cumpria duas agendas: uma pol\u00edtica, com as tradicionais visitas a prefeitos e com\u00edcios, e outra religiosa, que inclu\u00eda reuni\u00f5es em igrejas com pastores. Marina sofria press\u00e3o dos evang\u00e9licos para que n\u00e3o visitasse terreiros de umbanda e candombl\u00e9. Na pr\u00e9-campanha, ela aquiesceu. Em seguida, por\u00e9m, a candidata foi convencida a gastar menos tempo com os eventos religiosos \u2013 e mais em busca de votos.<\/p>\n<p>Ao longo da campanha, Marina n\u00e3o abdicou dos jejuns religiosos que costuma fazer pelo menos uma vez por m\u00eas. Alguns pr\u00f3ceres do PV consideram os jejuns uma irresponsabilidade de Marina, em fun\u00e7\u00e3o de sua inst\u00e1vel sa\u00fade \u2013 ainda jovem, ela foi contaminada por metais pesados e acometida por graves doen\u00e7as, como mal\u00e1ria e hepatite. Em entrevista a \u00c9POCA, h\u00e1 um m\u00eas, ela se irritou diante de uma pergunta sobre esse tipo de cr\u00edtica. \u201cA minha vida espiritual \u00e9 assim desde que me entendo por gente. Se um crit\u00e9rio para ser do PV \u00e9 abandonar minha vida espiritual, ent\u00e3o j\u00e1 sei pelo que vou optar. Vivo a minha f\u00e9 e visitar igrejas faz parte da minha f\u00e9. Sou mission\u00e1ria da Assembleia de Deus\u201d, disse Marina.<\/p>\n<p>O terceiro motivo para o desgaste entre Marina e o PV foi pol\u00edtico. Apesar de ter rompido com o PT, Marina mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com o ex-presidente Lula. Suas recusas em criticar Lula publicamente durante a campanha provocaram estremecimentos entre a candidata e Guilherme Leal. Leal \u00e9 simp\u00e1tico ao PSDB e doou dinheiro para a campanha do tucano Geraldo Alckmin \u00e0 Presid\u00eancia, em 2006. Por outro lado, Marina contrariou aliados ex-petistas quando decidiu n\u00e3o usar uma campanha em v\u00eddeo preparado por seu marqueteiro cujo slogan era \u201cMarina, a verdadeira sucessora de Lula\u201d. \u201cA campanha era maravilhosa, impactante, contava a trajet\u00f3ria de vida dos dois, a proximidade deles\u201d, diz um aliado. Marina mant\u00e9m sua decis\u00e3o: \u201cAcho pretensioso, poderia parecer pretensioso (o v\u00eddeo). Eu tenho muita consci\u00eancia do meu tamanho\u201d.<\/p>\n<p>O resultado da elei\u00e7\u00e3o confirmou que Marina \u00e9, ao menos em votos, a maior terceira via que o pa\u00eds j\u00e1 teve desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Confirmou, tamb\u00e9m, que n\u00e3o havia lugar para Marina no PV \u2013 e no PV para Marina. \u201cN\u00e3o houve nenhuma sinaliza\u00e7\u00e3o do PV de que os compromissos com ela ser\u00e3o cumpridos, ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de que ela permane\u00e7a filiada\u201d, afirma Jo\u00e3o Paulo Capobianco, coordenador da campanha de Marina. Ele a acompanhar\u00e1 na desfilia\u00e7\u00e3o nesta semana, ao lado de outras lideran\u00e7as do PV. A sa\u00edda do partido n\u00e3o significa que Marina desistiu do sonho de ser presidente. Ela pretende criar um partido para se candidatar novamente, em 2014\u00a0<strong>(Mariana Sanches, \u00c9poca).<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina Silva, a mulher de sa\u00fade fr\u00e1gil que aprendeu a ler aos 16 anos e quase virou freira, sonha em ser presidente do Brasil. Acriana do vilarejo de Breu Velho, pobre e filha de seringueiros, Marina entrou na pol\u00edtica em 1985, aos 27 anos, por influ\u00eancia do ambientalista Chico Mendes, com quem fundou o PT no Estado. A milit\u00e2ncia em favor dos seringueiros a levou rapidamente \u00e0 C\u00e2mara de Vereadores de Rio Branco e, em seguida, \u00e0 Assembleia do Acre. Em 1994, aos 36 anos, tornou-se a senadora mais jovem da hist\u00f3ria do pa\u00eds. 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