{"id":14070,"date":"2010-06-25T19:37:20","date_gmt":"2010-06-25T22:37:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=14070"},"modified":"2010-06-25T19:37:20","modified_gmt":"2010-06-25T22:37:20","slug":"genoma-mais-dificil-do-que-o-imaginado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/06\/25\/genoma-mais-dificil-do-que-o-imaginado\/","title":{"rendered":"Genoma: Mais dif\u00edcil do que o imaginado"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Leoleli Camargo, iG S\u00e3o Paulo<\/strong>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Em um recente artigo publicado na revista Nature o diretor dos Institutos Nacionais de Sa\u00fade dos Estados Unidos, Francis Collins, recorda que no an\u00fancio da conclus\u00e3o do sequenciamento do genoma humano fez suas pr\u00f3prias previs\u00f5es para 2010.<\/p>\n<p>Ao lado do cientista-empres\u00e1rio Craig Venter \u2013 que encabe\u00e7ava o cons\u00f3rcio privado a estudar o mesmo tema \u2013 Collins apresentou ao ent\u00e3o presidente Bill Clinton uma s\u00e9rie de l\u00e2minas de PowerPoint na qual vaticinava: em uma d\u00e9cada testes gen\u00e9ticos para apontar as chances de uma pessoa desenvolver uma ou mais doen\u00e7as estar\u00e3o dispon\u00edveis para uma d\u00fazia de enfermidades e ser\u00e1 poss\u00edvel reduzir o risco de desenvolver algumas delas com interven\u00e7\u00f5es praticadas por m\u00e9dicos por meio da \u201cmedicina gen\u00e9tica\u201d.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i0.ig.com\/fw\/5s\/br\/b3\/5sbrb3x9q79aqh59pezp35kw0.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<div><cite>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/cite><\/div>\n<div>\n<p>Collins (\u00e0 frente) e Venter no an\u00fancio do sequenciamento completo do Genoma Humano, em 2006<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Collins foi al\u00e9m. Acrescentou que o diagn\u00f3stico pr\u00e9-implantacional \u2013 an\u00e1lise gen\u00e9tica do beb\u00ea ainda na fase de embri\u00e3o, antes mesmo de implant\u00e1-lo no \u00fatero da m\u00e3e \u2013 estaria dispon\u00edvel em uma escala ampla, e seus limites \u00e9ticos seriam ferozmente debatidos.<\/p>\n<p>O cientista terminava suas previs\u00f5es dizendo que em 2010 a proibi\u00e7\u00e3o do preconceito gen\u00e9tico \u2013 discrimina\u00e7\u00e3o de uma pessoa por conta de alguma caracter\u00edstica gen\u00e9tica que ela tenha \u2013 seria uma realidade nos Estados Unidos e o acesso \u00e0 medicina gen\u00e9tica continuaria a ser desigual, especialmente nos pa\u00edses em desenvolvimento.<!--more--><\/p>\n<p>Como o pr\u00f3prio Collins afirma no artigo, \u00e9 justo dizer que praticamente todos os itens da l\u00e2mina apresentada na ocasi\u00e3o j\u00e1 s\u00e3o, com algumas ressalvas, realidade. Ainda assim, uma d\u00e9cada depois de completa a primeira vis\u00e3o do genoma humano a ci\u00eancia avan\u00e7a de forma s\u00f4frega e por vezes err\u00e1tica no desenvolvimento de medicamentos e tratamentos baseados no conhecimento adquirido sobre os genes.<\/p>\n<p><strong>Longe da maioria<\/strong><\/p>\n<p>Embora j\u00e1 se disponha de testes gen\u00e9ticos preditivos para muitas doen\u00e7as raras, causadas por muta\u00e7\u00f5es em um \u00fanico gene, ainda n\u00e3o existem exames comprovadamente eficazes para apontar com precis\u00e3o as chances de desenvolvimento das enfermidades cr\u00f4nicas que mais limitam e matam no planeta: doen\u00e7as cardiovasculares, c\u00e2nceres, diabetes, Alzheimer e Parkinson. Isso porque, sabe-se hoje, s\u00e3o doen\u00e7as causadas por altera\u00e7\u00f5es em mais de um gene \u2013 talvez centenas deles \u2013 e os pesquisadores ainda n\u00e3o entenderam como se d\u00e1 a intera\u00e7\u00e3o entre o ambiente e essas sequencias de DNA que dizem \u00e0s c\u00e9lulas o que fazer.<\/p>\n<p>\u00a0Da mesma forma, a pol\u00eamica possibilidade de analisar e selecionar o embri\u00e3o que seguir\u00e1 adiante na fertiliza\u00e7\u00e3o in vitro ainda \u00e9 uma realidade muito distante da maior parte da popula\u00e7\u00e3o \u2013 a segrega\u00e7\u00e3o come\u00e7a pelos altos pre\u00e7os cobrados para se fazer um beb\u00ea de proveta \u2013 e a discrimina\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, por enquanto, \u00e9 apenas objeto de divaga\u00e7\u00f5es. Uma sombra negra em um futuro que a maioria dos humanos, de forma imprudente, nem ousa vislumbrar.<\/p>\n<p>Alguns recentes avan\u00e7os, entretanto, est\u00e3o dando novo f\u00f4lego \u00e0 esperan\u00e7a mundial de um planeta mais saud\u00e1vel \u2013 e limpo. No m\u00eas passado, Craig Venter e sua turma <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/ciencia\/entenda+a+criacao+da+celula+sintetica\/n1237629176220.html\">anunciaram a cria\u00e7\u00e3o de uma bact\u00e9ria criada a partir de um genoma artificial<\/a>. O ser que vive com um DNA totalmente montado em laborat\u00f3rio poder\u00e1, no futuro, dar origem a combust\u00edveis alternativos ou a formas de vida org\u00e2nicas pass\u00edveis de serem programadas para realizar trabalhos imposs\u00edveis de serem feitos por seres humanos.<\/p>\n<p><strong>Reprograma\u00e7\u00e3o celular<\/strong><\/p>\n<p>Na Medicina os avan\u00e7os mais significativos est\u00e3o concentrados em identificar genes que causam ou favorecem o surgimento de doen\u00e7as. A partir desse conhecimento, j\u00e1 foi poss\u00edvel, por exemplo, silenciar a express\u00e3o de determinados genes com o intuito de tratar ou at\u00e9 mesmo evitar doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o deste ano, uma equipe do Instituto de Tecnologia da Calif\u00f3rnia, nos Estados Unidos, conseguiu silenciar genes espec\u00edficos ligados ao melanoma, a forma mais agressiva e letal de c\u00e2ncer de pele, usando nanopart\u00edculas para \u201centregar\u201d no n\u00facleo da c\u00e9lula sequ\u00eancias gen\u00e9ticas capazes de diminuir ou cessar completamente a express\u00e3o de um gene envolvido na doen\u00e7a. A t\u00e9cnica, batizada de RNA interfer\u00eancia (RNAi) rendeu a seus descobridores o pr\u00eamio Nobel de Medicina em 2006.<\/p>\n<div><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i0.ig.com\/fw\/4v\/eq\/gc\/4veqgcfym4r27v5zl52flh0pn.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<div><cite>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/cite><\/div>\n<div>\n<p>Pesquisa: poucos avan\u00e7os pr\u00e1ticos<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Pouco mais de um m\u00eas depois do an\u00fancio dos pesquisadores californianos, um grupo liderado pelo pediatra John De Vincenzo, do Centro de Ci\u00eancias da Sa\u00fade da Universidade do Tennessee anunciou o sucesso do uso da mesma t\u00e9cnica para prevenir uma doen\u00e7a humana, a infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus sincicial respirat\u00f3rio, um dos principais causadores de pneumonia e infec\u00e7\u00e3o das vias a\u00e9reas em crian\u00e7as e adultos jovens. Outra \u00e1rea que vem recebendo grandes investimentos em pesquisa \u00e9 a farmacogen\u00f4mica, o estudo de como os medicamentos reagem em organismos com perfis gen\u00e9ticos diferentes. Hoje j\u00e1 existem testes capazes de prever como um indiv\u00edduo vai reagir \u00e0 medica\u00e7\u00e3o que est\u00e1 recebendo. Com isso, se economiza recursos em sa\u00fade e principalmente tempo, um fator do qual a maior parte dos doentes n\u00e3o disp\u00f5e.<\/p>\n<p>\u201cIsso j\u00e1 foi feito com o c\u00e2ncer de mama. Para metade das mulheres que faziam uso de um rem\u00e9dio, o resultado era excelente. Para a outra, n\u00e3o tinha fun\u00e7\u00e3o nenhuma. Os m\u00e9dicos descobriram que isso acontecia por conta de uma altera\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica\u201d explica o presidente da Sociedade Brasileira de Gen\u00e9tica M\u00e9dica, Salmo Raskin.<\/p>\n<p>O teste citado pelo m\u00e9dico brasileiro foi desenvolvido pela empresa americana Genomic Health. Ele consegue dizer quais mulheres com c\u00e2ncer de mama ir\u00e3o se beneficiar da quimioterapia e quais precisam de outra abordagem de tratamento. E os avan\u00e7os n\u00e3o param por a\u00ed. Uma equipe liderada pelo oncologista Bert Vogelstein, da Universidade Johns Hopkins de Baltimore, nos Estados Unidos, desenvolveu um exame de sangue personalizado que diz se o c\u00e2ncer do paciente voltou ou se espalhou pelo corpo.<\/p>\n<p><strong>\u201cDNA lixo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Boa parte da dificuldade dos cientistas em \u201centregar\u201d o que foi prometido uma d\u00e9cada atr\u00e1s se deve a uma descoberta feita quando o mapeamento do genoma humano alcan\u00e7ou os 100%, em 2003. Na \u00e9poca, constatou-se que um ser humano tem cerca de 20.500 genes \u2013 trechos de DNA que, codificam algo, ou seja, dizem \u00e0 c\u00e9lula qual prote\u00edna ela deve produzir. O resto, que corresponde a 98% do genoma humano, foi classificado pelos cientistas como DNA n\u00e3o-codificante ou \u201cDNA lixo\u201d.<\/p>\n<p>At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, pensava-se que o \u201cDNA lixo\u201d era apenas um amontoado de letras A, G , C e T que n\u00e3o dizia absolutamente nada. Essa ideia s\u00f3 come\u00e7ou a mudar a partir de 2006, quando grupos de pesquisa compararam o genoma de pessoas cujos genes eram 99% iguais e descobriram diferen\u00e7as dram\u00e1ticas no \u201cDNA lixo\u201d delas. Com essa compara\u00e7\u00e3o os cientistas descobriram o \u201cDNA lixo\u201d tem tanta import\u00e2ncia na forma\u00e7\u00e3o de um ser humano \u00fanico quanto seus genes. Se compreender a intera\u00e7\u00e3o dos j\u00e1 mapeados 22.500 genes humanos com o ambiente em que vivemos ainda \u00e9 um grande desafio para a ci\u00eancia, o que dizer de elucidar o papel dos 98% de \u201cDNA lixo\u201d no desenvolvimento de cada ser humano, e mais, no surgimento de doen\u00e7as? \u00c9, a vida est\u00e1 ficando cada vez mais complicada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leoleli Camargo, iG S\u00e3o Paulo\u00a0 Em um recente artigo publicado na revista Nature o diretor dos Institutos Nacionais de Sa\u00fade dos Estados Unidos, Francis Collins, recorda que no an\u00fancio da conclus\u00e3o do sequenciamento do genoma humano fez suas pr\u00f3prias previs\u00f5es para 2010. Ao lado do cientista-empres\u00e1rio Craig Venter \u2013 que encabe\u00e7ava o cons\u00f3rcio privado a estudar o mesmo tema \u2013 Collins apresentou ao ent\u00e3o presidente Bill Clinton uma s\u00e9rie de l\u00e2minas de PowerPoint na qual vaticinava: em uma d\u00e9cada testes gen\u00e9ticos para apontar as chances de uma pessoa desenvolver uma ou mais doen\u00e7as estar\u00e3o dispon\u00edveis para uma d\u00fazia de enfermidades&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[5033],"class_list":["post-14070","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-genoma-humano"],"acf":[],"views":1851,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14070","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14070"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14070\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":14072,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14070\/revisions\/14072"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14070"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14070"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14070"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}