{"id":19488,"date":"2010-09-19T15:31:23","date_gmt":"2010-09-19T18:31:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=19488"},"modified":"2010-09-19T15:31:31","modified_gmt":"2010-09-19T18:31:31","slug":"nova-domestica-tem-carro-zero-e-faz-faculdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/09\/19\/nova-domestica-tem-carro-zero-e-faz-faculdade\/","title":{"rendered":"&#8216;Nova dom\u00e9stica&#8217; tem carro zero e faz faculdade"},"content":{"rendered":"<p><em>Carolina Lauriano, Mariana Oliveira e Pedro Triginelli Do G1, no Rio, em S\u00e3o Paulo e em Belo Horizonte<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"dom\u00e9stica\" src=\"http:\/\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2010\/09\/16\/vera.jpg\" alt=\"dom\u00e9stica\" width=\"300\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p><strong>Diarista, Vera faz faculdade de direito (Foto: Arquivo<br \/>\nPessoal)<\/strong><\/p>\n<div id=\"materia-letra\">\n<div>\n<p>Aquele velho perfil da dom\u00e9stica, com baixa escolaridade e renda inferior a um sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas, est\u00e1 perdendo espa\u00e7o para um novo tipo de profissional da \u00e1rea: mulheres mais estudadas e com perfil empreendedor, afirmam as pr\u00f3prias trabalhadoras. O <strong>G1<\/strong> conversou com dom\u00e9sticas que ganham em m\u00e9dia R$ 1,5 mil, t\u00eam carro zero e, entre outras atividades,\u00a0 fazem faculdade.<\/p>\n<p>Conforme dados divulgados este m\u00eas na Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), em 2009 os trabalhadores dom\u00e9sticos no Brasil eram 7,2 milh\u00f5es &#8212; alta de 12% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Em cinco anos, o total de dom\u00e9sticos com carteira assinada subiu 20%, conforme a pesquisa.<\/p>\n<p>O instituto mostra tamb\u00e9m que das 39,5 milh\u00f5es de mulheres que trabalham no pa\u00eds, o maior percentual \u00e9 justamente de dom\u00e9sticas (17%). 16,8% delas est\u00e3o no com\u00e9rcio e 16,7% est\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e servi\u00e7os sociais.<!--more--><\/p>\n<p>A carioca Vera L\u00facia da Silva Teixeira, de 42 anos, diarista h\u00e1 mais de 20, vive uma realidade bem pr\u00f3xima da vivida pela patroa. Ela estuda direito em uma faculdade particular do Rio, paga col\u00e9gio particular para a filha, de 19 anos, troca mensagens de celular com os patr\u00f5es e ainda est\u00e1 sempre conectada na internet.<\/p>\n<p>Moradora na Zona Oeste do Rio, Vera divide seu tempo de trabalho em oito apartamentos da Zona Sul. Mas a dom\u00e9stica moderna afirma que seu caso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum e que sofre preconceitos. &#8220;Se falo que sou diarista, moro na Freguesia (bairro da Zona Oeste) e fa\u00e7o faculdade particular, n\u00e3o acreditam. As pessoas s\u00e3o muito preconceituosas&#8221;,disse.<\/p>\n<p>Vera quer fazer concurso para ser ju\u00edza ao terminar a faculdade. Segundo ela, a rela\u00e7\u00e3o com os patr\u00f5es melhorou e ela se sente mais respeitada. \u201cTudo mudou. Parece que abre um leque, as pessoas te olham de outra forma\u201d, contou.<\/p>\n<div>\n<div>Prefiro ir trabalhar de carro do que a p\u00e9. Imagina, depois de um dia cansativo de limpeza, ainda pegar \u00f4nibus lotado?&#8221;<\/div>\n<div>Agenora Silva, diarista<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Carro zero<\/strong><br \/>\nMoradora de Santo Andr\u00e9, na Grande S\u00e3o Paulo, a diarista Agenora Silva, de 47 anos, ganha, em m\u00e9dia, R$ 1.500 por m\u00eas e trabalha em uma casa diferente a cada dia da semana. Ela diz n\u00e3o ter vergonha de sua profiss\u00e3o. &#8220;Eu acho que daqui a alguns anos, a empregada dom\u00e9stica vai ter mais valor do que quem trabalha em banco, em firma. Eu tenho amigas que trabalham em loja, e falam como se fosse uma coisa superior. Mas elas ganham menos, mixaria&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Vai para as casas onde trabalha de carro zero, que financiou em cinco anos com presta\u00e7\u00e3o de R$ 700 por m\u00eas. Foi beneficiada pela expans\u00e3o do cr\u00e9dito e conseguiu financiamento mesmo sem comprova\u00e7\u00e3o de renda. &#8220;Prefiro ir trabalhar de carro do que a p\u00e9. Imagina, depois de um dia cansativo de limpeza, ainda pegar \u00f4nibus lotado?.&#8221;<\/p>\n<p>Agenora conta que o &#8220;sucesso&#8221; de sua profiss\u00e3o se d\u00e1 por conta de seu empreendedorismo. &#8220;Tem que ser esperta, n\u00e9. Eu avalio o tamanho da casa, a quantidade de gente que mora, a dist\u00e2ncia. Da\u00ed cobro entre R$ 60 e R$ 100 por dia de trabalho, dependendo do caso.&#8221; Ela confessa que j\u00e1 recusou trabalho. &#8220;Quando n\u00e3o tenho dia, eu recuso. \u00c0s vezes eu queria ser duas.&#8221; A diarista faz tamb\u00e9m academia para liberar o estresse do trabalho.<\/p>\n<p>Com ensino m\u00e9dio completo e dona de uma casa pr\u00f3pria, ela diz que sempre teve o sonho de estudar Administra\u00e7\u00e3o de Empresas, mas afirma que &#8220;a idade n\u00e3o permite&#8221;. Agora, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 comprar uma moto. &#8220;Eu quero comprar e vou comprar. Gasta menos e posso deixar meu carro na garagem. Pretendo comprar at\u00e9 dezembro e estou juntando dinheiro para pagar \u00e0 vista.&#8221;<\/p>\n<div>\n<div>Eu mostrei no estacionamento e ele respondeu \u2018mas aquilo ali n\u00e3o \u00e9 carro de empregadinha n\u00e3o, \u00e9 carro de madame\u2019. Eu falei \u2018olha, trabalhei muito, eu e meu marido, para conseguir comprar esse carro\u2019. S\u00f3 porque sou dom\u00e9stica n\u00e3o posso ter um carro melhor?&#8221;<\/div>\n<div>Rosangela Gomes, diarista que vai de carro para o trabalho<\/div>\n<\/div>\n<p>A diarista Josefa Evaristo, moradora de Itaquaquecetuba, na Grande S\u00e3o Paulo, tem 42 anos e \u00e9 dom\u00e9stica h\u00e1 30. Tamb\u00e9m tem carro do ano financiado em 40 presta\u00e7\u00f5es de R$ 800. O valor \u00e9 quase metade do que tira por m\u00eas, cerca de R$ 1.800 com ajuda de uma pens\u00e3o do ex-marido, j\u00e1 falecido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de sustentar a casa, ela ajuda os quatro filhos. &#8220;Estou terminando de construir uma casa para minha filha, que vai casar. E depois quero ver se come\u00e7o a guardar dinheiro, para garantir uma vida boa l\u00e1 na frente.&#8221;<\/p>\n<p>Outra dom\u00e9stica representante deste novo perfil \u00e9 Rosangela Pereira da Silva Gomes, de 32 anos, do Rio. Ela vai de carro, um Siena, para as tr\u00eas casas onde trabalha\u00a0 e, al\u00e9m disso, tamb\u00e9m est\u00e1 por dentro do mundo virtual.<\/p>\n<p>Disse que j\u00e1 passou por cenas de preconceito por conta da profiss\u00e3o. Certa vez, um funcion\u00e1rio de um dos pr\u00e9dios onde ela trabalha perguntou se ela andava de \u00f4nibus. Ela respondeu que n\u00e3o, porque tinha carro. O rapaz, ent\u00e3o, desconfiado, quis saber onde estava o carro de Rosa. \u201cEu mostrei no estacionamento e ele respondeu \u2018mas aquilo ali n\u00e3o \u00e9 carro de empregadinha n\u00e3o, \u00e9 carro de madame\u2019. Eu falei \u2018olha, trabalhei muito, eu e meu marido, para conseguir comprar esse carro\u2019. S\u00f3 porque sou dom\u00e9stica n\u00e3o posso ter um carro melhor?\u201d, indagou Rosa.<\/p>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"dom\u00e9stica\" src=\"http:\/\/s.glbimg.com\/jo\/g1\/f\/original\/2010\/09\/17\/rosa.jpg\" alt=\"dom\u00e9stica\" width=\"300\" height=\"225\" \/><strong>Rosa j\u00e1 foi lojista e secret\u00e1ria, mas diz que ser<br \/>\ndom\u00e9stica \u00e9 mais vantajoso (Foto: Arquivo<br \/>\nPessoal)<\/strong><\/div>\n<p>Para ela, ser dom\u00e9stica \u00e9 mais vantajoso do que ser lojista ou secret\u00e1ria, profiss\u00f5es que ela j\u00e1 exerceu. \u201cTrabalhei em uma loja de departamento, eram quase 12 horas por dia, uma explora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinha direito a nada, era muito ruim o ambiente. Tudo fachada. Pedi demiss\u00e3o. N\u00e3o tinha tempo de fazer mais nada na minha vida. Como dom\u00e9stica n\u00e3o trabalho todos dias, tenho tempo para fazer minhas coisas, levo meu filho na escola e ganho mais\u201d, disse ela, que \u00e9 diarista h\u00e1 cinco anos.<\/p>\n<p>Segundo Rosa, seu sal\u00e1rio atual \u00e9 o dobro do valor que recebia no com\u00e9rcio, onde, apesar da baixa remunera\u00e7\u00e3o e do clima pesado, n\u00e3o sentia preconceito.<\/p>\n<p><strong>Neg\u00f3cio pr\u00f3prio<\/strong><br \/>\nMoradora de Belo Horizonte, a dom\u00e9stica Maria Helena Pereira, de 36 anos, est\u00e1 na profiss\u00e3o h\u00e1 18. Com o dinheiro que recebeu, comprou carro, casa e acaba de comprar uma loja para come\u00e7ar o pr\u00f3prio neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Ela disse que voltou a estudar &#8212; voltou ao primeiro ano do ensino m\u00e9dio &#8212; para buscar um caminho diferente na sua vida. &#8220;Daqui a um ano me vejo em outra profiss\u00e3o. Eu quero ter o meu pr\u00f3prio neg\u00f3cio. N\u00e3o que eu n\u00e3o goste do que eu fa\u00e7o, mas essa vontade de mudar est\u00e1 dentro de mim&#8221;, disse.<\/p>\n<div>\n<div>Os sal\u00e1rios das dom\u00e9sticas, que eram abaixo do m\u00ednimo, costumam ser, na capital paulista, entre R$ 700 e R$ 1.200<\/div>\n<\/div>\n<p><strong>Mudan\u00e7a no perfil<\/strong><br \/>\nA presidente do Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Dom\u00e9sticos da Grande S\u00e3o Paulo, Eliana Menezes, confirma a mudan\u00e7a no perfil das dom\u00e9sticas. &#8220;Antigamente, o emprego dom\u00e9stico era tido como da \u00e9poca da escravid\u00e3o, quando se trabalhava por comida. N\u00e3o havia amizade, havia submiss\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo ela, a mudan\u00e7a no perfil ocorreu por conta do aumento da renda, com instaura\u00e7\u00e3o de piso salarial para a categoria, pouco superior ao sal\u00e1rio m\u00ednimo. Confirmou que h\u00e1 diversos casos de mulheres que estudam e fazem cursos para se qualificar. Os sal\u00e1rios, que eram abaixo do m\u00ednimo, costumam ser, na capital paulista, entre R$ 700 e R$ 1.200.<\/p>\n<p>Ela pondera que as diaristas, que podem ganhar bem mais, at\u00e9 R$ 2.000, deveriam pensar melhor e tentar emprego com carteira assinada. &#8220;Esse \u00e9 o ponto xis, ganham mais por dia, mas perdem imensamente mais. N\u00e3o t\u00eam f\u00e9rias, n\u00e3o t\u00eam 13\u00ba. O nosso trabalho \u00e9 conscientiz\u00e1-las disso, de seus direitos.&#8221;<\/p>\n<p>Apesar da melhoria na situa\u00e7\u00e3o das dom\u00e9sticas, conforme aponta o sindicato, o IBGE informa\u00a0 que, de modo geral, as condi\u00e7\u00f5es de trabalho da categoria no Brasil continuam prec\u00e1rias &#8211; mais de 70% n\u00e3o tem carteira assinada e o rendimento m\u00e9dio mensal \u00e9 de R$ 395.<\/p>\n<p>A dom\u00e9stica Jacionete Silva Santos de Paula, de S\u00e3o Paulo, disse que j\u00e1 aprendeu a li\u00e7\u00e3o. Tinha emprego com carteira assinada e ganhava um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Pediu demiss\u00e3o h\u00e1 um m\u00eas porque o trabalho estava pesado demais. Prop\u00f4s que a patroa dobrasse seu sal\u00e1rio e ainda contratasse uma diarista para ajudar, mas ela alegou que n\u00e3o podia.<\/p>\n<p>&#8220;Chega de escravid\u00e3o, n\u00e3o nasci para isso. Tenho consci\u00eancia dos meus direitos e sei que posso encontrar um emprego melhor.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carolina Lauriano, Mariana Oliveira e Pedro Triginelli Do G1, no Rio, em S\u00e3o Paulo e em Belo Horizonte Diarista, Vera faz faculdade de direito (Foto: Arquivo Pessoal) Aquele velho perfil da dom\u00e9stica, com baixa escolaridade e renda inferior a um sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas, est\u00e1 perdendo espa\u00e7o para um novo tipo de profissional da \u00e1rea: mulheres mais estudadas e com perfil empreendedor, afirmam as pr\u00f3prias trabalhadoras. O G1 conversou com dom\u00e9sticas que ganham em m\u00e9dia R$ 1,5 mil, t\u00eam carro zero e, entre outras atividades,\u00a0 fazem faculdade. Conforme dados divulgados este m\u00eas na Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (Pnad),&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-19488","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"acf":[],"views":705,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19488","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19488"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19488\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19491,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19488\/revisions\/19491"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19488"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19488"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19488"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}