Por Wal Cordeiro

“Fiz e faço. Não tenho medo de ninguém. Se você falar com minha mãe, eu acabo com a raça do seu filho e com a sua também, pois o encontro todo dia na escola. Sua filha da… Sua rap… Sua p… (Imagine todas as palavras de baixo calão que uma pessoa pode pronunciar em voz alta).” Os olhos do menino transmitiam muito ódio e perversidade para alguém tão púbere.

Essa foi a grande ameaça que uma mãe que uma mãe, conquistense, m 2009 ouviu ao tentar confrontar um garoto de apenas doze anos, na porta da sua casa. Ele vinha constantemente praticando todo tipo de violência verbal, emocional e física contra o seu filho (mais novo do que o garoto desaforado) na escola em que ambos estudam. O pior disso tudo! Estudam na mesma sala. Se encontram todos os dias.

Conto melhor essa história! Porém, vamos definir primeiro o significado das palavras: cidade, violência e família.

Cidade – Complexo demográfico formado, social e economicamente, por uma importante concentração populacional não agrícola, i. e., dedicada a atividades de caráter mercantil, industrial, financeiro e cultural; urbe.

Violência – Vem do latim violentia: Constrangimento físico ou moral; uso da força; coação.

Família – Pessoas aparentadas, que vivem, em geral, na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos. Também significa: Pessoas unidas por laços de parentesco, pelo sangue ou por aliança.
Continuemos com a história:
Em um determinado colégio público de Vitória da Conquista, um garoto (10 anos) estava sofrendo intimidações constantes do seu colega mais velho (12 anos). O colega de sala o obrigava a fazer, durante o recreio, coisas que ele não queria do tipo: fazer gestos obscenos para as meninas da turma e outras coisas mais, que não vale a pena mencionar, sob a ameaça de bater em sua mãe caso ele não obedecesse.
A mãe preocupada com o oprimido filho, que sempre apresentava vários distúrbios emocionais principalmente quando tinha que ir para a escola, e com medo do desfecho da situação resolveu averiguar o problema até que descobriu o que realmente estava acontecendo. Então, foi procurar a pessoa responsável pelo garoto ameaçador.
Quando chegou a sua casa o encontrou sozinho, sem nenhum genitor para conversar. A mãe do menino incivil é diarista e o deixa sozinho em casa durante todo o dia. A outra mãe tentou argumentar com ele para que parasse de oprimir e acossar o seu filho. Então o restante da situação todos sabem. As ameaças proferidas no início desse artigo.
Essa história não é única, pois se repete diariamente na vida de muitas crianças. Os pais perderam o controle da situação, estão espantados, pois não sabem realmente o que acontece na vida de seus filhos quando esses vão à escola. Quais são as influências recebidas no lugar onde deveria promover a educação, a paz e a cidadania? Quem são os colegas de escola que passam mais tempo com seus filhos do que a própria família? Que tipo de pressão está sofrendo, para fazer coisas que não desejam? O que estão oferecendo para eles na hora do lanche? E quando precisa liberar os filhos para brincarem nas ruas, quem são os amigos que irão se relacionar com eles?
A cidade não é mais a mesma. Tudo mudou. Não estamos mais em uma região campestre. Não é mais seguro os pais deixarem os filhos brincarem sozinhos nos logradouros da urbe. Já não se ver mais, nas ruas, meninos brincando de: Tonga, trinta e um olé, triângulo, peixe, roda, triscou pegou, três três passará, etc. O que se vê é de ficar assustado; sobressaltado, desassossegado. Uma grande multidão de infantes assentados nas lúgubres esquinas; ociosos, com olhares ameaçadores e sob a influência de traficantes que perambulam apressadamente pelas avenidas montados, na maioria das vezes, em suas motos ou bicicletas e oferecendo dinheiro para os bucólicos garotos entregar algum tipo de produto impróprio (na maioria das vezes entorpecentes) em seu local de destino. Dinheiro fácil sob a equivocada ótica deles! Na verdade dinheiro funesto.
Faça o teste e vá aos bairros, às praças da periferia da cidade no horário comercial. Você vai se deparar com uma geração que está se perdendo, se deteriorando mais cedo, se esvaindo pela ação do vento que sopra a violência debaixo das nossas narinas, violência praticada, agora, na porta das nossas casas. Todos são vítimas ou co-autores! Perdemos o controle. Estamos correndo o risco de nos acostumar com tudo isso e acharmos que é normal. Não é e nunca deve ser. Precisamos acordar. Tomar alguma providência em caráter de urgência. Os nossos filhos estão expostos e podem ser atores principais ou coadjuvantes desse ato real.
O que fazer? Como salvar essa geração que cambaleia a passos largos para o túmulo? Resposta difícil de obter. Mas, uma coisa é certa: Tudo acontece na cidade, porque inicialmente aconteceu na família. Explico melhor.
O primeiro caso de violência registrado na Bíblia aconteceu na família (de Adão e Eva – pais da humanidade), um irmão matou o outro a pauladas. Caim matou Abel por causa da inveja (e ainda não existiam filmes policiais ou jogos de RPG para ensiná-lo a fazer isso). Essa primeira família perdeu o rumo, na vida, por causa da desobediência a Deus e acabou colhendo conseqüências desastrosas na vida dos seus filhos e da sua descendência.
A violência já estava no coração do homem desde os primórdios da raça humana! A família é responsável por tudo isso, na realidade o desajuste familiar proporciona e dá início a violência doméstica que acaba refletindo na cidade. Jogando a responsabilidade para as autoridades resolverem.
Lares harmoniosos e bem ajustados são lares pacíficos. Pais que cuidam bem dos seus filhos e ensinam o caminho em que devem andar, evitam que os meninos sejam adotados pelos traficantes. Família que preza pelo respeito cristão; investe na boa educação, no diálogo e no amor, evita que a cadeia seja a hospedaria dos jovens. Impede que a geração teen seja homenageada e lembrada, apenas, nas cerimônias funéreas.
A família é a mola mestra e propulsora que determina as regras do futuro da cidade para o bem ou para o mau. Se a família vai bem, a cidade vai bem. Se a família vai mal, a cidade vive num caos.
Se as políticas públicas fossem voltadas para o benefício da família no combate a crise entre pais e filhos, poderíamos encontrar uma solução mais rápida para a violência. Estaríamos atuando eficazmente na “causa” para não precisarmos chegar ao “efeito”.
Família abençoada é família pacificadora, que vive numa cidade abençoada e pacífica.
Deus salve a família! Abençoe a cidade!

Wal Cordeiro é autor de oito livros