{"id":1280,"date":"2010-02-26T10:57:06","date_gmt":"2010-02-26T13:57:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=1280"},"modified":"2010-02-26T10:57:06","modified_gmt":"2010-02-26T13:57:06","slug":"para-onu-sistema-tributario-do-brasil-dificulta-avancos-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/02\/26\/para-onu-sistema-tributario-do-brasil-dificulta-avancos-sociais\/","title":{"rendered":"Para ONU, sistema tribut\u00e1rio do Brasil dificulta avan\u00e7os sociais"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Estad\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>GENEBRA\u00a0&#8211;\u00a0A ONU alerta que parte importante dos programas sociais no Brasil destinados \u00e0 classe mais pobre \u00e9 financiada exatamente por essa parcela da popula\u00e7\u00e3o por meio de um sistema tribut\u00e1rio &#8220;desigual&#8221;. Se o governo conseguiu obter avan\u00e7os no combate \u00e0 fome nos \u00faltimos anos, a erradica\u00e7\u00e3o do problema s\u00f3 ser\u00e1 atingida por meio de amplas reformas estruturais de distribui\u00e7\u00e3o de renda e de terras no Pa\u00eds. O alerta faz parte de um Raio X completo da situa\u00e7\u00e3o da fome no Brasil feito pela ONU.\u00a0Em 30 p\u00e1ginas detalhando a situa\u00e7\u00e3o no Brasil, a entidade insinua que, por enquanto, os programas v\u00eam lidando com os sintomas da pobreza, e n\u00e3o com suas causas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" title=\"tributo\" src=\"http:\/\/jangadeiroonline.com.br\/uploads\/2010\/02\/1265150088impostodvida.jpg\" alt=\"\" width=\"122\" height=\"116\" \/>Segundo o levantamento, o pr\u00f3ximo presidente brasileiro ter\u00e1 de criar uma nova estrat\u00e9gia de combate \u00e0 fome, acelerar a reforma agr\u00e1ria e a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, promover uma reforma tribut\u00e1ria, ampliar programas de ajuda alimentar, garantir que projetos do PAC tenham impacto social e at\u00e9 usar parte dos lucros do Pr\u00e9-Sal para eliminar a fome no Pa\u00eds. O levantamento foi realizado pelo relator especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas contra a Fome, Olivier De Schutter e ser\u00e1 debatido na plen\u00e1ria da ONU em mar\u00e7o.<!--more--><\/p>\n<p>\u00a0A ONU admite os avan\u00e7os &#8220;impressionantes&#8221; obtidos pelo Brasil desde 2002 em combater a pobreza e a fome. Mas indicou, a partir dos resultados de uma miss\u00e3o em outubro ao Pa\u00eds, que os &#8220;desafios ainda s\u00e3o grandes&#8221;.<\/p>\n<p>\u00a0Entre as propostas apresentadas ao Brasil, a ONU sugere a cria\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia nacional com metas claras e um calend\u00e1rio. Al\u00e9m disso, pede um &#8220;monitoramento adequado&#8221; por parte das autoridades e maior capacita\u00e7\u00e3o de autoridades locais para implementar os programas.<\/p>\n<p>\u00a0Usando dados do governo, a ONU destaca avan\u00e7os em \u00edndices sociais no Brasil, mas a situa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds seria ainda pior do que em outros pa\u00edses sul-americanos. Outra constata\u00e7\u00e3o \u00e9 que ind\u00edgenas e negros s\u00e3o desproporcionalmente afetados. As disparidades regionais tamb\u00e9m s\u00e3o importantes. 37,5% das resid\u00eancias no Pa\u00eds sofrem com inseguran\u00e7a alimentar. Essa taxa seria de 25% no Sul e 55% no Nordeste. A media nacional aponta que a desnutri\u00e7\u00e3o infantil atinge 1,9% das crian\u00e7as, mas chega a 3,5% no Nordeste e mais de 8% em tr\u00eas Estados. 21% dos brasileiros ainda sofrem de anemia.<\/p>\n<p>\u00a0Para lidar com essa realidade que persiste, a ONU sugere uma reforma do Fome Zero. A entidade admite que a m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o infantil foi reduzida em 73% entre 2002 e 2008 e a morte de crian\u00e7as, em 45%. Mas o problema mais grave \u00e9 a forma pela qual o programa \u00e9 financiado.&#8221;Os programas implementados apenas ser\u00e3o efetivos se os recursos forem suficientes&#8221;, alerta. A ONU, portanto, sugere que parte do Fundo Social criado a partir dos lucros do Pr\u00e9-Sal sejam utilizados para combater a fome.<\/p>\n<p>\u00a0Segundo a ONU, por\u00e9m, uma reforma tribut\u00e1ria ter\u00e1 de ocorrer para garantir um sistema mais justo. O relator indica que enquanto a camada mais pobre da popula\u00e7\u00e3o paga o equivalente de 46% de sua renda em impostos indiretos, a camada mais rica destina apenas 16%. Outra constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de que os impostos coletados no campo representam apenas 0,01% do PIB, apesar da concentra\u00e7\u00e3o de terras. &#8220;O relator conclui que, enquanto programas sociais desenvolvidos sob o Fome Zero t\u00eam uma abrang\u00eancia impressionante, eles s\u00e3o fundamentalmente financiados pelas mesmas pessoas que pedem o benef\u00edcio&#8221;, afirma o documento. &#8220;O sistema tribut\u00e1rio regressivo limita seriamente o impacto redistributivo desses programas&#8221;, alerta.<\/p>\n<p>\u00a0Al\u00e9m disso, o porcentual do or\u00e7amento destinado a lidar com a fome tem se mantido est\u00e1vel, ainda que nominalmente o valor tenha aumentado. Em m\u00e9dia, os programas consomem apenas 4% das pol\u00edticas sociais e 1% do or\u00e7amento nacional. J\u00e1 o pagamento dos juros da d\u00edvida, emiss\u00f5es no mercados e outras quest\u00f5es financeiras chegam a 48%.<\/p>\n<p>\u00a0<strong>Reforma Agr\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>\u00a0Outro desafio no Brasil \u00e9 &#8220;desigualdade generalizada de acesso \u00e0 terra&#8221;. Para a ONU, o Pa\u00eds parece incapaz de lidar com essa quest\u00e3o de forma efetiva. 2,4 milh\u00f5es de propriedades ocupam 2,5% do territ\u00f3rio agr\u00edcola nacional. J\u00e1 47 mil fazendas ocupam 43%.<\/p>\n<p>\u00a0O relator cita o IBGE para indicar que a concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 maior hoje do que em 1995 e aponta que a cana para o etanol em S\u00e3o Paulo seria parte desse fen\u00f4meno. O Estado teria visto um aumento na concentra\u00e7\u00e3o de 6,1% em dez anos. &#8220;H\u00e1 uma enorme demanda por terra n\u00e3o atendida no Sudeste&#8221;, alerta. Segundo a ONU, os crit\u00e9rios de desapropria\u00e7\u00e3o est\u00e3o ultrapassados. &#8220;Pede-se ao governo que reveja os obst\u00e1culos para acelerar a redistribui\u00e7\u00e3o de terras&#8221;, indica o documento da ONU.<\/p>\n<p>\u00a0O relat\u00f3rio elogia o fato de que 1,5 milh\u00e3o de fam\u00edlias foram retiradas da condi\u00e7\u00e3o de extrema pobreza no campo e 4 milh\u00f5es da pobreza. Mas pede maiores recursos para pequenos agricultores.<\/p>\n<p>A ONU insiste que o debate &#8220;acalorado&#8221; no Brasil entre o modelo agr\u00edcola exportador e a agricultura familiar n\u00e3o pode apenas se basear na produtividade de cada terra. Aspectos sociais tamb\u00e9m precisam ser levados em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0O relator sugere que, ao lutar por mais mercados no exterior, o Brasil n\u00e3o abandone a agricultura familiar. A ideia \u00e9 que, junto com uma liberaliza\u00e7\u00e3o comercial, esses pequenos propriet\u00e1rios teriam de receber mais, e n\u00e3o menos recursos. Uma das propostas \u00e9 que esses pequenos produtores possam formar cooperativas, com a ajuda do governo, para tamb\u00e9m participar do com\u00e9rcio internacional.<\/p>\n<p>O levantamento ainda alerta para novos riscos para a seguran\u00e7a alimentar, entre eles os projetos de infraestrutura que fazem parte do PAC. Esses projetos teriam &#8220;impactos desproporcionais sobre as popula\u00e7\u00f5es mais pobres, agravando a j\u00e1 prec\u00e1ria condi\u00e7\u00e3o de vida&#8221;. Um dos exemplos citados \u00e9 a transposi\u00e7\u00e3o do Rio S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p>\u00a0<strong>\u00cdndios<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>\u00a0Outro problema \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o da fome entre ind\u00edgenas. O documento aponta para a paralisa\u00e7\u00e3o das demarca\u00e7\u00f5es de terras. Para o relator, essa \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o fundamental para garantir o acesso dos ind\u00edgenas a suas terras e, assim, evitar a extrema pobreza. A ONU, em sua avalia\u00e7\u00e3o, apela para que o governo acelere a demarca\u00e7\u00e3o de terras e ainda garanta que os \u00edndios e comunidades quilombolas sejam atendidos por programas sociais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estad\u00e3o GENEBRA\u00a0&#8211;\u00a0A ONU alerta que parte importante dos programas sociais no Brasil destinados \u00e0 classe mais pobre \u00e9 financiada exatamente por essa parcela da popula\u00e7\u00e3o por meio de um sistema tribut\u00e1rio &#8220;desigual&#8221;. Se o governo conseguiu obter avan\u00e7os no combate \u00e0 fome nos \u00faltimos anos, a erradica\u00e7\u00e3o do problema s\u00f3 ser\u00e1 atingida por meio de amplas reformas estruturais de distribui\u00e7\u00e3o de renda e de terras no Pa\u00eds. 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