{"id":14040,"date":"2010-06-25T09:35:44","date_gmt":"2010-06-25T12:35:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=14040"},"modified":"2010-06-25T09:35:44","modified_gmt":"2010-06-25T12:35:44","slug":"barreiras-ambientalistas-querem-parque-nacional-para-conter-expansao-da-soja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/06\/25\/barreiras-ambientalistas-querem-parque-nacional-para-conter-expansao-da-soja\/","title":{"rendered":"Barreiras: Ambientalistas querem parque nacional para conter expans\u00e3o da soja"},"content":{"rendered":"<div>Oeste da Bahia \u00e9 palco de movimenta\u00e7\u00f5es pela cria\u00e7\u00e3o de parque nacional no Cerrado da regi\u00e3o. Agricultores familiares e comunidades tradicionais sofrem o impacto da chegada de grupos do agroneg\u00f3cio &#8211; inclusive estrangeiros<\/div>\n<p>Jornais e revistas da m\u00eddia que acompanham o cotidiano do agroneg\u00f3cio registram que os estrangeiros &#8211; assim como os grandes grupos nacionais &#8211; demonstram interesse crescente pelas terras e pela produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no Oeste da Bahia. No dia 27 de maio, por exemplo, o jornal Valor Econ\u00f4mico divulgou que grupos chineses do setor do agroneg\u00f3cio pretendem comprar cerca de 250 mil hectares de terras no Brasil, distribu\u00eddos entre o Oeste baiano e regi\u00f5es do Cerrado no Maranh\u00e3o, Piau\u00ed e Tocantins.<br \/>\n<!--more--><br \/>\nSeriam, assim, outros 250 mil hectares de terra pretendidos por estrangeiros no chamado &#8220;<strong>Mapitoba<\/strong>&#8220;, conforme o setor apelidou a regi\u00e3o formada pelos quatro Estados em quest\u00e3o, e que tem apresentado forte avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio nos \u00faltimos anos. Ou, 250 mil hectares destinados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, por parte de empresas chinesas, de algod\u00e3o, soja e outras culturas, para serem exportados quase que inteiramente, direto para a pr\u00f3pria China!<\/p>\n<p>Ao lado do crescente interesse dos estrangeiros pelas terras do Oeste baiano, o que poucos brasileiros sabem \u00e9 que parte da sociedade civil local mobiliza-se pela cria\u00e7\u00e3o de um parque nacional na regi\u00e3o. A unidade de conserva\u00e7\u00e3o seria constitu\u00edda entre os munic\u00edpios de Barreiras e Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, na \u00e1rea do rio de Janeiro, curso d\u00b4\u00e1gua que conta com a incr\u00edvel cachoeira do Acaba Vida e com o lindo <strong>Po\u00e7o do Redondo<\/strong>. O pleito, que tramita no Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), em Bras\u00edlia, foi tentado alguns anos atr\u00e1s. Sem sucesso na ocasi\u00e3o. E por motivos e interesses f\u00e1ceis de se presumir &#8211; por exemplo, press\u00f5es sobre as prefeituras locais e omiss\u00e3o dos vereadores.<br \/>\n<strong>Cerrado desprotegido<\/strong><\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o do parque na regi\u00e3o seria muito bem-vinda, n\u00e3o somente pelas belezas \u00edmpares, mas tamb\u00e9m pelo fato de o Cerrado local ser um dos mais desprotegidos do pa\u00eds (conhe\u00e7a a <a href=\"http:\/\/www.reporterbrasil.org.br\/documentos\/o_brasil_dos_agrocombustiveis_v5.pdf\"><strong>an\u00e1lise do CMA<\/strong><\/a> sobre os impactos socioambientais do algod\u00e3o no Oeste da Bahia em 2009). Organismos internacionais recomendam que 10% do territ\u00f3rio de um pa\u00eds ou Estado seja destinado a unidades de conserva\u00e7\u00e3o. O Brasil possui cerca de 9%, ao passo que a Bahia conta com cerca de 10%, segundo a secretaria estadual do Meio Ambiente. J\u00e1 o Oeste Baiano, segundo levantamentos do ambientalista Dino Dal B\u00f3, Barreiras contaria com somente 0,9% de seu territ\u00f3rio destinado a unidades de conserva\u00e7\u00e3o. &#8220;<em><strong>Com o parque nacional, ter\u00edamos a possibilidade de preservar o [peixe] surubim, a [\u00e1rvore] aroeira e cerca de 60 outras esp\u00e9cies amea\u00e7adas<\/strong><\/em>&#8220;, explica Dal B\u00f3, que \u00e9 servidor aposentado do Ibama.<\/p>\n<p>Aqui, cabe registrar que parte da \u00e1rea em que o parque seria criado hoje j\u00e1 \u00e9 parcialmente protegida, por meio da APA (\u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o ambiental) do Rio de Janeiro. Em incurs\u00e3o \u00e0 APA, o CMA constatou \u00e0 beira da estrada de terra local \u00e1rvores derrubadas ilegalmente (para a obten\u00e7\u00e3o de madeira), al\u00e9m de um morador da regi\u00e3o praticando pesca com arp\u00e3o no rio, ao arrepio da lei. J\u00e1 em 2008, o CMA apontava, em seu relat\u00f3rio sobre os impactos da produ\u00e7\u00e3o da soja no Brasil, para os problemas enfrentados pela APA do Rio de Janeiro, em fun\u00e7\u00e3o do cerco a que estava submetido pelas \u00e1reas produtoras do gr\u00e3o na regi\u00e3o (link para o relat\u00f3rio da soja 2008). \u00a0<\/p>\n<p>Ao passo que a expans\u00e3o da soja em \u00e1reas do bioma amaz\u00f4nico \u00e9 objeto de importantes a\u00e7\u00f5es de monitoramento, outras regi\u00f5es brasileiras experimentam um forte avan\u00e7o da cultura, com a gera\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de impactos, em boa parte deles desconhecidos da opini\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 o caso, por exemplo, do pr\u00f3prio Oeste da Bahia, uma regi\u00e3o cuja produ\u00e7\u00e3o da soja encontra-se em franco crescimento, na qual a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio \u00e9 marcada pela chegada de ind\u00fastrias e pela comercializa\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria-prima para usinas de biodiesel de outras localidades. De acordo com informa\u00e7\u00f5es da Informa\u00e7\u00f5es da AIBA &#8211; Associa\u00e7\u00e3o de Agricultores e Irrigantes da Bahia, entre as safras 1992\/93 e 2009\/10, a soja local cresceu de 380 mil hectares para 1,05 milh\u00e3o de hectares, um salto de quase tr\u00eas vezes em menos de duas d\u00e9cadas, portanto.<br \/>\nNum cen\u00e1rio em que os agentes econ\u00f4micos apresentam grande for\u00e7a, o poder p\u00fablico busca estabelecer o respeito ao Estado Democr\u00e1tico de Direito e adota uma s\u00e9rie de iniciativas e procedimentos neste sentido &#8211; mas certamente ainda corre atr\u00e1s de uma s\u00e9rie de passivos acumulados.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o \u00e9 de grandes dimens\u00f5es, tendo nos munic\u00edpios de Barreiras, Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es e S\u00e3o Desid\u00e9rio as principais refer\u00eancias, e faz fronteira com outros cinco Estados: Minas, Goi\u00e1s, Tocantins, Maranh\u00e3o e Piau\u00ed. Distantes quase 1 mil km de Salvador, as cidades locais mais ricas s\u00e3o palco inclusive de movimentos voltados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um novo Estado na regi\u00e3o. Seria o Estado do rio S\u00e3o Francisco, que teria nos grandes agricultores locais a prov\u00e1vel for\u00e7a pol\u00edtica principal e cuja proposta de realiza\u00e7\u00e3o de um plebiscito sobre o tema encontra-se em tramita\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p>De acordo com estudo CMA-Rep\u00f3rter Brasil sobre a soja na Bahia, Mato Grosso e restante do Brasil na safra 2009\/2010, o Oeste baiano apresenta avan\u00e7os econ\u00f4micos e sociais em fun\u00e7\u00e3o do crescimento do agroneg\u00f3cio, com o desenvolvimento da infra-estrutura acontecendo de forma diretamente relacionada a esse setor &#8211; por exemplo com investimentos na BR-135 e com perspectivas de implementa\u00e7\u00e3o de uma ferrovia cortando o Estado de Leste a Oeste, al\u00e9m de um porto em Ilh\u00e9us para facilitar o escoamento da produ\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, trata-se de um conjunto de munic\u00edpios marcado por expressivos \u00edndices de pobreza e que demanda investimentos em \u00e1reas b\u00e1sicas como saneamento.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente, a regi\u00e3o apresenta belezas \u00edmpares, com um riqu\u00edssimo Cerrado, rios em profus\u00e3o, cachoeiras, lagoas e grandes serras. A quantidade de problemas \u00e9 proporcional &#8211; na realidade, chega a chamar at\u00e9 mais aten\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e0s belezas locais. Dos dez munic\u00edpios que mais plantam soja na Bahia, seis s\u00e3o campe\u00f5es de desmatamento do Cerrado entre 2002 e 2008, segundo dados do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente (tabela abaixo): Formosa do Rio Preto (campe\u00e3 nacional de desmatamento do Cerrado no per\u00edodo, 2\u00aa em \u00e1rea plantada de soja na Bahia em 2008), S\u00e3o Desid\u00e9rio (vice-campe\u00e3 em desmatamento, 1a em \u00e1rea plantada na Bahia), Correntina (3\u00aa e 5\u00aa), Jaborandi (9\u00aa e 7\u00aa), Barreiras (14a e 4a) e Riach\u00e3o das Neves (17\u00aa e 6\u00aa).<\/p>\n<p>Aqui, vale registrar que tal situa\u00e7\u00e3o de desrespeito ao Cerrado n\u00e3o \u00e9 exclusividade da Bahia. Conforme revela o estudo do CMA-Rep\u00f3rter Brasil sobre a safra 2009\/2010 da soja, nas regi\u00f5es vizinhas ao Oeste baiano a situa\u00e7\u00e3o se repete, e, nos demais Estados que formam o Mapitoba, se repete a coincid\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos munic\u00edpios campe\u00f5es do desmatamento e da produ\u00e7\u00e3o da soja.<\/p>\n<p>O levantamento do CMA apontava, ainda, para a exist\u00eancia de 966 autos de infra\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio baiano na p\u00e1gina de \u00e1reas embargadas do Ibama em 16 de abril. Dessas \u00e1reas embargadas, 249 situavam-se nas dez maiores cidades plantadoras de soja no Estado. Ou seja, 25,8% das \u00e1reas embargadas concentravam-se nessas cidades, ao passo que os outros 74,2% das \u00e1reas espalhava-se pelos 407 munic\u00edpios baianos restantes.<\/p>\n<p>Apesar dos indicadores, o Governo do Estado e os representantes dos produtores da Bahia avaliam que a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 em uma perspectiva melhor. Com discurso semelhante, apontam para ambig\u00fcidades que a legisla\u00e7\u00e3o apresentava e para problemas de estrutura dos \u00f3rg\u00e3os ambientais, que levaram ao atual passivo. A A Assessoria Geral de Comunica\u00e7\u00e3o Social do Governo do Estado da Bahia (Agecom) afirmou ao CMA, por meio eletr\u00f4nico, que, &#8220;<em><strong>ao contr\u00e1rio do que ainda se fala, a regi\u00e3o Oeste n\u00e3o \u00e9 uma agressora do meio ambiente. Existe na regi\u00e3o grandes \u00e1reas preservadas e intocadas. Os produtores est\u00e3o conscientes da import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o e da regulariza\u00e7\u00e3o ambiental<\/strong><\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>Fiando-se em pesquisas que apontam para uma \u00e1rea preservada de cerca de 64% do Cerrado no Oeste da Bahia, governo e produtores entendem que a riqueza ambiental local ser\u00e1 protegida, e apostam suas fichas nesse sentido no programa &#8220;<strong>Oeste Legal<\/strong>&#8220;, voltado a regularizar as quest\u00f5es ambiental e fundi\u00e1ria junto aos produtores da regi\u00e3o e aprovado em 2009. Segundo a AIBA, o plano foi &#8220;<em><strong>a alternativa encontrada por governos, produtores e sociedade civil organizada para adequar do ponto de vista ambiental a regi\u00e3o Oeste<\/strong><\/em>&#8220;, diante do &#8220;<strong><em>caos gerado pela falta da regulariza\u00e7\u00e3o ambiental dos empreendimentos agr\u00edcolas<\/em><\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p>O governo do Estado explica que &#8220;<strong><em>os produtores cadastrados passam a aderir ao plano com o objetivo de iniciar a recupera\u00e7\u00e3o ambiental, quando for o caso, e a adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o ambiental, instituindo a reserva legal do im\u00f3vel e a recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o permanente<\/em><\/strong>&#8220;. O desafio, contudo, \u00e9 tremendo: somente nos sete munic\u00edpios da regi\u00e3o focados inicialmente, existem mais de 12 mil propriedades. Ao final do primeiro trimestre de 2010, 200 im\u00f3veis haviam aderido ao plano, totalizando cerca de 195 mil hectares. \u00a0<\/p>\n<p><strong>Recursos h\u00eddricos<\/strong><\/p>\n<p>Em sua passagem pela regi\u00e3o, o CMA deparou-se com in\u00fameros registros de cursos d\u00b4\u00e1gua que est\u00e3o desaparecendo, bem como com desmatamentos de \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente, ou com a inexist\u00eancia de \u00e1reas de reserva legal. Somente o of\u00edcio do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual em Barreiras possui 46 procedimentos voltados a regularizar as \u00e1reas de reserva legal dos empreendimentos da regi\u00e3o &#8211; uma das pautas priorizadas atualmente pelo \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Zenildo Eduardo, gerente executivo do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis) em Barreiras, explica que h\u00e1 rios na regi\u00e3o perderam a sua perenidade em alguns quil\u00f4metros, e n\u00e3o mant\u00eam mais todo seu curso d\u00b4\u00e1gua vivo ao longo do ano inteiro: por exemplo, o rio dos Cachorros e o rio Pratinha. &#8220;<strong><em>O uso da \u00e1gua sem crit\u00e9rio, a eros\u00e3o e o assoreamento tem feito as vaz\u00f5es estarem maiores em \u00e9pocas de cheias, e menores na seca, parece que a \u00e1gua est\u00e1 infiltrando-se menos<\/em><\/strong>&#8220;. Ele explica que tais fen\u00f4menos come\u00e7am a ser pesquisados na regi\u00e3o, sobretudo ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o de um campus da Universidade Federal da Bahia em Barreiras, h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>O gerente do Ibama rememora que a d\u00e9cada de 1990 &#8220;<em><strong>foi quando se constatou o maior desmatamento, o pico do impacto nesse sentid<\/strong><\/em>o&#8221;. A regi\u00e3o oferecia (e ainda oferece) terra boa, barata e abundante, terrenos planos, muita \u00e1gua e forte insola\u00e7\u00e3o &#8211; al\u00e9m da m\u00e3o-de-obra carente de op\u00e7\u00f5es (link para o texto trabalhista anterior). Nos anos 2000, a regi\u00e3o passa a atrair os grandes empres\u00e1rios do setor. &#8220;<em><strong>\u00c9 quando chegam as grandes empresas, inclusive as estrangeiras<\/strong><\/em>&#8220;, explica Zenildo, que em 2008 comandou, ao lado do ent\u00e3o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, a Opera\u00e7\u00e3o Veredas, que constatou in\u00fameras irregularidades ambientais, emitindo multas que passaram dos 30 milh\u00f5es de reais, e autos de infra\u00e7\u00e3o que levaram ao embargo de quase 60 mil hectares de \u00e1reas que foram palco de irregularidades ambientais. Na ocasi\u00e3o, o Ibama foi acusado por &#8220;<em><strong>prejudicar o desenvolvimento<\/strong><\/em>&#8221; da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;<em><strong>Quando nos preocupamos com o desmatamento do Cerrado, estamos preocupados diretamente com os recursos h\u00eddricos. Trata-se da grande \u00b4caixa d\u00b4\u00e1gua\u00b4 do Brasil, ber\u00e7o das nascentes de algumas das principais bacias &#8211; como a do S\u00e3o Francisco, do Tocantins e do Paran\u00e1<\/strong><\/em>&#8220;. Zenildo destaca que a atua\u00e7\u00e3o do Ibama local se pauta tamb\u00e9m pelas preocupa\u00e7\u00f5es com as quest\u00f5es da biodiversidade, pois o Cerrado possui muitas esp\u00e9cies end\u00eamicas, que ocorrem especialmente no bioma.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com os recursos h\u00eddricos locais se acentua quando observado o uso intensivo &#8211; e crescente &#8211; de agrot\u00f3xicos nas lavouras locais. Na \u00e1rea rural do munic\u00edpio de S\u00e3o Desid\u00e9rio, vizinho a Barreiras, os moradores das comunidades rurais afirmam que rios locais, como o Mosquito e o Roda Velha, apresentam grandes quantidades de produtos qu\u00edmicos em determinadas \u00e9pocas do ano. Fam\u00edlias relatam o surgimento de alergias e rea\u00e7\u00f5es na pele em pessoas que entraram nos rios.<\/p>\n<p>Outros casos, mais graves, come\u00e7am a despertar preocupa\u00e7\u00e3o por parte dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos que acompanham as quest\u00f5es de sa\u00fade do trabalhador. Os relatos de empregados das lavouras de algod\u00e3o e soja que apresentam problemas cr\u00f4nicos de sa\u00fade ap\u00f3s lidar com os agrot\u00f3xicos s\u00e3o freq\u00fcentes. E o problema torna-se mais sutil e trai\u00e7oeiro, uma vez que a sa\u00fade dos trabalhadores n\u00e3o \u00e9 afetada principalmente por acidentes, mas por uma intoxica\u00e7\u00e3o gradativa e silenciosa.<\/p>\n<p><strong>Conflitos fundi\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>No povoado de Ponte de Mateus (antiga fazenda Santa Luzia do Guar\u00e1), situado a cerca de 100 km da sede de S\u00e3o Desid\u00e9rio, os impactos ambientais e fundi\u00e1rios caminham juntos. Rafael Francelino de Souza, 69, estima que o rio que d\u00e1 nome \u00e0 comunidade, que passa aos fundos do seu terreno, j\u00e1 baixou cerca de 70%. &#8220;<em><strong>N\u00e3o vejo mais bichos. Mataram tudo, ou correram daqui<\/strong><\/em>&#8220;, conta ele, hoje o representante mais antigo da comunidade, que h\u00e1 d\u00e9cadas chegou \u00e0 regi\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"\/uploads\/image\/img 1 foto 3.jpg\" alt=\"\" align=\"middle\" \/><\/p>\n<div><em><strong>Francelino e Maria, de Ponte de Mateus: resist\u00eancia \u00e0s tentativas de grilagem (Foto A B)<\/strong><\/em><\/div>\n<p>Os moradores de Ponte de Mateus s\u00e3o amea\u00e7ados por outros propriet\u00e1rios locais, que buscam tomar terras da comunidade e som\u00e1-las a seus empreendimentos. &#8220;<em><strong>O pessoal que quer grilar nossas terras destruiu uma das veredas daqui para fazer uma das suas ruas. \u00c9 triste demais, deixa a gente indignado<\/strong><\/em>&#8220;. Souza recorda-se que, por volta de 1970, 1975, a regi\u00e3o assistiu a uma verdadeira \u00b4<strong>febre da terra<\/strong>`: &#8220;<em><strong>Ningu\u00e9m queria os Gerais. Queriam os Gerais para qu\u00ea?<\/strong><\/em>&#8220;, questiona ele, dizendo garantir que &#8220;<em><strong>n\u00e3o tem terra de Barreiras para c\u00e1 que n\u00e3o foi vendida duas ou tr\u00eas vezes pelo menos<\/strong><\/em>&#8220;, tendo sido objeto de registros irregulares nos cart\u00f3rios e transa\u00e7\u00f5es ilegais entre particulares. &#8220;<em><strong>Antes, era Deus do C\u00e9u que mandava aqui. Agora, \u00e9 o Deus do Dinheiro<\/strong><\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>No outro extremo da realidade fundi\u00e1ria local, grandes fazendas, como a Estrondo, a Agr\u00edcola Xingu e a S\u00e3o Jos\u00e9 possuem \u00e1reas que chegam aos 100 mil, 200 mil, 300 mil, ou at\u00e9 400 mil hectares &#8211; e cujos dados de registro muitas vezes s\u00e3o conflitantes entre um e outro \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Wilson Pianissola dos Santos, integrante da coordena\u00e7\u00e3o estadual do MST (Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) na Bahia, afirma que um dos grandes empecilhos ao avan\u00e7o da reforma agr\u00e1ria no Oeste baiano \u00e9 a grande dificuldade existente para demarcar os lotes dos assentamentos. &#8220;<em><strong>\u00c9 uma regi\u00e3o que ainda possui muita grilagem de terras, com grupos que trabalham s\u00f3 com isso, a servi\u00e7o dos estabelecimentos do agroneg\u00f3cio<\/strong><\/em>&#8220;, afirma Santos.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria AIBA reconhece ainda existirem &#8220;<em><strong>alguns casos, infelizmente comuns em todas as regi\u00f5es de fronteira agr\u00edcola&#8221;<\/strong><\/em>. Na avalia\u00e7\u00e3o da entidade, &#8220;<strong><em>a valoriza\u00e7\u00e3o e a ocupa\u00e7\u00e3o r\u00e1pida dos im\u00f3veis rurais fomentam estas situa\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong>&#8220;. Contudo, afirma a AIBA, &#8220;<em><strong>a fase da grilagem j\u00e1 foi superada<\/strong><\/em>&#8221; e &#8220;o judici\u00e1rio est\u00e1 cuidando dos conflitos ainda existentes&#8221;.<\/p>\n<p>Santos, do MST, relata, por sua vez, que os grupos envolvidos com a grilagem de terras lan\u00e7am m\u00e3o de amea\u00e7as e freq\u00fcentam os assentamentos, dizendo ser melhor sair, para evitar maiores problemas depois. &#8220;<strong><em>N\u00e3o conhecemos sequer os mandantes, os interessados, s\u00f3 os advogados, umas quatro ou cinco pessoas que agem por aqueles<\/em><\/strong>&#8220;. Santos acrescenta que muitas terras locais ou n\u00e3o possuem documenta\u00e7\u00e3o, ou possuem v\u00e1rios supostos &#8220;<strong>donos<\/strong>&#8220;, o que dificulta ainda mais as titula\u00e7\u00f5es para os assentados.<\/p>\n<p>O assentamento Vit\u00f3ria, em S\u00e3o Desid\u00e9rio, por exemplo, j\u00e1 est\u00e1 consolidado, com 29 fam\u00edlias, tendo sido objeto de compra direta voltada \u00e0 reforma agr\u00e1ria, por parte do governo federal. Contudo, surgiram novos supostos propriet\u00e1rios, alegando que a terra pertence a eles, e exigindo novo pagamento ou a devolu\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Com produ\u00e7\u00e3o de mandioca, ab\u00f3bora e melancia, os assentamentos na regi\u00e3o ainda est\u00e3o em sua maioria se estruturando &#8211; tendo para isso de enfrentar as dificuldades no setor da infra-estrutura (h\u00e1 assentamentos sem energia el\u00e9trica inclusive) e no est\u00edmulo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o por parte dos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. &#8220;<strong><em>Alguns assentamentos conseguem produzir para venda, mas h\u00e1 uma grande dificuldade no transporte dessas mercadorias, devido \u00e0 precariedade nas estradas e \u00e0 falta de ve\u00edculos<\/em><\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p>O assentamento Beira Rio II, em Cotegipe, por exemplo, fica a cerca de 100 km de Barreiras, sendo 70 km de estrada muito ruim. J\u00e1 o Ilha da Liberdade, a aproximadamente 30 km do centro de Barreiras, permite o escoamento da produ\u00e7\u00e3o at\u00e9 de carro\u00e7a, com destaque para o feij\u00e3o de corda, a mandioca, o milho e a batata. &#8220;<strong><em>A venda se d\u00e1 sobretudo na feira de Barreiras, mas \u00e0s vezes vendemos em quantidades maiores para Salvador e outros munic\u00edpios<\/em><\/strong>&#8220;.<\/p>\n<p>De acordo com Santos, o movimento agora obteve um acordo com a secretaria Estadual de Desenvolvimento da Bahia e o Incra, que deve gerar melhorias para cerca de 150 km de rodovias, o que deve beneficiar todos os assentamentos.<\/p>\n<p>Santos conta que os &#8220;<em><strong>assentados de hoje s\u00e3o em boa parte filhos de pessoas que tiveram suas terras tomadas pelo agroneg\u00f3cio. Ent\u00e3o, vieram morar na cidade<\/strong><\/em>&#8220;. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, &#8220;<em><strong>de certa forma, ao conquistar o assentamento, \u00e9 como se fosse uma retomada da terra para eles<\/strong><\/em>&#8220;.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"\/uploads\/image\/img 1 foto 4.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"378\" align=\"middle\" \/><\/p>\n<div><em><strong>Fazendas em profus\u00e3o: algumas propriedades ultrapassam os 300 mil hectares (Foto AB)<\/strong><\/em><\/div>\n<p>O coordenador do MST registra que, caso o movimento queira fazer um assentamento em Mansid\u00e3o ou Santa Rita, munic\u00edpios da regi\u00e3o menos desenvolvidos, &#8220;<strong>voc\u00ea consegue sem problemas<\/strong>&#8220;. Contudo, caso haja reivindica\u00e7\u00f5es por assentamentos em Barreiras, Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es e S\u00e3o Desid\u00e9rio, principais p\u00f3los da regi\u00e3o, &#8220;<strong>o agroneg\u00f3cio n\u00e3o quer permitir<\/strong>&#8220;. Para os pequenos agricultores, \u00e9 de grande import\u00e2ncia estar pr\u00f3ximos a esses centros, seja para comprar os insumos, vender a produ\u00e7\u00e3o ou ter acesso aos bens p\u00fablicos. Santos prev\u00ea que os grandes produtores &#8220;<em><strong>ir\u00e3o usar de todos os mecanismos para evitar os assentamentos. E teremos portanto um enfrentamento direto<\/strong><\/em>&#8220;, seja em torno do projeto para a regi\u00e3o, seja relativo \u00e0s terras locais.<\/p>\n<p>Neste momento em que os estrangeiros ampliam seus interesses pelas terras na regi\u00e3o, a destina\u00e7\u00e3o de \u00e1reas \u00e0 reforma agr\u00e1ria e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do parque nacional apresentam-se como elementos importantes na defini\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas fundi\u00e1rias a serem adotadas nos pr\u00f3ximos anos pelos governos estadual, federal e municipais no Oeste da Bahia.<\/p>\n<p><em>Por <strong>Antonio Biond<\/strong>i, do Centro de Monitoramento de Agrocombustiveis<br \/>\nhttp:\/\/www.reporterbrasil.com.br\/<br \/>\n<!--  \/* Font Definitions *\/  @font-face \t{font-family:\"Cambria Math\"; \tpanose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4; \tmso-font-charset:1; \tmso-generic-font-family:roman; \tmso-font-format:other; \tmso-font-pitch:variable; \tmso-font-signature:0 0 0 0 0 0;} @font-face \t{font-family:Calibri; \tpanose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4; \tmso-font-charset:0; \tmso-generic-font-family:swiss; \tmso-font-pitch:variable; \tmso-font-signature:-1610611985 1073750139 0 0 159 0;}  \/* Style Definitions *\/  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal \t{mso-style-unhide:no; \tmso-style-qformat:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmargin-top:0cm; \tmargin-right:0cm; \tmargin-bottom:10.0pt; \tmargin-left:0cm; \tline-height:115%; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:11.0pt; \tfont-family:\"Calibri\",\"sans-serif\"; \tmso-ascii-font-family:Calibri; \tmso-ascii-theme-font:minor-latin; \tmso-fareast-font-family:Calibri; \tmso-fareast-theme-font:minor-latin; \tmso-hansi-font-family:Calibri; \tmso-hansi-theme-font:minor-latin; \tmso-bidi-font-family:\"Times New Roman\"; \tmso-bidi-theme-font:minor-bidi; \tmso-fareast-language:EN-US;} .MsoChpDefault \t{mso-style-type:export-only; \tmso-default-props:yes; \tmso-ascii-font-family:Calibri; \tmso-ascii-theme-font:minor-latin; \tmso-fareast-font-family:Calibri; \tmso-fareast-theme-font:minor-latin; \tmso-hansi-font-family:Calibri; \tmso-hansi-theme-font:minor-latin; \tmso-bidi-font-family:\"Times New Roman\"; \tmso-bidi-theme-font:minor-bidi; \tmso-fareast-language:EN-US;} .MsoPapDefault \t{mso-style-type:export-only; \tmargin-bottom:10.0pt; \tline-height:115%;} @page WordSection1 \t{size:612.0pt 792.0pt; \tmargin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; \tmso-header-margin:36.0pt; \tmso-footer-margin:36.0pt; \tmso-paper-source:0;} div.WordSection1 \t{page:WordSection1;} --><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oeste da Bahia \u00e9 palco de movimenta\u00e7\u00f5es pela cria\u00e7\u00e3o de parque nacional no Cerrado da regi\u00e3o. Agricultores familiares e comunidades tradicionais sofrem o impacto da chegada de grupos do agroneg\u00f3cio &#8211; inclusive estrangeiros Jornais e revistas da m\u00eddia que acompanham o cotidiano do agroneg\u00f3cio registram que os estrangeiros &#8211; assim como os grandes grupos nacionais &#8211; demonstram interesse crescente pelas terras e pela produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no Oeste da Bahia. 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