Nelson Rocha e Tatiana Ribeiro/Tribuna da Bahia

 Enquanto o Rio de Janeiro assiste ao vivo e a cores a versão original da Tropa de Elite, com os policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) efetuando ataques às favelas em busca de traficantes, ações que resultam em cenas chocantes mostradas em horários nobres dos canais de televisão, Salvador reflete sobre esta situação de terror e teme que possa ser a próxima vítima da violência urbana em grande escala. Ontem, já era dada como certa por parte das autoridades cariocas que os bandidos estavam fugindo para destinos ainda ignorados.

 “A tendência é estes criminosos virem para o Nordeste, porque eles não vão ter condição de enfrentar o poderio do Exército. Salvador, Fortaleza e Natal são as cidades preferidas pelos chefes do tráfico do Rio de Janeiro, que chegam e investem muito dinheiro.

 Vilas do Atlântico já foi o antro de traficantes do sul, que fugiram pra cá”, comentou o advogado criminalista João Novais, um dos mais atuantes da cidade, que considera a polícia baiana despreparada para enfrentar um possível êxodo da bandidagem carioca.

 

“A polícia da Bahia não tem estrutura para combater a bandidagem daqui, imagine a do Rio. Por isso mesmo corre o risco de ser alvo dos traficantes cariocas. O policial baiano ganha um salário de vergonha, o que o torna mais fácil de ser corrompido pelo crime organizado, que age como empresa e movimenta fortunas.

 É preciso que o policial tenha uma boa base familiar para não se deixar envolver pela corrupção promovida por facções cariocas ou paulistas, que são comandadas por cabeças pensantes, bandidos inteligentes”, observou o experiente advogado João Novais.

O contingente da Polícia Militar da Bahia é composto de 32 mil homens. Cada um recebe salário de R$ 1.890 para proteger 426 cidadãos num universo de 13,6 milhões de habitantes do estado. Para a Conselheira da OAB (Ordem dos Advogados – seção Bahia), Sara Mercês, também presidente da Comissão de Direitos Humanos, essa tropa, assim como as policias Civil e Federal, deve ficar “em estado de alerta.

A OAB espera que o Estado, que tem dever de zelar pela segurança pública, acione a máquina estatal, mais homens para as fronteiras, estradas e regiões como o extremo sul, que está mais próximo ao Rio, para garantir uma melhor segurança. Não tenho dúvida que os estados como o Espírito Santo e a Bahia podem ser destinos de alguns traficantes, mas confiamos no serviço de inteligência de nossas polícias”, declarou             

Na opinião do advogado criminalista Milton Jordão, Conselheiro da OAB-Ba e integrante do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, “na situação em que se encontra, o tráfico carioca vai arranjar outra forma de maquinar os ganhos. Tenho certas dúvidas, não vejo como algo certo a vinda deles para cá, mas, de qualquer sorte, as autoridades de segurança devem ficar atentas”, alertou.

Com relação a necessidade

Com relação a necessidade de instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), nos bairros onde existe o domínio do tráfico de drogas (UPPs), César Nunes afirmou que essa medida não poderia ser adotada em Salvador. A política de segurança das UPPs, adotada no Rio de Janeiro, segundo Nunes, se justifica na capital carioca devido à total inexistência do Estado em territórios urbanos.

“Lá, (nas comunidades em que se instalou a UPP) tinha alguma unidade policial? Não. Na Bahia, em cada local há a polícia. Em Tancredo Neves, por exemplo, há três companhias da PM e uma delegacia da Civil. Aqui não tem um local que não tenha a polícia”, comparou.

Segundo informações de um policial que preferiu não se identificar, não existe possibilidades da situação do Rio se repetir em Salvador. Quando a série de ataques a módulos policiais e ônibus no ano passado, as autoridades providenciaram a transferência de onze bandidos para os Presídios de Segurança Máxima de Catanduvas, entre eles, Renildo Nascimento dos Santos, o Aladim e Val Bandeira, considerados pela polícia baiana como um dos bandidos mais perigosos do estado. 

“Acho que essa é uma possibilidade remota. Os dois estados não fazem fronteiras, e, além disso, os traficantes daqui não possuem o mesmo nível de organização que os cariocas. Têm bandidos no Rio que tem um arsenal de mais de cem fuzis. Aqui em Salvador não tem traficante com esse poder”, comparou o policial.

Polícia baiana prevê o aumento da criminalidade

Apesar do tráfico de drogas não ser tão intenso como no Rio de Janeiro, autoridades da polícia baiana não descartam a possibilidade de remanescentes do tráfico da capital Fluminense virem para a Bahia. Por considerar o serviço de inteligência da polícia baiana um dos melhores do país, o Delegado Geral da Polícia Civil do Estado, Joselito Bispo, atualmente participando do Conselho Nacional de Chefes de Polícia do Brasil, que ora se realiza em Natal, manda um recado para os traficantes cariocas: “Se vierem para Bahia a polícia baiana está preparada para adotar todas as medidas necessárias”, garantiu.   
  
Compartilhando a mesma opinião de Bispo, o Secretário da Segurança Pública do Estado, César Nunes, admitiu que pode ter que lutar contra os resquícios do crime carioca. “Sempre é possível que algum marginal de lá saia e vá para alguma outra cidade. Mas estamos preparados para isso. Aqui não ficamos reféns de bandidos, partimos para cima. Nossa polícia é proativa. Vai para cima”, desafiou.

Em 2009, Salvador registrou uma média de 71 homicídios por 100 mil habitantes o que totalizou 1.757 mortes violentas. A taxa do Rio de Janeiro foi de 36 homicídios por 100 mil habitantes. Segundo especialistas em segurança pública, o que contribuiu para este índice é que o efetivo de policiais, que em Salvador é menor do que no Rio de Janeiro.

Enquanto na capital baiana é de um militar para 426 habitantes, na capital fluminense, a relação é de um para 379 pessoas.