{"id":17841,"date":"2010-08-24T09:38:31","date_gmt":"2010-08-24T12:38:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=17841"},"modified":"2010-08-24T09:38:31","modified_gmt":"2010-08-24T12:38:31","slug":"revista-epoca-%e2%80%93-os-novos-evangelicos-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/08\/24\/revista-epoca-%e2%80%93-os-novos-evangelicos-no-brasil\/","title":{"rendered":"Revista \u00c9poca \u2013 Os novos evang\u00e9licos no Brasil"},"content":{"rendered":"<h5><em>Por Ricardo Alexandre<br \/>\nMat\u00e9ria publicada na <\/em><a href=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Revista\/Epoca\/0,,EMI161499-15228,00-A+NOVA+REFORMA+PROTESTANTE+TRECHO.html\" target=\"_blank\"><em>Revista \u00c9poca<\/em><\/a><\/h5>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/estrangeira.files.wordpress.com\/2010\/08\/revistac3a9poca.jpg?w=291&amp;h=400\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>A revista \u00c9poca desta semana traz como mat\u00e9ria de capa \u201cA nova Reforma Protestante\u201d, onde trata de crist\u00e3os que buscam o retorno ao Evangelho puro e simples de Cristo, na contram\u00e3o de boa parte da igreja evang\u00e9lica brasileira, fascinada com movimentos her\u00e9ticos como a teologia da prosperidade. Abaixo, a transcri\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, obtida via <a href=\"http:\/\/www.pulpitocristao.com\/2010\/08\/nova-reforma-protestante.html\" target=\"_blank\">P\u00falpito Crist\u00e3o<\/a>:<\/p>\n<p>Rani Rosique n\u00e3o \u00e9 ap\u00f3stolo, bispo, presb\u00edtero nem pastor. \u00c9 apenas um cirurgi\u00e3o geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rond\u00f4nia. No alpendre da casa de uma amiga professora, ele se prepara para falar. Cercado por conhecidos, vizinhos e parentes da anfitri\u00e3, por 15 minutos Rosique conversa sobre o salmo primeiro (\u201cBem-aventurado o homem que n\u00e3o anda segundo o conselho dos \u00edmpios\u201d). Depois, o grupo de umas 15 pessoas ora pela \u00faltima vez \u2013 como j\u00e1 havia orado e cantado por cerca de meia hora antes \u2013 e ent\u00e3o parte para o tradicional ch\u00e1 com bolachas, regado a conversa animada e \u00edntima.<\/p>\n<p>Desde que se converteu ao cristianismo evang\u00e9lico, durante uma aula de ingl\u00eas em Goi\u00e2nia em 1969, Rosique pratica sua f\u00e9 assim, em pequenos grupos de ora\u00e7\u00e3o, comunh\u00e3o e estudo da B\u00edblia. Com o passar do tempo, esses grupos cresceram e se multiplicaram. Hoje, s\u00e3o 262 espalhados por Ariquemes, reunindo cerca de 2.500 pessoas, organizadas por 11 \u201csupervisores\u201d, Rosique entre eles. S\u00e3o professores, m\u00e9dicos, enfermeiros, pecuaristas, nutricionistas, com uma \u00fanica caracter\u00edstica comum: s\u00e3o crentes mais experientes.<!--more--><\/p>\n<p>Apesar de jamais ter participado de uma igreja nos moldes tradicionais, Rosique \u00e9 hoje uma refer\u00eancia entre l\u00edderes religiosos de todo o Brasil, mesmo os mais tradicionais. Recebe convites para falar sobre sua vis\u00e3o descomplicada de comunidade crist\u00e3, vindos de igrejas que h\u00e1 20 anos n\u00e3o lhe responderiam um telefonema. Ele pode ser visto como um \u201cs\u00edmbolo\u201d do per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o que a igreja evang\u00e9lica brasileira atravessa. Um tempo em que ritos, doutrinas, tradi\u00e7\u00f5es, dogmas, jarg\u00f5es e hierarquias est\u00e3o sob profundo processo de revis\u00e3o, apontando para uma rela\u00e7\u00e3o com o Divino muito diferente daquela divulgada nos hor\u00e1rios pagos da TV.<\/p>\n<h5><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Image\" src=\"http:\/\/www.cristianismocriativo.com.br\/images\/stories\/rosique.jpg\" border=\"0\" alt=\"Image\" hspace=\"6\" width=\"400\" height=\"280\" \/><\/h5>\n<p>Irani Rosique (cr\u00e9dito: Revista \u00c9poca)<\/p>\n<p>Estima-se que haja cerca de 46 milh\u00f5es de evang\u00e9licos no Brasil. Seu crescimento foi seis vezes maior do que a popula\u00e7\u00e3o total desde 1960, quando havia menos de 3 milh\u00f5es de fi\u00e9is espalhados principalmente entre as igrejas conhecidas como hist\u00f3ricas (batistas, luteranos, presbiterianos e metodistas). Na d\u00e9cada de 1960, a hegemonia passou para as m\u00e3os dos pentecostais, que davam \u00eanfase em curas e milagres nos cultos de igrejas como Assembleia de Deus, Congrega\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 no Brasil e O Brasil Para Cristo. A grande explos\u00e3o num\u00e9rica evang\u00e9lica deu-se na d\u00e9cada de 1980, com o surgimento das denomina\u00e7\u00f5es neopentecostais, como a Igreja Universal do Reino de Deus e a Renascer. Elas tiraram do pentecostalismo a rigidez de costumes e a ele adicionaram a \u201cteologia da prosperidade\u201d. H\u00e1 quem aposte que at\u00e9 2020 metade dos brasileiros professar\u00e1 \u00e0 f\u00e9 evang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Dentro do pr\u00f3prio meio, levantam-se vozes cr\u00edticas a esse crescimento. Segundo elas, esse modelo de igreja, que prospera em meio a acusa\u00e7\u00f5es de evas\u00e3o de divisas, tr\u00e1fico de armas e forma\u00e7\u00e3o de quadrilha, tem sido mais influenciado pela sociedade de consumo que pelos ensinamentos da B\u00edblia. \u201cO movimento evang\u00e9lico est\u00e1 visceralmente em colapso\u201d, afirma o pastor Ricardo Gondim, da igreja Betesda, autor de livros como Eu creio, mas tenho d\u00favidas: a gra\u00e7a de Deus e nossas fr\u00e1geis certezas (Editora Ultimato). \u201cEstamos vivendo um momento de mudan\u00e7a de paradigmas. Ainda n\u00e3o temos as respostas, mas as inquieta\u00e7\u00f5es est\u00e3o postas, talvez para ser respondidas somente no futuro.\u201dNos Estados Unidos, a reinven\u00e7\u00e3o da igreja evang\u00e9lica est\u00e1 em curso h\u00e1 tempos. A igreja Willow Creek de Chicago trabalhava sob o mote de ser \u201cuma igreja para quem n\u00e3o gosta de igreja\u201d desde o in\u00edcio dos anos 1970. Em S\u00e3o Paulo, 20 anos depois, o pastor Ed Ren\u00e9 Kivitz adotou o lema para sua Igreja Batista, no bairro da \u00c1gua Branca \u2013 e a ele adicionou o complemento \u201ce uma igreja para pessoas de quem a igreja n\u00e3o costuma gostar\u201d. Kivitz \u00e9 atualmente um dos mais discutidos pensadores do movimento protestante no Brasil e um dos principais cr\u00edticos da\u201creligiosidade institucionalizada\u201d. Durante seu pronunciamento num evento para l\u00edderes religiosos no final de 2009, Kivitz afirmou: \u201cEsta igreja que est\u00e1 na m\u00eddia est\u00e1 morrendo pela boca, ent\u00e3o que morra. Meu compromisso \u00e9 com a multid\u00e3o agonizante, e n\u00e3o com esta igreja evang\u00e9lica brasileira.\u201dEssa esp\u00e9cie de \u201cnova reforma protestante\u201d n\u00e3o \u00e9 um movimento coordenado ou orquestrado por alguma lideran\u00e7a central. Ela \u00e9 resultado de manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, que mant\u00eam a diversidade entre as v\u00e1rias diferen\u00e7as teol\u00f3gicas, culturais e denominacionais de seus ide\u00f3logos. Mas alguns pontos s\u00e3o comuns. O maior deles \u00e9 a busca pelo papel reservado \u00e0 religi\u00e3o crist\u00e3 no mundo atual. Um desafio n\u00e3o muito diferente do que se imp\u00f5e a bancos, escolas, sistemas pol\u00edticos e todas as institui\u00e7\u00f5es que vieram da modernidade com a credibilidade arranhada. \u201cAs institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o todas sub judice\u201d, diz o te\u00f3logo Ricardo Quadros Gouveia, professor da Universidade Mackenzie de S\u00e3o Paulo e pastor da Igreja Presbiteriana do Bairro do Lim\u00e3o. \u201cNingu\u00e9m tem d\u00favida de que espiritualidade \u00e9 uma coisa boa ou que educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa boa, mas as institui\u00e7\u00f5es que as representam est\u00e3o sob suspeita.\u201dUma das sa\u00eddas propostas por esses pensadores \u00e9 despir tanto quanto poss\u00edvel os ensinamentos crist\u00e3os de todo aparato institucional. Segundo eles, a igreja protestante (ao menos sua face mais espalhafatosa e conhecida) chegou ao novo mil\u00eanio t\u00e3o encharcada de dogmas, tradicionalismos, corrup\u00e7\u00e3o e misticismo quanto a Igreja Cat\u00f3lica que Martinho Lutero tentou reformar no s\u00e9culo XVI. \u201cAcabamos nos perdendo no linguajar \u2018evangeliqu\u00eas\u2019, no moralismo, no formalismo, e deixamos de oferecer respostas para nossa sociedade\u201d, afirma o pastor Miguel Uch\u00f4a, da Par\u00f3quia Anglicana Esp\u00edrito Santo, em Jaboat\u00e3o dos Guararapes, Grande Recife. \u201c\u00c9 dif\u00edcil para qualquer pessoa esclarecida conviver com tanto formalismo e t\u00e3o pouco conte\u00fado.\u201d<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Image\" src=\"http:\/\/www.cristianismocriativo.com.br\/images\/stories\/foto1.png\" border=\"0\" alt=\"Image\" hspace=\"6\" width=\"404\" height=\"284\" \/><\/p>\n<p>Miguel Uch\u00f4a e bispo Robinson Cavalcanti,<br \/>\nda Diocese do Recife (cr\u00e9dito: Revista \u00c9poca)<\/p>\n<p>Uch\u00f4a lidera a maior comunidade anglicana da Am\u00e9rica Latina. Seu trabalho \u00e9 reconhecido por toda a c\u00fapula da denomina\u00e7\u00e3o como um dos mais din\u00e2micos do pa\u00eds. Ele \u00e9 um dos grandes entusiastas do movimento ingl\u00eas Fresh Expressions, cujo mote \u00e9 \u201cuma igreja mutante para um mundo mutante\u201d. Seu trabalho \u00e9 orientar grupos crist\u00e3os que se re\u00fanem em caf\u00e9s, museus, praias ou pistas de skate. De maneira gen\u00e9rica, esses grupos s\u00e3o chamados de \u201cigreja emergente\u201d desde o final da d\u00e9cada de 1990. \u201cO importante n\u00e3o \u00e9 a forma\u201d, afirma Uch\u00f4a. \u201c\u00c9 buscar a ess\u00eancia da espiritualidade crist\u00e3, que acabou dilu\u00edda ao longo dos anos, porque as formas e hierarquias passaram a ser usadas para manipular pessoas. \u00c9 contra isso que estamos nos levantando.\u201d<\/p>\n<p>No meio dessa busca pela ess\u00eancia da f\u00e9 crist\u00e3, muitas das pr\u00e1ticas e discursos que eram caracter\u00edstica dos evang\u00e9licos come\u00e7aram a ser considerados dispens\u00e1veis. \u00c0s vezes, at\u00e9 conden\u00e1veis (leia o quadro na \u00faltima p\u00e1g.). Em Campinas, no interior de S\u00e3o Paulo, ocorre uma das experi\u00eancias mais interessantes de recria\u00e7\u00e3o de estruturas entre as denomina\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. A Comunidade Presbiteriana Ch\u00e1cara Primavera n\u00e3o tem um templo. Seus frequentadores se re\u00fanem em dois sal\u00f5es anexos a grandes condom\u00ednios da cidade e em casas ao longo da semana. Aboliram a entrega de d\u00edzimos e as ofertas da liturgia. Os interessados em contribuir devem procurar a secretaria e faz\u00ea-lo por dep\u00f3sito banc\u00e1rio \u2013 e esperar em casa um relat\u00f3rio de gastos. Os serm\u00f5es s\u00e3o chamados, apropriadamente, de \u201cpalestras\u201d e s\u00e3o ministrados com recursos multim\u00eddias por um palestrante sentado em um banquinho atr\u00e1s de um MacBook. A medita\u00e7\u00e3o b\u00edblica dominical \u00e9 comumente ilustrada por uma cr\u00f4nica de Luis Fernando Verissimo ou uma m\u00fasica de Chico Buarque de Hollanda.\u201cOs semin\u00e1rios teol\u00f3gicos formam ministros para um Brasil rural em que os trabalhos s\u00e3o de carteira assinada, as fam\u00edlias s\u00e3o papai, mam\u00e3e, filhinhos e os pastores s\u00e3o pessoas respeitadas\u201d, diz Ricardo Agreste, pastor da Comunidade e autor dos livros Igreja? T\u00f4 fora e A jornada (ambos lan\u00e7ados pela Editora Socep). \u201cO risco disso \u00e9 passar a vida oferecendo respostas a perguntas que ningu\u00e9m mais nos faz. H\u00e1 muita gente s\u00e9ria, claro, dizendo verdades b\u00edblicas, mas presas a um formato ultrapassado.\u201dOutro ponto em comum entre esses questionadores \u00e9 o rompimento declarado com a face mais vis\u00edvel dos protestantes brasileiros: os neopentecostais. \u201c\u00c9 lisonjeador saber que atra\u00edmos gente com forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria e que nos consideram \u2018pensadores\u2019\u201d, afirma Ricardo Agreste. \u201cO grande problema dos evang\u00e9licos brasileiros n\u00e3o \u00e9 de intelig\u00eancia, \u00e9 de \u00e9tica e honestidade.\u201d Segundo ele, a velha discuss\u00e3o doutrin\u00e1ria foi substitu\u00edda por outra. \u201cN\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o de pensar de formas diferentes a espiritualidade crist\u00e3\u201d, diz. \u201cTrata-se de entender que h\u00e1 gente usando vocabul\u00e1rio e elementos de pr\u00e1tica crist\u00e3 para ganhar dinheiro e manipular pessoas.\u201dEsse rompimento da cordialidade entre os evang\u00e9licos hist\u00f3ricos e os neopentecostais veio a p\u00fablico na forma de livros e artigos. A jornalista (evang\u00e9lica) Mar\u00edlia Camargo C\u00e9sar publicou no final de 2008 o livro Feridos em nome de Deus (Editora Mundo Crist\u00e3o), sobre fi\u00e9is decepcionados com a religi\u00e3o por causa de abusos de pastores. O te\u00f3logo Augustus Nicodemus Lopes, chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou O que est\u00e3o fazendo com a Igreja: ascens\u00e3o e queda do movimento evang\u00e9lico brasileiro (Mundo Crist\u00e3o), retrato desolador de uma gera\u00e7\u00e3o cindida entre o liberalismo teol\u00f3gico, os truques de marketing, o culto \u00e0 personalidade e o esquerdismo pol\u00edtico. Em um recente artigo, o presidente do Centro Apolog\u00e9tico Crist\u00e3o de Pesquisas, Jo\u00e3o Flavio Martinez, definiu como \u201cmacumba para evang\u00e9lico\u201d as pr\u00e1ticas m\u00edsticas da Igreja Universal do Reino de Deus, como banho de descarrego e sabonete com extrato de arruda.Tais cr\u00edticas, at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, ficavam restritas aos bastidores teol\u00f3gicos e \u00e0s discuss\u00f5es internas nas igrejas. Livros mais antigos \u2013 como Supercrentes, Evang\u00e9licos em crise, Como ser crist\u00e3o sem ser religioso e O evangelho maltrapilho (todos da editora Mundo Crist\u00e3o) \u2013 eram experi\u00eancias isoladas, \u00e0s vezes recebidos pelos fi\u00e9is como desagregadores. \u201cParece que a sociedade se fartou de tanto esc\u00e2ndalo e passou a dar ouvidos a quem j\u00e1 levantava essas quest\u00f5es h\u00e1 tempos\u201d, diz Mark Carpenter, diretor-geral da Mundo Crist\u00e3o.O pastor Kivitz \u2013 que publicou pela Mundo Crist\u00e3o seus livros Outra espiritualidade e O livro mais mal-humorado da B\u00edblia \u2013 distingue essa cr\u00edtica interna daquela feita pela m\u00eddia tradicional aos neopentecostais \u201cA m\u00eddia trata os evang\u00e9licos como um fen\u00f4meno social e cultural. Para fazer uma cr\u00edtica assim, basta ter um pouco de bom-senso. Essa cr\u00edtica o (programa) CQC j\u00e1 faz, porque essa igreja \u00e9 mesmo um escracho\u201d, diz ele. \u201cEu fa\u00e7o uma cr\u00edtica diferente, visceral, passional, porque eu sou evang\u00e9lico. E n\u00e3o sou isso que est\u00e1 na televis\u00e3o, nas p\u00e1ginas policiais dos jornais. A gente fica sem dormir, a gente sofre e chora esse fen\u00f4meno religioso que pretende ser rotulado de cristianismo.\u201dA necessidade de se distinguir dos neopentecostais tamb\u00e9m levou essas igrejas a reconsiderar uma s\u00e9rie de pr\u00e1ticas e at\u00e9 seu vocabul\u00e1rio. Pastores e \u201cleigos\u201d passam a ocupar o mesmo n\u00edvel hier\u00e1rquico, e n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para \u201cungidos\u201d em especial. Grandes e imponentes catedrais e \u201ccultos shows\u201d d\u00e3o lugar a reuni\u00f5es informais, em pequenos grupos, nas casas, onde os l\u00edderes podem ser questionados, e as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais pr\u00f3ximas. O vocabul\u00e1rio herdado da teologia triunfalista do Antigo Testamento (vit\u00f3ria, vingan\u00e7a, peleja, guerra, maldi\u00e7\u00e3o) \u00e9 reconsiderado. Para superar o desgaste dos termos, algumas igrejas preferem ser chamadas de \u201ccomunidades\u201d, os cultos s\u00e3o anunciados como \u201creuni\u00f5es\u201d ou \u201ccelebra\u00e7\u00f5es\u201d e at\u00e9 a palavra \u201cevang\u00e9lico\u201d tem sido preterida em favor de \u201ccrist\u00e3o\u201d \u2013 o termo mais radical. Nem todo mundo concorda, evidentemente. \u201cEles (os neopentecostais) \u00e9 que n\u00e3o deveriam ser chamados de evang\u00e9licos\u201d, afirma o bispo anglicano Robinson Cavalcanti, da Diocese do Recife. \u201cEles \u00e9 que n\u00e3o t\u00eam la\u00e7os hist\u00f3ricos, teol\u00f3gicos ou \u00e9ticos com os evang\u00e9licos.\u201d<\/p>\n<p>Um dos maiores estudiosos do fen\u00f4meno evang\u00e9lico no Brasil, o soci\u00f3logo Ricardo Mariano (PUC-RS), v\u00ea como natural o embate entre neopentecostais e as lideran\u00e7as de igrejas hist\u00f3ricas. Ele lembra que, desde o final da d\u00e9cada de 1980, quando o neopentecostalismo ganhou for\u00e7a no Brasil, os l\u00edderes das igrejas hist\u00f3ricas se levantaram para desqualificar o movimento. \u201cO problema \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 nenhum \u00f3rg\u00e3o que regule ou fale em nome de todos os evang\u00e9licos, ent\u00e3o ningu\u00e9m tem autoridade para dizer o que \u00e9 uma leg\u00edtima igreja evang\u00e9lica\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Procurado por \u00c9POCA, Geraldo Tenuta, o Bispo G\u00ea, presidente nacional da Igreja Renascer em Cristo, preferiu n\u00e3o entrar em discuss\u00f5es. \u201cJesus nos ensinou a n\u00e3o irmos contra aqueles que pregam o evangelho, a despeito de suas atitudes\u201d, diz ele. \u201cDesde o in\u00edcio, \u00e9ramos acusados disto ou daquilo, primeiro porque admit\u00edamos rock no altar, depois porque n\u00e3o t\u00ednhamos usos e costumes. Isso n\u00e3o nos preocupa. O que n\u00e3o \u00e9 de Deus vai desaparecer, e n\u00e3o ser\u00e1 por obra dos julgamentos.\u201d A Igreja Universal do Reino de Deus \u2013 que, na terceira semana de julho, anunciou a constru\u00e7\u00e3o de uma \u201cr\u00e9plica do Templo de Salom\u00e3o\u201d em S\u00e3o Paulo, com \u201cpedras trazidas de Israel\u201d e \u201cmaior do que a Catedral da S\u00e9\u201d \u2013 tamb\u00e9m foi procurada por \u00c9POCA para comentar os movimentos emergentes e as cr\u00edticas dirigidas \u00e0 igreja. Por meio de sua assessoria, o bispo Edir Macedo enviou um e-mail com as palavras: \u201cSem resposta\u201d.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Ricardo Mariano, autor do livro Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (Editora Loyola), oferece uma explica\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica para a ruptura proposta pelo novo discurso evang\u00e9lico. Ateu, ele afirma que o objetivo \u00e9 a busca por uma certa elite intelectual, um p\u00fablico mais bem informado, universit\u00e1rio, mais culto que os telespectadores que enchem as igrejas populares. \u201cVivemos uma \u00e9poca em que o paciente pesquisa na internet antes de ir ao consult\u00f3rio e \u00e9 capaz de discutir com o m\u00e9dico, questionar o professor\u201d, diz. \u201cNum ambiente assim, n\u00e3o tem como o pastor proibir nada. Ele joga para a consci\u00eancia do fiel.\u201d<\/p>\n<p>A maior parte da movimenta\u00e7\u00e3o cr\u00edtica no meio evang\u00e9lico acontece nas grandes cidades. O pr\u00f3prio pastor Kivitz afirma que \u201ctalvez n\u00e3o agisse da mesma forma se estivesse servindo alguma comunidade em um rinc\u00e3o do interior\u201d e que o di\u00e1logo livre entre p\u00falpito e audit\u00f3rio passa, necessariamente, por uma identifica\u00e7\u00e3o cultural. \u201cAs pessoas n\u00e3o querem dogmas, elas querem honestidade\u201d, diz ele. \u201cAs d\u00favidas delas s\u00e3o as minhas d\u00favidas. Minha postura \u00e9, juntos, buscarmos respostas satisfat\u00f3rias a nossas inquieta\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>Por isso mesmo, Ricardo Mariano n\u00e3o v\u00ea compara\u00e7\u00e3o entre o apelo das novas igrejas protestantes e das neopentecostais. \u201cO destino desses l\u00edderes ser\u00e1 \u2018pescar no aqu\u00e1rio\u2019, atraindo insatisfeitos vindos de outras igrejas, ou continuar falando para meia d\u00fazia de pessoas\u201d, diz ele. De acordo com o presbiteriano Ricardo Gouveia, \u201cn\u00e3o h\u00e1, ou n\u00e3o deveria haver, preocupa\u00e7\u00e3o mercadol\u00f3gica\u201d entre as igrejas hist\u00f3ricas. \u201cN\u00e3o se trata de um produto a oferecer, que precise ocupar espa\u00e7o no mercado\u201d, diz ele. \u201cNossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente anunciar o evangelho, e n\u00e3o tentar \u2018melhor\u00e1-lo\u2019 ou torn\u00e1-lo mais interessante ou vend\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>O advento da internet foi fundamental para pastores, seminaristas, m\u00fasicos, l\u00edderes religiosos e leigos decidirem criar seus pr\u00f3prios sites, portais, comunidades e blogs. Um v\u00eddeo transmitido pela Igreja Universal em Portugal divulgando o Contrato da f\u00e9 \u2013 um \u201cdocumento\u201d, \u201cautenticado\u201d pelos pastores, prometendo ao fiel a possibilidade de se \u201cassociar com Deus e ter de Deus os benef\u00edcios\u201d \u2013 propagou-se pela rede, angariando toda sorte de coment\u00e1rios. Outro v\u00eddeo, em que o pregador americano Moris Cerullo, no programa do pastor Silas Malafaia, prometia uma \u201cun\u00e7\u00e3o financeira dos \u00faltimos dias\u201d em troca de quem \u201csemear\u201d um \u201ccompromisso\u201d de R$ 900 tamb\u00e9m bombou na rede. Uma c\u00f3pia da senten\u00e7a do juiz federal Fausto De Sanctis condenando os l\u00edderes da Renascer Estevam e S\u00f4nia Hernandes por evas\u00e3o de divisas circulou no final de 2009. De Sanctis afirmava que o casal \u201cn\u00e3o se lastreia na preserva\u00e7\u00e3o de valores de \u00e9tica ou corre\u00e7\u00e3o, apesar de professarem o evangelho\u201d. \u201cVergonha alheia em doses quase insuport\u00e1veis\u201d foi o coment\u00e1rio mais ameno entre os internautas.<\/p>\n<p>Sites como <a href=\"http:\/\/www.pavablog.com\/\" target=\"_blank\">Pavablog<\/a> , <a href=\"http:\/\/veshamegospel.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">Veshame Gospel<\/a> , <a href=\"http:\/\/irmaos.com\/\" target=\"_blank\">Irm\u00e3os.com<\/a> , <a href=\"http:\/\/www.pulpitocristao.com\/\" target=\"_blank\">P\u00falpito Crist\u00e3o<\/a> , <a href=\"http:\/\/caiofabio.net\/\" target=\"_blank\">Caiofabio.net<\/a> ou <a href=\"http:\/\/www.cristianismocriativo.com.br\/\" target=\"_blank\">Cristianismo Criativo<\/a> fazem circular v\u00eddeos, palestras e serm\u00f5es e debatem doutrinas e not\u00edcias com alto n\u00edvel de ousadia e autocr\u00edtica. De um grupo de blogueiros paulistanos, surgiu a ideia da Marcha pela \u00e9tica, um protesto que ocorre h\u00e1 dois anos dentro da Marcha para Jesus (evento organizado pela Renascer). Vestidos de preto, jovens carregam faixas com textos b\u00edblicos e frases como \u201cO $how tem que parar\u201d e \u201cJesus n\u00e3o est\u00e1 aqui, ele est\u00e1 nas favelas\u201d.<\/p>\n<h5>\n<dl><a href=\"http:\/\/estrangeira.files.wordpress.com\/2010\/08\/protesto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"protesto\" src=\"http:\/\/estrangeira.files.wordpress.com\/2010\/08\/protesto.jpg?w=400&amp;h=280\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"280\" \/><\/a> Cr\u00e9dito: Revista \u00c9poca<\/dl>\n<\/h5>\n<p>A maior parte desses blogueiros trafega entre assuntos t\u00e3o diversos como teologia, pol\u00edtica, televis\u00e3o, cinema e m\u00fasica popular. O tr\u00e2nsito entre o \u201csecular\u201d e o \u201csagrado\u201d \u00e9 uma das caracter\u00edsticas mais fortes desses novos evang\u00e9licos. \u201cA espiritualidade crist\u00e3 sempre teve a miss\u00e3o de resgatar a pessoa e faz\u00ea-la interagir e transformar a sociedade\u201d, diz Ricardo Agreste. \u201cRompemos o ostracismo da igreja hist\u00f3rica tradicional, entramos em di\u00e1logo com a cultura e com os \u00edcones e pensamento dessa cultura e estamos refletindo sobre tudo isso.\u201d<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, o capel\u00e3o Valter Ravara criou o Instituto G\u00eanesis 1.28, uma organiza\u00e7\u00e3o que ministra cursos de conscientiza\u00e7\u00e3o ambiental em igrejas, escolas e centros comunit\u00e1rios. \u201c\u00c9 a proposta de Jesus, materializar o amor ao pr\u00f3ximo no dia a dia\u201d, afirma Ravara. \u201cO homem sem Deus joga papel no ch\u00e3o? O crist\u00e3o n\u00e3o deve jogar.\u201d Ravara publicou em 2008 a B\u00edblia verde, com lamina\u00e7\u00e3o biodegrad\u00e1vel, papel de reflorestamento e encarte com textos sobre sustentabilidade.<\/p>\n<p>A ent\u00e3o ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, escreveu o pref\u00e1cio da B\u00edblia verde. Sua candidatura \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica angariou simpatia de blogueiros e tuiteiros, mas n\u00e3o o apoio formal da Assembleia de Deus, denomina\u00e7\u00e3o a que ela pertence. A separa\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica e religi\u00e3o pregada por Marina \u00e9 vista como um marco da nova inser\u00e7\u00e3o social evang\u00e9lica. O vereador paulistano e evang\u00e9lico Carlos Bezerra Jr. afirma que o dever do pol\u00edtico crist\u00e3o \u00e9 \u201cexpressar o Reino de Deus\u201d dentro da pol\u00edtica. \u201c\u00c9 o oposto do que fazem as bancadas evang\u00e9licas no Congresso, que existem para conseguir facilidades para sua denomina\u00e7\u00e3o e sustentar imp\u00e9rios eclesi\u00e1sticos\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>O racioc\u00ednio antissect\u00e1rio se espalhou para a m\u00fasica. Nomes como Palavrantiga, Crombie, Tanlan, Eduardo Mano, Helvio Sodr\u00e9 e Lucas Souza se definem apenas como \u201cm\u00fasica feita por crist\u00e3os\u201d, n\u00e3o mais como \u201cgospel\u201d. Eles rompem os limites entre os mercados evang\u00e9lico e pop. O antissectarismo torna os evang\u00e9licos mais sens\u00edveis a a\u00e7\u00f5es sociais, das parcerias com ONGs at\u00e9 uma comunidade funcionando em plena Cracol\u00e2ndia, no centro de S\u00e3o Paulo. \u201cNo fundo, nossa proposta \u00e9 a mesma dos reformadores\u201d, diz o presbiteriano Ricardo Gouveia. \u201c\u00c9 perceber o cristianismo como algo feito para viver na vida cotidiana, no nosso trabalho, na nossa cidadania, no nosso comportamento \u00e9tico, e n\u00e3o dentro das quatro paredes de um templo.\u201d<\/p>\n<p>A teologia chama de \u201ccristoc\u00eantrico\u201d o movimento empreendido por esses crentes que tentam tirar o cristianismo das m\u00e3os da estrutura da igreja \u2013 vis\u00e3o conhecida como \u201ceclesioc\u00eantrica\u201d \u2013 e devolv\u00ea-lo para a imaterialidade das coisas do esp\u00edrito. \u00c9 uma vers\u00e3o brasileiramente mais modesta do que a Igreja Cat\u00f3lica viveu nos tempos da Reforma Protestante. Desta vez, por\u00e9m, dirigida para a pr\u00f3pria igreja protestante. Depois de tantos desvios, vozes internas levantaram-se para propor uma nova forma de enxergar o mundo. E, como efeito, de ser enxergadas por ele. Nas palavras do pastor Kivitz: \u201cMarx e Freud nos convenceram de que, se algu\u00e9m tem f\u00e9, s\u00f3 pode ser um est\u00fapido infantil que espera que um Papai do C\u00e9u possa lhe suprir as car\u00eancias. Mas hoje gostar\u00edamos de dizer que o cristianismo tem, sim, espa\u00e7o para contribuir com a constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa para a civiliza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 a\u00ed. Uma sociedade que todo mundo espera, n\u00e3o apenas aqueles que buscam uma experi\u00eancia religiosa\u201d.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/revistaepoca.globo.com\/Revista\/Epoca\/foto\/0,,42921495,00.jpg\" alt=\"\" width=\"467\" height=\"749\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ricardo Alexandre Mat\u00e9ria publicada na Revista \u00c9poca A revista \u00c9poca desta semana traz como mat\u00e9ria de capa \u201cA nova Reforma Protestante\u201d, onde trata de crist\u00e3os que buscam o retorno ao Evangelho puro e simples de Cristo, na contram\u00e3o de boa parte da igreja evang\u00e9lica brasileira, fascinada com movimentos her\u00e9ticos como a teologia da prosperidade. Abaixo, a transcri\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria, obtida via P\u00falpito Crist\u00e3o: Rani Rosique n\u00e3o \u00e9 ap\u00f3stolo, bispo, presb\u00edtero nem pastor. \u00c9 apenas um cirurgi\u00e3o geral de 49 anos em Ariquemes, cidade de 80 mil habitantes do interior de Rond\u00f4nia. 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