Fabio Graner – O Estado de S.Paulo

Na primeira reunião do governo de Dilma Rousseff, o Comitê de Política Monetária (Copom), comandado por Alexandre Tombini, decidiu elevar a taxa básica (Selic) em 0,5 ponto porcentual, para 11,25% ao ano. Com o movimento, a Selic retoma o patamar de 11,25%, vigente em março de 2009, quando a política monetária estava em pleno processo de flexibilização por conta da crise internacional.

Consenso. Decisão dos direitos foi unânime, informou o BC

A decisão do colegiado foi unânime, após reunião que durou mais de três horas e meia. O comunicado do Copom destacou que a medida marca o início do processo de alta da Selic, “cujos efeitos, somados aos das ações macroprudenciais, contribuirão para que a inflação convirja para a trajetória de metas”.

A decisão reflete a necessidade de se interromper o movimento de elevação das expectativas inflacionárias para este ano, que, segundo a pesquisa Focus, já apontam o IPCA em 5,42%, acima do centro da meta de 4,5%. Vale lembrar que o índice oficial fechou o ano passado em 5,91%, o maior nível desde 2004.

A elevação dos juros ontem interrompe uma sequência de três manutenções seguidas na Selic (nas reuniões de setembro, outubro e dezembro) em 10,75% ao ano. Apesar de o Banco Central reconhecer em seus documentos mais recentes que parte relevante da alta da inflação decorre de choques de oferta, principalmente de alimentos, a decisão do Copom revela o temor de que essas altas de preços possam contaminar o restante da economia, em função de uma demanda interna aquecida. Além disso, busca transmitir um sinal de força do novo presidente da autoridade monetária, que ainda precisa consolidar uma reputação de que não vai transigir com a busca de manter a inflação na meta.

A elevação dos juros, de fato, dá sequência ao processo de aperto monetário iniciado em dezembro, com a elevação dos depósitos compulsórios e do aperto das condições de crédito. Segundo cálculos de analistas de mercado e do próprio governo, tais medidas seriam equivalentes a uma elevação de 0,5 a 1 ponto porcentual na taxa Selic.

Para o economista-chefe do Banco Schahin, Silvio Campos Neto, com a demanda interna aquecida, elevação nos preços do setor de serviços e a piora das expectativas inflacionárias, o processo de elevação dos juros se torna necessário. “As ações prudenciais já tomadas não substituem política de juros e também a política fiscal, sobre a qual ainda há ceticismo.”

O estrategista-chefe do Banco WestLB, Roberto Padovani, considera que a combinação de choques de oferta, economia aquecida e o fato de se estar começando um novo governo – em que, sem autonomia formal, o BC precisa consolidar sua reputação – levam ao processo de alta da Selic. “Não acho que a economia esteja superaquecida, mas está aquecida. Não dá para dizer que a economia está fraca. Ela está rodando próximo do potencial. Em economia que sofre choques com esse nível de atividade, a situação complica.”