{"id":12372,"date":"2010-06-05T09:31:11","date_gmt":"2010-06-05T12:31:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/?p=12372"},"modified":"2010-06-05T09:31:11","modified_gmt":"2010-06-05T12:31:11","slug":"futebol-unidos-pelo-dna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/2010\/06\/05\/futebol-unidos-pelo-dna\/","title":{"rendered":"Futebol: Unidos pelo DNA"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>da Revista Veja <\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/capa380.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/capa380.jpg\" alt=\"\" width=\"120\" \/><\/a>Os estudos gen\u00e9ticos iluminam a rota migrat\u00f3ria da humanidade. Os ancestrais de Luis Fabiano e de Charles Miller, introdutor do futebol no Brasil, sa\u00edram juntos da \u00c1frica, agora palco da grande festa do esporte<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0Charles William Miller, filho de um escoc\u00eas que chegou ao Brasil para ajudar a administrar a estrada de ferro Santos-Jundia\u00ed e de uma brasileira de fam\u00edlia inglesa, retornou de uma viagem de estudos a Southampton, na Inglaterra, no fim de 1894, com pe\u00e7as curiosas na mala. Segundo relato do escritor e historiador John Mills, Miller trouxe na bagagem um livro de regras do Association Football, duas bolas de capot\u00e3o, um par de chuteiras e uma bomba de ar. Em 14 de abril de 1895, no campo da V\u00e1rzea do Carmo, em S\u00e3o Paulo, ele organizaria a primeira partida de futebol oficial do Brasil, entre as equipes The GasWorks Team e The S\u00e3o Paulo Railway Team.<\/p>\n<p>\u00a0<a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial1.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial1.jpg\" alt=\"\" width=\"460\" \/><\/a><\/p>\n<p>LUIS FABIANO: O craque da sele\u00e7\u00e3o brasileira: ele vai brilhar no continente onde nasceu o Homo sapiens, ancestral de toda a humanidade<\/p>\n<div>\n<p>Luis Fabiano Clemente tinha 13 anos de idade quando foi levado para treinar em seu primeiro clube, o Guarani de Campinas. Ele era um dos grandes destaques de um campinho lindamente apelidado de Buracan\u00e3. Criado pela m\u00e3e e pelo av\u00f4 materno, Benedito, o Dit\u00e3o, dava trabalho na escola e logo se empregou em uma oficina mec\u00e2nica. O adolescente inquieto que se tornaria cen-troa-vante da sele\u00e7\u00e3o de Dunga na \u00c1frica do Sul se alegrava mesmo era no Buracan\u00e3 praticando o jogo que Charles Miller, falecido em 1953, apresentara ao Brasil 100 anos antes e que foi aqui adotado n\u00e3o apenas como esporte, mas como religi\u00e3o nacional. <strong>Clique no gr\u00e1fico abaixo para ampliar:<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p><!--more-->\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial2.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial2.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" \/><\/a><\/p>\n<p>Milh\u00f5es de brasileiros de seis gera\u00e7\u00f5es devem ao filho de escoc\u00eas as emo\u00e7\u00f5es insubstitu\u00edveis proporcionadas pelo futebol. Centenas de craques sa\u00edram dos Buracan\u00e3s para a gl\u00f3ria, a riqueza e a fama mundial. Para celebrar o encontro, na verdade, o reencontro de Luis Fabiano com Charles Miller e a \u00c1frica, de onde sa\u00edram os antepassados comuns deles \u2013 e de toda a humanidade \u2013, VEJA decidiu valer-se dos mais modernos m\u00e9todos da gen\u00e9tica para tra\u00e7ar as rotas migrat\u00f3rias das correntes humanas que produziram o artilheiro e o pioneiro do futebol.<\/p>\n<p>VEJA pediu a dois descendentes do pioneiro \u2013 Charles Rudge Miller, seu neto, e Angela Susan Fox Rule, sobrinha-bisneta \u2013 e a Luis Fabiano que colhessem material gen\u00e9tico e permitissem que ele fosse estudado em laborat\u00f3rio. Todos concordaram, e as c\u00e9lulas (raspadas da parte interna da bochecha) foram submetidas ao teste conhecido como DNA de ancestralidade pelo laborat\u00f3rio Gene, de Belo Horizonte, um dos mais reputados do mundo. Os avan\u00e7os desses testes de DNA \u2013 os kits podem ser encomendados pela internet \u2013 fizeram da antropologia gen\u00e9tica um dos m\u00e9todos mais precisos e r\u00e1pidos de investiga\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o e das rotas migrat\u00f3rias da humanidade a partir de seu ber\u00e7o africano.<\/p>\n<p>A Copa do Mundo da \u00c1frica do Sul, a primeira no continente negro, est\u00e1 eivada de simbolismos \u2013 a come\u00e7ar pelo fasc\u00ednio de ser realizada em um pa\u00eds que, at\u00e9 vinte anos atr\u00e1s, abrigava uma das mais violentas atrocidades do s\u00e9culo XX, o regime racista do apartheid, derrotado pela lideran\u00e7a de um personagem m\u00edtico, Nelson Mandela. \u00c9 fascinante tamb\u00e9m imaginar que jogadores e torcedores das 32 sele\u00e7\u00f5es estejam com a aten\u00e7\u00e3o voltada para o continente onde o\u00a0<em>Homo sapiens<\/em> surgiu. Ao esmiu\u00e7ar a jornada gen\u00e9tica de Charles Miller e Luis Fabiano \u2013 um branco, genuinamente europeu, outro mulato, descendente de escravos africanos \u2013, esta reportagem demonstra a estupidez da \u201cci\u00eancia das ra\u00e7as\u201d que, no s\u00e9culo XX, embasou o mal absoluto do Holocausto com seus 5 milh\u00f5es de v\u00edtimas \u201cbiologicamente inferiores\u201d e deu sustenta\u00e7\u00e3o ao apartheid sul-africano. Hoje, a melhor ci\u00eancia informa que as ra\u00e7as s\u00e3o varia\u00e7\u00f5es cosm\u00e9ticas do n\u00facleo gen\u00e9tico humano, incapazes sozinhas de determinar a superioridade de um indiv\u00edduo ou grupo sobre outros. Diz S\u00e9rgio Pena, m\u00e9dico fundador do laborat\u00f3rio Gene: \u201cN\u00e3o somos todos iguais, somos igualmente diferentes\u201d.<\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial3.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial3.jpg\" alt=\"\" width=\"460\" \/><\/a> A \u00daLTIMA PARADA: A hoje urbanizada Eritreia foi a porta de sa\u00edda mais prov\u00e1vel da \u00c1frica para os ancestrais comuns de Luis Fabiano e Charles Miller\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<p>Para desenhar o mapa que ilustra esta reportagem, foram usados os resultados dos exames de ancestralidade paterna dos personagens. VEJA encomendou tamb\u00e9m exames que permitem tra\u00e7ar a rota das linhagens maternas de Luis Fabiano e Charles Miller. A linhagem materna \u00e9 obtida pelo estudo das muta\u00e7\u00f5es no DNA mitocondrial que cada pessoa herda apenas da m\u00e3e. Ela \u00e9 menos precisa que as marcas deixadas pelo caminho evolutivo no cromossomo Y, definidor do sexo masculino. A ancestralidade materna mostra que Luis Fabiano teve uma tatarav\u00f3 da etnia banto, que \u00e9 predominante na maior parte do continente africano. A linha materna de Charles Miller remonta ao que parece ser a origem comum de quase 100% do DNA mitocondrial, uma Eva mitocondrial africana que viveu entre 11 000 e 15 000 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Em 1972, o bi\u00f3logo americano Richard Lewontin demonstrou experimentalmente que 85,4% da diversidade dos genes humanos ocorriam entre indiv\u00edduos de uma mesma popula\u00e7\u00e3o. Ou seja, quando se examina o n\u00facleo gen\u00e9tico, um sueco pode ser mais diferente de outro sueco do que de um indiv\u00edduo negro de origem africana. S\u00e9rgio Pena faz um curioso racioc\u00ednio: \u201cImagine que um cataclismo nuclear destru\u00edsse toda a popula\u00e7\u00e3o da Terra, deixando ilesa apenas a popula\u00e7\u00e3o africana. O que nos sobraria em termos de riqueza gen\u00e9tica? Quase tudo, porque as popula\u00e7\u00f5es africanas, vistas muitas vezes como homog\u00eaneas, s\u00e3o bastante diversificadas. No exemplo catastr\u00f3fico que estamos utilizando aqui, 93% da diversidade total da humanidade seria preservada. Se apenas a popula\u00e7\u00e3o zulu da \u00c1frica do Sul sobrevivesse, mesmo assim 85% da variabilidade da ra\u00e7a humana estaria presente nos genes dos indiv\u00edduos\u201d.<\/p>\n<p>O italiano Luigi Cavalli-Sforza, geneticista que primeiro organizou uma \u00e1rvore geneal\u00f3gica da esp\u00e9cie humana e a relacionou com a evolu\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas, acredita que sempre fomos induzidos pela apar\u00eancia a considerar que \u201cas ra\u00e7as s\u00e3o puras (isto \u00e9, homog\u00eaneas) e muito diferentes entre si\u201d. Escreve ele em\u00a0<em>Genes, Povos e L\u00ednguas:<\/em> \u201c\u00c9 dif\u00edcil encontrar outro motivo para explicar o entusiasmo dos fil\u00f3sofos e cientistas pol\u00edticos do s\u00e9culo XIX, como Gobineau e seus seguidores, pela preserva\u00e7\u00e3o da pureza racial. Como s\u00f3 podiam estudar os tra\u00e7os vis\u00edveis na \u00e9poca, n\u00e3o era absurdo imaginar que ra\u00e7as puras existissem. Hoje, por\u00e9m, sabemos que as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim e que seria praticamente imposs\u00edvel criar uma ra\u00e7a pura. Para obter com efeito uma \u2018pureza\u2019 parcial (ou seja, uma homogeneidade gen\u00e9tica que nunca ocorre espontaneamente em popula\u00e7\u00f5es de animais superiores), precisar\u00edamos de, no m\u00ednimo, vinte gera\u00e7\u00f5es de endogamia\u201d.<\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial6.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial6.jpg\" alt=\"\" width=\"460\" \/><\/a> ARTE NA CAVERNA: Como mostraram Darwin e seus seguidores, o clima frio da Europa chancelou as muta\u00e7\u00f5es de pele clara nas popula\u00e7\u00f5es que pintaram essas cavernas\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<p>Charles Miller e Luis Fabiano s\u00e3o diferentes na apar\u00eancia, mas n\u00e3o no seu cora\u00e7\u00e3o gen\u00e9tico. O estudo comparativo do DNA de ambos mostra que os ancestrais deles come\u00e7aram juntos a grande aventura migrat\u00f3ria da humanidade h\u00e1 cerca de 50 000 anos. Quase 5 000 anos depois, j\u00e1 fora da \u00c1frica, o \u00faltimo ancestral comum de ambos deu origem a descendentes que escolheram rumos diferentes na vida. Eles come\u00e7aram a carreira-solo com absolutamente a mesma bagagem gen\u00e9tica. Como \u00e9 sabido, o DNA \u00e9 uma mol\u00e9cula capaz de se duplicar \u2013 ou seja, fazer uma c\u00f3pia de si mesma. Como toda rea\u00e7\u00e3o bioqu\u00edmica, a duplica\u00e7\u00e3o do DNA n\u00e3o produz c\u00f3pias absolutamente perfeitas. O processo sofre influ\u00ean-cias externas de origem qu\u00edmica, da radia\u00e7\u00e3o solar e de outras fontes radioativas. Essas pequenas imperfei\u00e7\u00f5es tendem a ocorrer seguindo determinado padr\u00e3o. Elas v\u00e3o se acumulando com o tempo e tornam-se varia\u00e7\u00f5es passadas como heran\u00e7a gen\u00e9tica para os descendentes, criando uma linhagem. O isolamento entre as popula\u00e7\u00f5es que escolheram rotas migrat\u00f3rias diferentes impede que as varia\u00e7\u00f5es acumuladas por um grupo sejam compartilhadas com o outro \u2013 o que, a longo prazo, eliminaria as maiores diferen\u00e7as pela miscigena\u00e7\u00e3o e as duas linhagens se fundiriam em uma s\u00f3.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre grupos isolados geograficamente tendem a se acentuar tamb\u00e9m pelas raz\u00f5es expostas por Charles Darwin e seus sucessores no estudo da Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o. As varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas ocorrem ao acaso e, com o tempo, algumas se tornam predominantes em uma popula\u00e7\u00e3o porque elas se mostraram vantajosas para aquela esp\u00e9cie naquele determinado ambiente. Tome-se o exemplo das peles claras e escuras. O\u00a0<em>Homo sapiens<\/em> tinha uma popula\u00e7\u00e3o inteiramente formada por indiv\u00edduos de pele escura quando saiu da \u00c1frica. As varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que tendem a produzir pele clara certamente ocorreram indistintamente em todos os contingentes humanos. Mas elas s\u00f3 se firmaram como muta\u00e7\u00f5es vantajosas para os grupos humanos que foram povoar as latitudes mais baixas do globo terrestre, onde o efeito protetor da melanina, o pigmento que d\u00e1 cor escura \u00e0 pele, \u00e9 desnecess\u00e1rio \u2013 e at\u00e9 prejudicial por filtrar a fraca insola\u00e7\u00e3o das regi\u00f5es frias, impedindo a absor\u00e7\u00e3o da vitamina D garantida pelos raios ultravioleta da luz solar.<\/p>\n<p>\u201cOs resultados dos exames de ancestralidade de Charles Miller e Luis Fabiano s\u00e3o bonitos porque confirmam, cientificamente, o que imagin\u00e1vamos encontrar\u201d, diz S\u00e9rgio Pena. \u00c9 uma beleza, do ponto de vista da antropologia gen\u00e9tica, e demonstra a utilidade de entend\u00ea-la e esperar que, um dia, ela ajude a desvendar o enigma cl\u00e1ssico da condi\u00e7\u00e3o humana que \u00e9 a eterna desconfian\u00e7a do outro, do diferente, do estrangeiro com sua apar\u00eancia, cultura e religi\u00e3o estranhas. O DNA nada sabe desse sentimento. No seu cora\u00e7\u00e3o gen\u00e9tico, a esp\u00e9cie humana \u00e9 t\u00e3o mais forte e sadia quanto mais varia\u00e7\u00f5es apresenta. Se para a humanidade o inferno sempre foram os outros, para o DNA o inferno \u00e9 o fim das diferen\u00e7as.<\/p>\n<h3>O drible veio de fora<\/h3>\n<div><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial4.jpg\" alt=\"\" width=\"248\" height=\"284\" \/><\/a> GARRINCHA: A Alegria do Povo foi o maior driblador do futebol. Agrade\u00e7amos ao escoc\u00eas McLean\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<p>Driblar, para n\u00e3o fugir da linha gen\u00e9tica, est\u00e1 no DNA do brasileiro. Mas quem introduziu o recurso no Brasil foi um escoc\u00eas quase desconhecido por aqui, embora celebrado por l\u00e1. Archie McLean, funcion\u00e1rio de uma tecelagem escocesa enviado ao Brasil em 1912 para trabalhar, ganhou fama entre os praticantes do nascente esporte bret\u00e3o pela velocidade com que passava os p\u00e9s por cima da bola e pela agilidade com que trocava passes com o companheiro ao lado, nos prim\u00f3rdios da tabelinha. Conhecido como A Pequena Gazela, pelo porte dentro de campo, \u00e9 personagem injustamente secund\u00e1rio. McLean aparece numa fotografia da sele\u00e7\u00e3o paulista de 1914 ao lado de Arthur Friedenreich \u2013 n\u00e3o se tem not\u00edcia de que tenha sido identificado, e a rara imagem sempre foi usada para mostrar o brasileiro de origem alem\u00e3. \u201cMcLean surpreendia com seu estilo de jogo, habilidoso, o avesso do que vigorava na Inglaterra e na Esc\u00f3cia\u201d, diz John Mills, autor da biografia de Charles Miller. Ali, com chuva em profus\u00e3o, as equipes eram for\u00e7adas a mandar a bola para o alto, na g\u00eanese do chuveirinho, que marca o futebol ingl\u00eas desde sempre (embora tenha melhorado muito com a chegada de jogadores e treinadores estrangeiros). A bola al\u00e7ada foi recurso inovador porque era imposs\u00edvel faz\u00ea-la correr na grama, encharcada. No futebol, tal como na evolu\u00e7\u00e3o de nossa esp\u00e9cie, o ambiente faz a diferen\u00e7a e molda a vida. \u00c9 o darwinismo aplicado ao esporte mais popular do mundo.<\/p>\n<h3>Em outros palcos<\/h3>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil identificar o DNA que nos remete \u00e0 origem da humanidade que o DNA dos prim\u00f3rdios do futebol. H\u00e1 muita controv\u00e9rsia, embora os historiadores recentemente tenham chegado a algum acordo. H\u00e1 relatos de uma modalidade semelhante por volta de 3 000 anos antes de Cristo, entre os militares chineses. Depois das guerras, como modo de celebra\u00e7\u00e3o, eles formavam equipes para chutar cabe\u00e7as decepadas de soldados inimigos. Com o tempo, as cabe\u00e7as foram sendo substitu\u00eddas por bolas de couro revestidas de cabelos. No Jap\u00e3o, um pouco mais tarde, nasceu o kemari, com oito jogadores para cada lado e, pela primeira vez, redes feitas de fibras de bambu. Depois, j\u00e1 no s\u00e9culo I antes de Cristo, foi a vez dos gregos de Esparta, que usavam a redonda feita de bexiga de boi cheia de areia ou terra.<\/p>\n<div><a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/090610\/imagens\/especial5.jpg\" alt=\"\" width=\"202\" height=\"245\" \/><\/a> SHAKESPEARE: Em A Com\u00e9dia dos Erros, o maior de todos os dramaturgos colocou o futebol em campo na fala do escravo Dr\u00f4mio: &#8220;Serei, acaso, redondo assim, para me dardes pancada sem parar, como se eu fosse uma bola de futebol?&#8221;\u00a0<\/p>\n<\/div>\n<p>Esp\u00edrito de seu tempo, as vers\u00f5es antigas do futebol caminhavam de m\u00e3os dadas com a sociedade. Na Idade M\u00e9dia, viol\u00eancia era a regra, como se todos fossem zagueiros portugueses a ca\u00e7ar Pel\u00e9 na Copa de 1966. O soule (ou harpastum) tinha 27 militares de cada lado. Eram permitidos socos, pontap\u00e9s e rasteiras. O gioco del calcio italiano, tamb\u00e9m medieval, tornou-se popular por ser praticado em pra\u00e7as p\u00fablicas, e n\u00e3o mais em campos escondidos. Na Inglaterra, m\u00e3e do futebol, o rei Eduardo II, assustado com a agressividade, proibiu a brincadeira, em 1314, que renasceria entre os nobres, agora sem pancadaria.<\/p>\n<p>Era o in\u00edcio da civiliza\u00e7\u00e3o no futebol \u2013 ainda que, mesmo hoje, os brancos sul-africanos usem um prov\u00e9rbio segundo o qual o r\u00fagbi, esporte de sua predile\u00e7\u00e3o, \u201c\u00e9 um jogo criado pelos hooligans e jogado por nobres, enquanto o futebol \u00e9 um jogo criado por nobres e jogado por hooligans\u201d. Em A Com\u00e9dia dos Erros, escrita por volta de 1592, William Shakespeare p\u00f4s o futebol em campo como met\u00e1fora. Em uma das cenas da pe\u00e7a, o escravo Dr\u00f4mio de \u00c9feso reclama dos abusos aos quais o submetem. \u201cSerei, acaso, redondo assim, para me dardes pancada sem parar, como se eu fosse uma bola de futebol? Sem mais nem menos, me aplicais pontap\u00e9s. A durar isso, tereis de me mandar forrar de couro.\u201d Apenas no s\u00e9culo XVII, finalmente surgiram as regras muito pr\u00f3ximas \u00e0s que vingaram at\u00e9 hoje<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>da Revista Veja Os estudos gen\u00e9ticos iluminam a rota migrat\u00f3ria da humanidade. Os ancestrais de Luis Fabiano e de Charles Miller, introdutor do futebol no Brasil, sa\u00edram juntos da \u00c1frica, agora palco da grande festa do esporte \u00a0Charles William Miller, filho de um escoc\u00eas que chegou ao Brasil para ajudar a administrar a estrada de ferro Santos-Jundia\u00ed e de uma brasileira de fam\u00edlia inglesa, retornou de uma viagem de estudos a Southampton, na Inglaterra, no fim de 1894, com pe\u00e7as curiosas na mala. Segundo relato do escritor e historiador John Mills, Miller trouxe na bagagem um livro de regras do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[6],"tags":[4227,4727,523,783,561,4728,285,4272],"class_list":["post-12372","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","tag-biologia","tag-ciencias","tag-dna","tag-estudo","tag-futebol","tag-genetica","tag-pesquisa","tag-revista-veja"],"acf":[],"views":1047,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12372"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12372\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":12373,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12372\/revisions\/12373"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.walcordeiro.com.br\/v1\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}