Não parece haver santos na história da violação de sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB e a seu candidato à Presidência da República, José Serra. Na reportagem abaixo, o Congreso em Foco relata em detalhes o que disseram o jornalista Amaury Ribeiro Jr. e o despachante Dirceu Rodrigues Garcia nos depoimentos que prestaram à Polícia Federal. Os relatos contam a história de uma trama que começa no PSDB, na disputa interna pela candidatura à Presidência entre Serra e o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Mas que termina na campanha de Dilma Rousseff, candidata do PT à Presidência, e numa disputa interna pelo controle da estratégia de comunicação da campanha.

Os depoimentos, cuja íntegra foram obtidas pelo jornal O Estado de S.Paulo, mostram por que, desde que a história estourou, PSDB e PT empurram um para o outro a responsabilidade pelo escândalo. De acordo com o que relata principalmente Amaury, acreditando-se em seu depoimento, há elementos que desgastam ambos os partidos.

Os depoimentos também corrigem algumas informações publicadas nos últimos dias pela imprensa. Não é verdade que Amaury tenha confessado em seu depoimento ter pago para obter a violação do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do José Serra, e de Eduardo Jorge Caldas Pereira, vice-presidente do PSDB, entre outros tucanos. Amaury não faz qualquer confissão nesse sentido. Quem o acusa disso é o despachante Dirceu. Ele afirma que Amaury o procurou para ajudá-lo a obter tais informações. Em troca, Dirceu teria recebido R$ 12 mil, para dividir com Ademir Estevam Cabral, que o ajudou a conseguir as cópias das declarações de imposto de renda. Mais tarde, cerca de um mês e meio antes do primeiro depoimento que deu à Polícia Federal, no início de outubro, Dirceu conta que foi novamente procurado por Amaury. Naquele momento, a história da quebra de sigilo já estava nos jornais. Amaury teria, então, depositado mais R$ 5 mil em sua conta, supostamente em troca de seu silêncio. Na verdade, Amaury nega em seu depoimento que tenha usado Dirceu como despachante para obter informações confidenciais da Receita Federal.

Privatizações

O depoimento de Amaury é o último dos três prestados, no dia 15 de outubro. É, porém, o mais detalhado e, por isso, é importante começar por ele. Amaury conta que, desde o final do governo Fernando Henrique Cardoso, investigava irregularidades ocorridas no processo de privatização das empresas estatais. Ele afirma ter documentos que mostram que Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil, seria o “operador principal” na “formação dos consórciso que participaram das privatizações das teles, cobrança de propina e criador do modus operandi utilizado para internar valores escusos nas Ilhas Virgens Britânicas no Brasil”. Amaury compromete-se, no depoimento, a entregar à PF todo o material que apurou sobre isso.

Em 2001, Amaury diz não ter conseguido publicar o material que apurou no jornal em trabalhava, O Globo. Ele vai, então, para o Jornal do Brasil, e ali consegue publicar uma primeira reportagem sobre o assunto. Em 2003, ele diz obter novos documentos enviados pela promotoria de Nova Iorque para a CPI do Banestado e à Polícia Federal, que indicariam que “Ricardo Sérgio movimentava milhões de dólares no exterior, inclusive em paraísos fiscais”. Tais informações foram publicadas pela revista IstoÉ, na qual Amaury então trabalhava. Por conta da reportagem, Amaury foi processado judicialmente por Ricardo Sérgio. É nessa época que o jornalista pensa, então, em escrever um livro sobre o tema.

Depois disso, porém, Amaury passa um bom tempo sem voltar a investigar o assunto. Em 2007, ele vai trabalhar no jornal Correio Braziliense em Brasília. Depois de sar baleado durante uma apuração jornalística na periferia da cidade, Amaury é transferido para Belo Horizonte, para outro jornal dos Diários Associados, o Estado de Minas. Aqui começa o segundo capítulo da sua história

Dossiê contra Aécio

Amaury conta em seu depoimento ter tomado conhecimento, em dezembro de 2007, de que um “grupo clandestino de inteligência” estaria investigando o então governador de Minas, Aécio Neves. Acontecia, então, a disputa interna entre Serra e Aécio para escolher qual dos dois seria o candidato pelo PSDB à Presidência da Reública. Amaury diz que resolveu, então, investigar quem eram os integrantes do tal grupo e qual era a sua motivação. Diz ter descoberto que o grupo trabalhava para José Serra, sob o comando do deputado federal Marcelo Itagiba (PSDB-RJ), ex-delegado da Polícia Federal. Segundo ele, faziam parte do grupo também o ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI) Luiz Fernandes Barcelos, o delegado federal Pedro Birvane e outros agentes, um do SNI de que não recorda o nome e outro da PF de nome Darlan. Amaury acha que a questão poderia ser um gancho para retomar as investigações sobre o processo de privatização, “focando também pessoas ligadas a José Serra”.

Nessa apuração, Amaury diz que passou a obter documentos em cartório, juntas comerciais, órgãos de Justiça no Brasil e nos EUA. Ele diz, nesse processo, ter obtido documentos que apontavam para a existência de empresas – off shores – sediadas em paraísos ficais, em nome da filha de José Serra, Verônica Allende Serra, e de seu esposo Alexandre Bourgeois. E acrescenta que tais empresas operavam em um mesmo escritório operado por Ricardo Sérgio nas Ilhas Virgens. Para o declarante, teria ficado evidente que tais empresas “foram utilizadas para internação de valores em território pátrio”. Para realizar suas investigações, Amaury afirma ter feito várias viagens nos anos de 2008 e 2009, principalmente para São Paulo. As despesas de viagem, diz ele, “foram custeadas pelo órgão de imprensa no qual trabalhava”. É nessa ocasião que ela afirma ter contratado “um despachante”, cujo nome não recorda, para obter tais documentos “legais”, e não informações da Receita Federal. Passemos ao terceiro capítulo do depoimento.

Fogo amigo

No dia 16 de outubro de 2009, Amaury deixa o Estado de Minas, segundo ele, por conta dos graves problemas de saúde enfrentados por seu pai, que faleceu em 13 de novembro do mesmo ano. Para cuidar de negócios da família, em Campo Grande (MS) e no interior de Minas Gerais, Amaury desliga-se do jornal. Antes de sair, ele deixa uma cópia de tudo o que apurou com o Estado de Minas e outra arquivada em seu notebook, para que servisse de base para a publicação do livro que planejava.

Por volta de abril de 2010, Amaury recebeu uma ligação telefônica de “seu amigo” Luiz Lanzetta. A empresa de Lanzetta, a Lanza Comunicações, tinha sido  contratada para cuidar da estratégia de comunicação da pré-campanha da candidatura Dilma Rousseff. A razão do telefonema era um pedido de ajuda. Lanzetta relatou a Amaury que acontecia uma coisa estranha na “casa do Lago Sul”, apelido dado ao bunker da campanha de Dilma, montado numa residência do Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Segundo Lanzetta, informações confidenciais que circulavam na casa do Lago Sul “eram sistematicamente difundidas pela imprensa”. Lanzetta pedia a ajuda de Amaury para indicar uma pessoa ou empresa habilitada a detectar os responsáveis pelos vazamentos de informações.

Amaury indicou, então, um ex-agente da comunidade de informações, de nome Idalberto Matias Araújo, vulgo Dadá. A negociação não prosperou porque Dadá não possuía empresa que pudesse emitir nota fiscal. Dadá indicou, então, um outro nome, o delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo Graça. Onézimo, de acordo com o depoimento, seria um policial que “havia rompido com Marcelo Itagiba”.

Foi, então, marcada uma reunião para acertar a contratação no restaurante Fritz, em Brasília. Antes da reunião, na casa do Lago Sul, Luiz Lanzetta relata a Amaury que tivera uma “séria discussão” com Gustavo Garreta, um dos proprietários da empresa de comunicação Marka, que exigia participar dos trabalhos de comunicação já desenvolvidos pela Lanza na pré-campanha de Dilma. Lanzetta contou que Garreta era ligado ao deputado estadual Rui Falcão, do PT de São Paulo. Por isso, Lanzetta passou a suspeitar que o vazamento deveria vir de gente ligada à própria campanha – o chamado “fogo amigo”, e não a Marcelo Itagiba. Na reunião, Lanzetta repetiu, “muito nervoso”, que os “vazamentos poderiam ser coisa do Garreta”.

Na reunião, Onézimo apresentou a proposta de montar um grupo com dez pessoas, a fim de investigar e controlar todos que lá trabalhavam. E orçou o quanto tal trabalho custaria: R$ 180 mil por mês. O curioso é que, segundo o relato de Amaury, no momento em que Onézimo apresentou o valor de seu serviço, Lanzetta já não participa mais da reunião. Lá ficara outra pessoa, de nome Benedito de Oliveira, o Benê. E os dois dizem a Onézimo que o valor pedido era alto, principalmente depois da suspeita de que o problema era interno. Amaury comenta que seria “perigoso” um grupo estranho entrar na casa do Lago Sul para investigar se os problemas poderiam estar relacionados a divergências no comando da campanha.

Duas semanas depois, houve outra reunião na confeitaria Praliné, em Brasília, novamente sem a presença de Lanzetta. Amaury sugere que Onézimo investigue apenas o grupo de Marcelo Itagiba, por um valor menor. O ex-delegado recusa a proposta.

Na mesma ocasião, Amaury afirma ter descartado um convite feito por Lanzetta para ingressar na equipe da pré-campanha de Dilma. De volta a Campo Grande e ao interior de Minas para cuidar dos negócios da família, Amaury recebe três semanas depois um telefonema de Lanzetta. E começa o quarto capítulo da história.

Novo grupo de aloprados

No telefonema, Lanzetta reclama que Onézimo e Dadá seriam “espiões”. E que teriam dito à revista Veja que Amaury, Benê e Lanzetta estavam preparando um dossiê para prejudicar Serra. Amaury procurou Dadá, que disse que ele é que teria sido procurado pela Veja. Contou, ainda, que o repórter da revista é que teria dito a ele que pessoas ligadas à própria campanha de Dilma teriam denunciado o surgimento de um “novo grupo de aloprados” na campanha petista.
 
Amaury afirma, então, que procurou o diretor da sucursal da revista em Brasília, Policarpo Júnior. Segundo o depoimento do jornalista, Policarpo disse a ele que um dirigente do PT havia lhe dito que existia um novo grupo de aloprados, que Amaury fazia parte dele e que teria recebido um dossiê sobre as privatizações ocorridas no Brasil. Amaury surpreendeu-se quando Policarpo fez uma descrição do tal dossiê: eram, segundo o depoimento, as mesmas informações que estavam em seu notebook.

Amaury afirma acreditar que o material foi copiado de seu computador, num período em que ele ficou hospedado em um flat no Hotel Meliá Brasília. O flat era de propriedade de alguém de nome Jorge, segundo Amaury o responsável pela administração dos gastos da casa do Lago Sul e da campanha de Dilma. Amaury afirma ter certeza de que o material foi copiado por Rui Falcão. Segundo ele, Falcão já tinha se hospedado também no flat e tinha a chave do apartamento. Amaury conta também que tal certeza foi reforçada pelo relato de um repórter da revista IstoÉ, que lhe disse que Rui Falcão procurara antes a revista, que não se interessou em publicar as informações que ele repassava.
 
Segundo Amaury, depois que a revista Veja publicou as informações sobre o “novo grupo de aloprados”, Lanzetta deixou a campanha de Dilma. Em seu lugar, foi contratada a empresa Pepper, de uma pessoa chamada Daniele, ligada ao marqueteiro João Santana. A empresa Marka, de Garreta, diz o jornalista, assumiu a campanha de Dilma em São Paulo.

Despachante de quebra de sigilo

É Dirceu Rodrigues Garcia quem conta, em dois depoimentos à Polícia Federal, que Amaury Ribeiro Jr. o procurou para obter dados sigilosos das declarações de imposto de renda dos tucanos. No primeiro depoimento à Polícia Federal, Dirceu conta que conheceu Amaury na porta da Junta Comercial de São Paulo. Num primeiro momento, Amaury pediu documentos da própria Junta, “fichas de breve relato”. Como o serviço deu certo, Amaury entrou em contato com Dirceu por telefone. E, então, o pedido foi mais grave. Amaury teria, então passado, uma lista de CPFs e CNPJs para que ele buscasse, então, na Receita, informações fiscais sobre aquelas pessoas e empresas.

Dirceu afirma que não tinha acesso à Receita Federal. Por isso, terceirizou o serviço para Ademir Estevam Cabral. Ademir diz que pode conseguir tais dados. Cobra R$ 700 por cada cópia. O material é entregue a Amaury no dia 8 de outubro de 2009, no Bar Onça, na avenida Ipiranga, centro de São Paulo. No segundo depoimento à PF, Dirceu diz que esse pacote de dados fiscais sigilosos foi entregue a Amaury em troca de R$ 12 mil, pagos em dinheiro.

A violação do sigilo dos tucanos ganha as páginas das revistas e jornais. Dirceu conta, então, que cerca de um mês e meio antes de prestar o primeiro depoimento à PF, ele é procurado por telefone por Amaury. O jornalista lhe pergunta “se estava tudo bem e se ele estava precisando de alguma coisa”. Dirceu responde que “estava no aperto”. Depois dessa conversa, segundo Dirceu, Amaury deposita R$ 5 mil em sua conta, em dois depósitos de R$ 2,5 mil.

Leia a íntegra dos depoimentos, obtidos pelo Estado de S. Paulo:

Íntegra do depoimento de Amaury Ribeiro Jr.

Íntegra do primeiro depoimento de Dirceu

Íntegra do segundo depoimento de Dirceu  

Do Congresso em Foco