Por Fábio Sena

Foi por opção da candidatura tucana que o debate eleitoral deste ano saiu do terreno político para o terreno meramente religioso, assumindo essa feição graças à predominância do tema do aborto sobre assuntos como educação, saúde, habitação popular, salário mínimo, entre outros. E ganhou relevo, especialmente, depois que o candidato tucano apareceu em seu programa eleitoral fazendo a leitura da Bíblia, num gesto farisaico e de deslavada hipocrisia.

O que o tucano fez, num ato de desrespeito inclusive, foi tentar colocar as Escrituras Sagradas a serviço da intolerância, assemelhando-se àqueles fariseus que oravam em voz alta nas esquinas e que Jesus chamou de “sepulcros caiados”. “Ai de vocês, escribas e fariseus, hipócritas! Pois são semelhantes aos sepulcros caiados que, por fora, realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos mortos e de toda a imundícia”. (Mateus 23.7).

O grave dessa história insensata é que a campanha eleitoral, que tinha tudo para ser um grande debate sobre o Brasil e seu futuro, afirmando projetos e perspectivas, descambou para o maniqueísmo, para o fascismo, para a intolerância. A questão do aborto, de sua descriminalização ou não, foi sempre alvo de debates – e outros presidenciáveis, em outras eleições, se viram às voltas com esse tema. Mas o problema é que a candidatura tucana quis que o assunto estancasse no bordão do “a favor ou contra”, como se a questão fosse simples assim.

Agora vejam, leitores, que disparate e a que níveis indesejáveis chegou a campanha eleitoral no Brasil: a própria Mônica Serra, esposa do candidato tucano, que acusou a candidata Dilma Rousseff de “assassina de criancinhas”, está agora sendo acusada, ela mesma, de haver praticado aborto na década de 70, segundo o jornal carioca Correio do Brasil. Mônica Serra teria, segundo depoimento de uma ex-aluna confirmado por outras colegas do mesmo período, declarado em sala de aula que havia praticado um aborto no quarto mês de gestação em função do exílio do marido.

É óbvio que o núcleo tucano já dimensionou o estrago que isso pode causar à imagem de Serra. A notícia ganhou corpo na Internet e já é objeto de debates acalorados em orkuts, facebooks e msn’s. Eu mesmo já recebi mais de 100 emails tratando do tema. Dilma foi alvo de sucessivos boatos infundados e lhe foram atribuídas declarações jamais feitas, mas agora temos uma reportagem com depoimentos de pessoas que existem, de fato, e que estão dispostas a confirmar o que disseram.

Assim, a campanha eleitoral enveredou por caminhos tortuosos, por opção da candidatura tucana que, agora, se vê provando do seu próprio veneno, na medida em que valeu-se de todas as hipocrisias para se consolidar e agora tem duas novas opções: calar-se sobre o assunto e assumir os riscos desse silêncio, ou fazer o confronto com as ex-alunas, negando o fato e dando mais visibilidade a uma questão ainda presa aos circuitos da net.

As declarações das ex-alunas de Mônica Serra são o xeque-mate do destino na candidatura de Serra.