Fernanda Chagas/Tribuna

Durante a cerimônia que marcou o lançamento do programa Brasil sem Miséria, realizado ontem, em Brasília, o ministro da Casa Civil Antônio Palocci acabou por roubar a cena e virou o centro das atenções de todos os jornalistas que cobriram o evento.
Indagado se ele iria se pronunciar sobre as denúncias de enriquecimento ilícito nos últimos anos, o ministro apenas indicou a possibilidade de se justificar. “Eu posso falar, mas
hoje é o dia do Brasil sem Miséria”.

Em seguida, Palocci ignorou os questionamentos dos repórteres presentes e saiu por trás do palco, logo após a presidente Dilma encerrar seu discurso.

No entanto, enquanto Palocci define se irá falar ou quando irá falar, o cerco fica cada vez mais fechado contra ele, inclusive, com a pressão de petistas baianos. Além do governador Jaques Wagner, que na semana passada admitiu que, de fato, chamou a atenção os R$ 20 milhões ganhos em um ano de consultoria pelo ministro chefe da Casa Civil, senadores e deputados também resolveram se pronunciar sobre a polêmica.

Para Wagner, um dos principais
articuladores da campanha da presidente Dilma Rousseff, quanto mais tempo
Palocci demorar para se explicar, mais questionamentos virão. “Eu sempre
aconselho que o melhor caminho é o mais curto. Porque quando há um
esclarecimento, se for consistente, eu entendo que a gente está tranquilo”,
afirmou o governador, admitindo que a revelação do enriquecimento de Palocci
tumultuou o ambiente político em Brasília.

Bem no estilo
democrático, o governador fez questão de frisar que não gostaria de incriminar
ninguém e declarou que, em tese, não tem “nenhuma coisa pública” envolvida no
caso Palocci. “Em tese, (Palocci) quando era deputado e depois que deixou de ser
ministro (da Fazenda), ele montou uma empresa de consultoria e foi contratado”,
acrescentou, dizendo que, até prova em contrário, tem que permanecer solidário
ao ministro. “Já vi muita gente ser enxovalhada injustamente”, declarou o
governador.

Aliados engrossam coro

Engrossando a fileira dos que defendem um pronunciamento o quanto antes com
intuito de amenizar todo desgaste que, consequentemente, respinga no PT, o
senador petista baiano Walter Pinheiro afirmou, em “alto e bom som”, que a crise
que envolve o chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, é do ministro e não do PT.

“É preciso separar as coisas: essa é uma crise pessoal, não do PT. O
benefício foi para o cidadão (Antonio Palocci), não tem nada a ver com o
partido”, disse o senador, reiterando que não defende o afastamento do ministro
do cargo, mas sim explicações do correligionário. “Não estou dizendo que ele se
vire, o PT tem que dar solidariedade, mas ele tem obrigação de dar explicação
porque é um homem público”.

Além do senador, o deputado federal Nelson
Pelegrino (PT), em entrevista à rede Tudo FM, cobrou uma explicação pública do
ministro e foi mais além. Segundo ele, diante da crise política que se
estabeleceu, as explicações legais para o enriquecimento apenas não são
suficientes. “Para isto basta ver o imposto de renda dele.

O aspecto
moral, aí é um julgamento público, da sociedade. Ele alega que há cláusulas
contratuais de confidencialidade. Seja o que for, é legal que haja um
esclarecimento, em que circunstâncias essas atividades aconteceram, para que
essa história seja encerrada”, afirmou. Questionado se era a favor da exoneração
do “companheiro”, Pelegrino preferiu cautela. “Ainda é cedo para falar se ele
vai ser substituído ou não”.

Integrante da base governista, o senador
Pedro Simon (PMDB-RS) pediu ontem o afastamento imediato de Palocci do cargo. Em
discurso no Senado, Simon disse que está “ficando feio” para o PT e o PMDB
impediram que Palocci seja convocado para prestar esclarecimentos no Senado.
“Ministro, Vossa Excelência deveria se afastar.

Se afastar hoje ou
amanhã, antes de se criar CPI, ou antes do Ministério Público se posicionar. A
grande saída é o senhor se afastar.” Simon disse que não está condenando o
ministro por antecipação, mas que o coordenador político do governo deveria de
se explicar à sociedade comparecendo ao Congresso para depor, como deseja a
oposição. “O escândalo de hoje faz esquecer o passado, mas esse é um caso que a
gente não esquece.”

Diversos senadores do PT, que acompanharam o
discurso de Simon, não se manifestaram para defender o ministro. Também não
houve nenhum parlamentar que endossou as críticas de Simon. O senador Pedro
Taques (PDT-MT), governista, tentou comentar as palavras do peemedebista, mas
acabou impedido depois que Simon extrapolou o seu tempo na tribuna.