{"id":28610,"date":"2011-03-03T07:27:39","date_gmt":"2011-03-03T10:27:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=28610"},"modified":"2011-03-03T07:27:39","modified_gmt":"2011-03-03T10:27:39","slug":"45-doutores-disputam-vaga-de-gari-no-rj-por-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2011\/03\/03\/45-doutores-disputam-vaga-de-gari-no-rj-por-que\/","title":{"rendered":"45 doutores disputam vaga de gari no RJ. Por qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<p><em>Bajonas Teixeira de Brito Junior*<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>No edital a escolaridade exigida foi esta: &#8220;Ensino Fundamental Incompleto \u2014 ter conclu\u00eddo as 4 (quatro) primeiras s\u00e9ries do Ensino Fundamental, antigo prim\u00e1rio&#8221;. Inscreveram-se 109.193 candidatos para 1.400 vagas. Entre os inscritos havia 45 doutores, 22 mestres, chegando a 80 o n\u00famero de p\u00f3s-graduados. Pois \u00e9: 45 doutores, 22 mestres, 80 p\u00f3s-graduados concorrendo a uma vaga de gari no Rio de Janeiro para garantir um sal\u00e1rio m\u00ednimo. O assunto foi tema de mat\u00e9ria publicada na imprensa em 21 de outubro de 2009 (<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/Noticias\/Concursos_Empregos\/0,,MUL1349960-9654,00-CONCURSO+PARA+GARI+NO+RIO+REGISTRA+INSCRICOES+DE+CANDIDATOS+COM+DOUTORADO.html\">Concurso para gari no Rio registra 45 inscri\u00e7\u00f5es de candidatos com doutorado<\/a>).<br \/>\nNuma avalia\u00e7\u00e3o assim por alto, calculando que muitos esconderam o t\u00edtulo temendo que pudesse mais atrapalhar que ajudar, \u00e9 l\u00edcito imaginar que o n\u00famero de p\u00f3s-graduados inscritos tenha sido bem maior. E gente formada em bons programas por sinal, porque estamos falando do Rio de Janeiro, que tem antiga tradi\u00e7\u00e3o em p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es e em conceitos m\u00e1ximos da Capes. Pelo n\u00famero de doutores, o prov\u00e1vel \u00e9 que a massa de graduados tenha sido enorme. Esses tamb\u00e9m formados em institui\u00e7\u00f5es conceituadas. Deve ter quem tenha visto a presen\u00e7a de doutores como concorr\u00eancia desleal, como gente grande em jogo de crian\u00e7a. Mas isso provavelmente n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade. Foi muito mais uma &#8220;concorr\u00eancia desesperada&#8221; do que desleal.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nPor que &#8220;concorr\u00eancia desesperada&#8221;? Porque no Brasil, mesmo ainda nas fam\u00edlias bem situadas, o sonho de ter o filho formado perdura. Na medida em que, com o aumento das matr\u00edculas, o glamour das gradua\u00e7\u00f5es empalidece de uma hora para outra (at\u00e9 o \u201cbenef\u00edcio\u201d da pris\u00e3o especial foi tirado), as p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es, com seus t\u00edtulos de mestre e doutor, renovam de algum modo o brilho hier\u00e1rquico dos t\u00edtulos. Sem esquecer que no Brasil chamar de \u201cdoutor\u201d sempre serviu para dar um lustre na distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E nisso justamente reside o efeito produzido pelo t\u00edtulo da mat\u00e9ria. &#8220;Doutor&#8221; sempre foi no Brasil t\u00edtulo de quem tem poder. O doutor Roberto Marinho. O doutor Olavo Set\u00fabal. O doutor Assis Chateaubriand. O doutor sendo meio o equivalente de conde ou marqu\u00eas. Por outro lado, a ocupa\u00e7\u00e3o oferecida pelo concurso para gari n\u00e3o \u00e9 das mais respeitadas no pa\u00eds. Recentemente houve o epis\u00f3dio em que um apresentador de telejornal deixou escapar observa\u00e7\u00f5es pouco lisonjeiras: &#8220;Que merda, dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras&#8230; dois lixeiros&#8230; o mais baixo da escala do trabalho&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>Agora ficamos diante da inteira curvatura da vara: a hierarquia dos doutores infletindo rumo ao &#8220;mais baixo da escala do trabalho&#8221;. Claro. Claro. A \u00faltima express\u00e3o \u00e9 puro preconceito. Evidente que \u00e9. Mas \u00e9 o que o brasileiro melhor situado pensa em geral quando pode se expressar bem \u00e0 vontade. Criou-se at\u00e9 duas designa\u00e7\u00f5es (gari e lixeiro), uma para maquiar a outra para escrachar. \u00c9 t\u00edpico da nossa l\u00edngua ter sempre duas designa\u00e7\u00f5es, uma palavra hip\u00f3crita que embeleza e um termo maldoso que denigre. Entre mil exemplos que se poderia citar, lembro uns poucos: &#8220;comunidades&#8221; e &#8220;favelas&#8221;, &#8220;moreno&#8221; e &#8220;crioulo&#8221;, \u201cestudioso\u201d e \u201ccdf\u201d. E o mesmo acontece com &#8220;gari&#8221; e &#8220;lixeiro&#8221;. Para fazer um afago na dignidade, usam-se palavras bonitas (comunidade, moreno, estudioso gari). Quando se quer rebaixar, descer a ripa, a\u00ed surge a favela e o cdf, o lixeiro, etc.<\/p>\n<p>Lembro que o escritor William Burroughs, a respeito do M\u00e9xico, dizia que l\u00e1 n\u00e3o era como nos Estados Unidos, onde existia o bandido de classe m\u00e9dia, bem apresentado e burocr\u00e1tico. No M\u00e9xico haveria apenas os bandidos de elite, cheios de conex\u00f5es pol\u00edticas e rigorosamente fora do alcance da lei e que, por isso, seriam tratados como autoridades e n\u00e3o como bandidos, e, do outro lado, os bandidos p\u00e9s de chinelo destinados a apodrecer nas pris\u00f5es. A hierarquia dos muito poderosos, de um lado, e dos insignificantes, do outro, parece que persiste em toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Assim como permanece, em um n\u00famero relativamente grande de casos, a impossibilidade de bem discernir entre autoridade e bandido. \u00c9 um paradoxo de indiscern\u00edveis. E nisso que se situa, para n\u00f3s brasileiros, a dificuldade de um pensamento que forme categorias horizontais e est\u00e1veis. P\u00e3o, p\u00e3o, queijo, queijo, \u00e9 uma boa regra, mas p\u00e3o de queijo \u00e9 que sabe melhor ao paladar. Submerso sempre na mistura dos opostos, os brasileiros passam do xingamento ao elogio numa velocidade estonteante. Essa instabilidade \u00e9 o seu estado normal, a lei oscilante do seu imo peito. Isso \u00e9 mau, mas isso tamb\u00e9m \u00e9 bom. O nazismo, por exemplo, seria imposs\u00edvel com a nossa incredulidade permanente.\u00a0<\/p>\n<p>Lula n\u00e3o agiu mal quando incentivou a expans\u00e3o do ensino superior, permitindo que a classe m\u00e9dia baixa tivesse acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Mas isso foi feito como um mimo, um &#8220;brinco&#8221;, um agrado. \u00c9 como se todos pudessem agora ter o seu diploma de gradua\u00e7\u00e3o. Mas esse t\u00edtulo, ainda mais com o fim do benef\u00edcio da pris\u00e3o especial, permanece s\u00f3 um t\u00edtulo, porque o mercado de trabalho continua estreito como sempre, e os novos formados t\u00eam na maioria poucas chances. Os sal\u00e1rios, al\u00e9m disso, tendem a cair com a infla\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos. Por isso, por exemplo, a briga dos m\u00e9dicos e dos advogados para que s\u00f3 se credenciam \u201ccursos de qualidade\u201d. Querem enxugar o mercado. A mesma coisa para a OAB, com o seu \u201cconcurso da Ordem\u201d. Penso que quanto mais educa\u00e7\u00e3o melhor. Um Brasil em que muitos possuam um diploma universit\u00e1rio pode surpreender gerando novas e interessantes tens\u00f5es. E uma multid\u00e3o de doutores sem coloca\u00e7\u00e3o, claro que vai deflagrar confrontos que j\u00e1 deveriam estar na ordem do dia.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es, os problemas s\u00e3o similares. As faculdades privadas n\u00e3o s\u00e3o obrigadas a contratar um quadro de mestres e doutores como seria necess\u00e1rio para garantir uma forma\u00e7\u00e3o de qualidade para seus estudantes. As pr\u00f3prias universidades e faculdades particulares, pela for\u00e7a que t\u00eam dentro do Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (CNE), imp\u00f5em uma legisla\u00e7\u00e3o que as exime dessa obriga\u00e7\u00e3o que seria o m\u00ednimo aceit\u00e1vel pelo bom senso. Assim, as universidades federais, principalmente as federais, lan\u00e7am no mercado carradas de mestres e doutores que n\u00e3o s\u00e3o absorvidos. E v\u00e3o parar, literalmente, nos concursos para gari.\u00a0 As faculdades privadas n\u00e3o precisam deles, e n\u00e3o os querem, porque seus sal\u00e1rios seriam onerosos.\u00a0 <a href=\"http:\/\/revistaensinosuperior.uol.com.br\/textos.asp?codigo=12618\">E elas re\u00fanem hoje 90% das matr\u00edculas no ensino superior<\/a>.<\/p>\n<p>Isso ajuda a explicar um paradoxo bem interessante que est\u00e1 na mat\u00e9ria citada. De fato, o n\u00famero de doutores inscritos (45) foi o dobro do de mestres (22). Como compreender isso, se a verdade \u00e9 que o n\u00famero de mestres no mercado \u00e9 muito maior que a de doutores? Seria mais conforme se fosse o contr\u00e1rio: 22 doutores e 45 mestres. Mas n\u00e3o \u00e9 assim. O n\u00famero esmagador \u00e9 de doutores. O que explica isso? Por que justamente gente com t\u00edtulos mais altos e mais classudos optaram pelo concurso? A explica\u00e7\u00e3o pode ser f\u00e1cil.\u00a0<\/p>\n<p>Depois de in\u00fameras decep\u00e7\u00f5es, cansados de aguardar por um emprego \u00e0 altura, alguns desgarrados da vasta legi\u00e3o de doutores sem ocupa\u00e7\u00e3o fixa do Rio de Janeiro optaram por essa via extrema. Doutores entre 30 e 40 anos, com\u00a0 responsabilidades com uma fam\u00edlia, veteranos das frustra\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho, premidos pela urg\u00eancia, descobrem que n\u00e3o tem escolha. J\u00e1 os mestres, mais jovens, muitas vezes aspirantes a um doutorado, acreditam ainda que se chegarem l\u00e1 as portas se abrir\u00e3o para eles. Ao menos, a porta de uma bolsa de doutorado do CNPq ou da Capes. Eles ainda t\u00eam muitas ilus\u00f5es para perder. O desespero dos intelectuais com doutorado que se lan\u00e7am ao <a href=\"http:\/\/pub.funrioconcursos.org.br\/publicacoes\/COMLURB\/Edital_01_Comlurb.pdf\">concurso pode bem ser avaliado pelas regras do edital<\/a>.\u00a0<\/p>\n<p>As provas s\u00e3o f\u00edsicas e muito puxadas. Ora, o doutor sabe exatamente ao que est\u00e1 se arriscando, porque sua forma\u00e7\u00e3o permite que leia e compreenda perfeitamente as regras do edital. E l\u00e1 fica claro que seu t\u00edtulo n\u00e3o valer\u00e1 de absolutamente nada para a sua aprova\u00e7\u00e3o. E a sua condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, apurada em muitas horas de leituras, muito menos.<br \/>\nO edital do concurso para gari, bem maior e mais detalhado do que os que encontramos para concursos de professor universit\u00e1rio,\u00a0 tem 24 p\u00e1ginas. As provas, em duas etapas, contemplam exclusivamente aptid\u00f5es f\u00edsicas. Ai se v\u00ea a dureza da situa\u00e7\u00e3o. A leitura do edital n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto \u00e0 primazia dessas aptid\u00f5es. A primeira etapa, eliminat\u00f3ria e classificat\u00f3ria, \u00e9 &#8220;composta de Teste Din\u00e2mico de Barra Fixa, para os candidatos de sexo masculino e Teste Est\u00e1tico de Barra Fixa, para os candidatos de sexo feminino&#8221;. A segunda etapa da prova, tamb\u00e9m de testes f\u00edsicos eliminat\u00f3rios, \u00e9 muito pior: abdominais, flex\u00f5es e 12 minutos de corrida.\u00a0 O doutor entra nessa disputa flertando com a morte s\u00fabita. N\u00e3o deixa de ser uma tentativa de suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o drama. Nisso \u00e9 que se revela mais assustadoramente o caminho da educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil hoje. O mercado que deveria ser constitu\u00eddo, principalmente, de institui\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias contratando doutores e mestres, n\u00e3o existe. Mas como n\u00e3o existe?! N\u00e3o tivemos a maior expans\u00e3o do ensino universit\u00e1rio da hist\u00f3ria do Brasil? Sim, mas nada disso tem qualquer valor para o assunto. As faculdades privadas mandam. E decidiram que n\u00e3o precisam de mestres e doutores. E, ali\u00e1s, se tornaram um neg\u00f3cio de certo modo mais rural do que educacional.<a href=\"http:\/\/www.faculdadesavenda.com\/\"> Outro dia estavam \u00e0 venda duas faculdades privadas no Esp\u00edrito Santo<\/a> no regime porteira fechada: alunos, professores, carteiras, bibliotecas, etc.<\/p>\n<p><strong>*\u00c9 doutor em Filosofia, autor do ensaio, traduzido pelo fil\u00f3sofo franc\u00eas Michael Soubbotnik,<em> Aspects historiques et logiques de la classification raciale au Br\u00e9sil <\/em>(Cf. na internet), e do livro <em>L\u00f3gica do disparate<\/em>. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Congresso em Foco<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bajonas Teixeira de Brito Junior* No edital a escolaridade exigida foi esta: &#8220;Ensino Fundamental Incompleto \u2014 ter conclu\u00eddo as 4 (quatro) primeiras s\u00e9ries do Ensino Fundamental, antigo prim\u00e1rio&#8221;. Inscreveram-se 109.193 candidatos para 1.400 vagas. 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