{"id":14177,"date":"2010-06-27T14:39:37","date_gmt":"2010-06-27T17:39:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=14177"},"modified":"2010-06-27T14:39:37","modified_gmt":"2010-06-27T17:39:37","slug":"a-vida-era-as-margens-ate-o-rio-virar-inimigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/06\/27\/a-vida-era-as-margens-ate-o-rio-virar-inimigo\/","title":{"rendered":"A vida era \u00e0s margens, at\u00e9 o rio virar inimigo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Bruno Paes Manso \/ TEXTO e Ernesto Rodrigues \/ FOTOS &#8211; O Estado de S.Paulo<\/strong><\/em><\/p>\n<div>\n<p>O nome aristocr\u00e1tico de Em\u00eddio Camelo Pessoa Neto, morador de Palmares, em Pernambuco, n\u00e3o engana: ele \u00e9 plantador e fornecedor de cana-de-a\u00e7\u00facar, assim como foi seu bisav\u00f4 por parte de pai e tatarav\u00f4 por parte de m\u00e3e. Ao longo de mais de tr\u00eas s\u00e9culos, desde quando os engenhos ajudaram a alavancar a economia colonial brasileira, Pessoa Neto e grande parte dos habitantes das cidades da Zona da Mata se mantiveram fi\u00e9is \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o cultural e econ\u00f4mica da regi\u00e3o, baseada na produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar, que levou cidades a serem erguidas \u00e0s margens do rio para usar a \u00e1gua abundante que moveu engenhos e usinas.<\/p>\n<p>\u00a0Se os costumes e estruturas mudaram pouco, o clima parece sofrer transforma\u00e7\u00e3o mais ligeira. &#8220;No passado, as enchentes nunca foram problema para a regi\u00e3o. As chuvas no m\u00e1ximo lavavam as ruas. Fic\u00e1vamos mais preocupados com a estiagem, que amea\u00e7ava as safras de cana e a baixa produ\u00e7\u00e3o afetava de alguma forma todos os habitantes daqui.&#8221;<!--more--><\/p>\n<p>Prova disso \u00e9 que os principais pr\u00e9dios de Palmares foram erguidos \u00e0s margens do Rio Una e permaneceram de p\u00e9. Foi o caso do Hospital Regional, constru\u00eddo nos anos 1960, que na semana passada ficou totalmente submerso; a Igreja Presbiteriana, de 160 anos; os principais casar\u00f5es do fim do s\u00e9culo passado, a usina da cidade e os cerca de mil estabelecimentos comerciais que funcionam ao longo da rua comercial.<\/p>\n<p>Por ironia, depois da chuva o solo argiloso do tipo massap\u00e9, que j\u00e1 fez a riqueza dos fazendeiros da Col\u00f4nia, era o maior pesadelo, invadindo ruas, entupindo tubula\u00e7\u00f5es, dificultando a andan\u00e7a dos moradores e causando o forte mau cheiro que impregnava a cidade ao se misturar com lixo e comidas em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A revolta dos c\u00e9us e dos rios da cidade se manifestou pela primeira vez no primeiro ano do novo mil\u00eanio. Em 2000, as \u00e1guas n\u00e3o chegaram a atingir o primeiro andar dos sobrados e a trag\u00e9dia foi vista como um epis\u00f3dio \u00fanico, daqueles que acontecem a cada cem anos. &#8220;Todos aqui foram pegos de surpresa. Hav\u00edamos acabado de testar os equipamentos da usina para iniciar em setembro a moagem de 800 mil toneladas de a\u00e7\u00facar. A cheia estragou os planos&#8221;, diz o superintendente da Usina Norte Sul, Abimael Colonhezi, a principal da cidade, que ocupa uma \u00e1rea de dez hectares no centro do munic\u00edpio e durante a safra rende empregos para 2.500 pessoas.<\/p>\n<p>A Usina Norte Sul era propriedade do atual prefeito de Palmares, Jos\u00e9 Bartolo. Foi comprada h\u00e1 dois anos por um grupo paranaense, que esperava construir uma destilaria para mudar a tradi\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira para concorrer pelos dividendos do \u00e1lcool. Tudo ficou mais dif\u00edcil depois das chuvas, que carregaram uma pe\u00e7a de 3 toneladas da esteira de cana e deslocaram do lugar um tanque gigante de 5 milh\u00f5es de litros.<\/p>\n<p>Formado em Geografia e propriet\u00e1rio de uma revenda de carros em Palmares, Rafael Pimentel Neto arrisca uma teoria para a revolta do clima. Ele lembra que nos anos 1980 grande parte da popula\u00e7\u00e3o dos engenhos, fazendas vizinhas \u00e0s cidades da Zona da Mata, encheram as cidades. Invadiram o leito dos rios, que ficaram mais estreitos e passaram a ter assim uma nova rela\u00e7\u00e3o com os habitantes.<\/p>\n<p>Ataque card\u00edaco. Uma das caracter\u00edsticas comuns \u00e0s duas \u00faltimas cheias foi a rapidez da subida do n\u00edvel das \u00e1guas at\u00e9 tragar todas as casas. O propriet\u00e1rio do supermercado H\u00edper Hildo, Luiz Gustavo Bezerra Cavalcante, lembra que no dia 18, \u00e0s 17 horas, o supermercado come\u00e7ava a encher. Em 1h20, as \u00e1guas subiram mais de dois metros e ficaram a dois degraus do 1.\u00ba andar, onde ele conseguiu colocar 30% do estoque do mercado.<\/p>\n<p>Como o n\u00edvel subiu em pouco tempo, 30 funcion\u00e1rios ficaram dois dias presos no supermercado. A manuten\u00e7\u00e3o equivocada das comportas da Barragem do Prata, especula o comerciante, pode explicar as r\u00e1pidas subidas de n\u00edvel. &#8220;Em vez de irem abrindo aos poucos, parecem que abrem de uma vez, quando as \u00e1guas j\u00e1 est\u00e3o para vazar&#8221;, diz Cavalcante, que teve preju\u00edzo estimado em R$ 5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>A amea\u00e7a da Barragem do Prata, por sinal, que fica em S\u00e3o Joaquim dos Montes, a 60 km de Palmares, e comporta 150 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua, causou p\u00e2nico nos moradores durante as cheias. Depois do jogo do Brasil contra a Costa do Marfim, no domingo, quando parte da popula\u00e7\u00e3o ainda sofria o impacto de ver as casas destru\u00eddas depois de as \u00e1guas baixarem, rapidamente se espalhou um boato de que a Barragem do Prata havia sido destru\u00edda. A popula\u00e7\u00e3o foi para as ruas tentar chegar a bairros mais altos. Houve desmaios, pessoas pisoteadas, batidas de carros e a r\u00e1dio comunit\u00e1ria precisou avisar que se tratava de mentira. Depois da confus\u00e3o, foram registradas as duas \u00fanicas mortes em Palmares. N\u00e3o por afogamento, mas por ataque card\u00edaco.<\/p>\n<p>Coube ao padre Agivaldo Lessa Lemos encomendar os corpos. &#8220;Estavam todos em choque e um simples boato pode afetar toda a cidade&#8221;, comenta o religioso, que na noite de quinta-feira caminhava com um grupo de cinco jovens, portando um megafone, distribuindo 3 mil p\u00e3es com mortadela e caf\u00e9 com leite. &#8220;Agora os nervos come\u00e7am a se acalmar. \u00c9 hora de botar a cabe\u00e7a no lugar.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Paes Manso \/ TEXTO e Ernesto Rodrigues \/ FOTOS &#8211; O Estado de S.Paulo O nome aristocr\u00e1tico de Em\u00eddio Camelo Pessoa Neto, morador de Palmares, em Pernambuco, n\u00e3o engana: ele \u00e9 plantador e fornecedor de cana-de-a\u00e7\u00facar, assim como foi seu bisav\u00f4 por parte de pai e tatarav\u00f4 por parte de m\u00e3e. 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