Paulo Passos, enviado iG

O ano era 1991. Em Sobradinho, no Distrito Federal, Lucimar, então com 13 anos, se dirige ao pódio para receber um troféu. Calado, o garoto cumprimenta o organizador do torneio, sorri com o troféu de quarto colocado na mão e volta para o canto do ginásio, onde estão os colegas de time, sem falar com ninguém. “Ele estava uma fera. Primeiro porque, antes da semifinal, uns garotos faltaram ao treino. E, depois, na decisão do terceiro lugar, ele fez um gol contra de cabeça”, conta rindo José Joaquim da Rosa, primeiro técnico do atual capitão da seleção brasileira.

Hoje dirigente do Planaltina FC, equipe em que Lúcio, na época ainda Lucimar, começou a carreira com 9 anos, Rosa era o técnico do time juvenil. Sentado em um banco no atual centro de treinamento do clube, ele se lembra do garoto desengonçado que desde pequeno queria ser zagueiro.

“Ele era calado, na dele. Não gostava de brincadeira”, afirmou o ex-técnico. O temperamento arredio fez com que, anos depois, Maria Olindina da Silva, mãe do jogador, recebesse de Luiz Felipe Scolari o que ela jura ter sido a primeira e única reclamação sobre o temperamento do filho. “Ele me encontrou em um jogo das eliminatórias de 2002, em São Luis do Maranhão, e disse que era para eu mandar o meu filho falar mais, que zagueiro precisa se comunicar”, disse.

Em 1991 Lúcio, capitão do seu time, recebe o troféu em um torneio em Sobradinho, no Distrito Federal
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Em 1991 Lúcio, capitão do seu time, recebe o troféu em um torneio em Sobradinho, no Distrito Federal

Mesmo sem muita conversa, já na época de Planaltina Lúcio era escalado para ser o capitão do time. “Ele gostava de treinar. Ficava bravo e cobrava quando os outros jogadores chegavam atrasados ou faltavam”, lembra Rosa.

Então auxiliar técnico do time, o policial militar Albion Antonio Soares também destaca o esforço do capitão do Brasil para dar certo no futebol. “Craque ele não era não, teve sorte, mas lutou muito também”, opina. O treinador da época concorda: “Tinha um moleque que era muito melhor que ele, mas acabou se perdendo na malandragem, drogas e nunca ficou em time nenhum”.

7 a 0 e troca de nome
Com 18 anos, o capitão da seleção brasileira, ainda no Planaltina, tentou jogar em uma equipe de maior destaque. Reprovado no América-MG e no Vila Nova-GO, conseguiu acertar um contrato temporário com o União São João de Araras para disputar a Copa São Paulo de Júnior. Foi bem, mas não ficou, pois o clube achou caro pagar R$ 150 mil, valor fixado pelo passe do zagueiro.

De volta ao Distrito Federal, ele acabou sendo vendido para o Gama. Não jogou nenhuma partida no clube e foi emprestado para o Guará, que em 1997 disputaria a Copa do Brasil. “Ele foi para o jogo na antevéspera. O zagueiro do time se machucou e vieram buscar ele aqui”, lembra o ex-técnico do Planaltina.

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Lúcio com a braçadeira da seleção

No Guará, atuou em uma única partida. A derrota de 7 a 0 para o Internacional. Após o jogo, o time foi desfeito. “Fizemos contrato de três meses com os atletas. Pagamos o primeiro, teve o jogo e fomos eliminados sem nem mesmo ter que disputar a partida de volta. Juntei todo o grupo e disse: como vou pagar vocês? E não pagamos mesmo”, revela Márcio Silva, que na época era vice-presidente do clube e hoje é tesoureiro do PMDB do Distrito Federal.

Lúcio foi o único que saiu imune à derrota. Mesmo com a goleada, o time gaúcho acertou a sua compra minutos depois do apito final do árbitro. “Me chamou atenção que ele ganhava as bolas aéreas do nosso centroavante e na velocidade do nosso outro atacante. Achei aquilo espetacular”, afirma o dirigente do Inter Fernando Carvalho.

No Sul, ele levou pouco tempo para chegar ao time principal e ganhar uma vaga entre os titulares. Antes, porém, precisou ser “rebatizado”. “Zagueiro chamado Lucimar não fica bem”, conta Fernando Carvalho. O nome escolhido por dona Maria foi trocado por Lúcio. “Eu fiquei triste, porque fui eu que coloquei. Mas, não importa, continuo chamando ele de Lucimar”, revela a mãe.

Líder da era Dunga
Antes de deixar o Inter para brilhar no futebol europeu, Lúcio jogou com quem ele diz ser o seu exemplo. “Não é porque ele é o treinador, mas sempre recordo da imagem de 1994, quando ele levantou a taça. A partir daquele dia, passei a sonhar em estar na seleção”, revelou o zagueiro.

A parceria no clube gaúcho durou pouco tempo. Apenas uma temporada, até Dunga abandonar o futebol. Desde 2006, entretanto, os dois voltaram a se encontrar, dessa vez não mais como colegas, mas como comandante e comandado.

Durante a era Dunga, Lúcio só não esteve entre os convocados da seleção em sete partidas, quando se recuperava de uma cirurgia para a retirada de uma hérnia. Na maioria dos jogos foi capitão. Em campo, o cidadão calado vira um jogador que fala. Grita, na maioria das vezes.

Com estilo diferente de todos os antecessores, o brasiliense de 32 anos tenta entrar para a turma de Bellini, Mauro, Carlos Alberto Torres, Dunga e Cafu e levantar mais uma taça de campeão mundial para o Brasil.