JAMIL CHADE – Correspondente em Genebra

Formação de cartel, clientelismo e até suspeita de assassinatos. A primeira Copa do Mundo no continente africano começa em pouco mais de 15 dias. Mas um estudo de mais de 250 páginas publicado pelo prestigiado Instituto de Estudos de Segurança (ISS, sigla em inglês) revela suspeitas de como as obras do Mundial estiveram permeadas por escândalos.

Denis Farrell/AP - 16/05/2010

Denis Farrell/AP – 16/05/2010

Construção do estádio de Nelspruit foi marcada por escândalos

 Escrito por jornalistas sul-africanos e pesquisadores e financiado por governos europeus, o estudo mostra como o orçamento público para o evento passou de meros US$ 300 milhões (aproximadamente R$564 milhões) para US$ 2,1 bilhões (em torno de R$ 3,9 bilhões) entre 2004 e 2010. A corrupção em Mundiais não é exclusividade africana. Na Alemanha em 2006, a construção do estádio de Munique terminou em prisão para dois dos principais responsáveis pelas obras.

No caso sul-africano, o caso mais dramático de suspeita de corrupção foi a construção do estádio de Nelspruit, por 100 milhões de euros. O presidente da assembleia local, Jimmy Mohlala, denunciou a corrupção por parte de uma empresa sul-africana e outra francesa. Em fevereiro de 2009, as denúncias foram confirmadas e as pessoas responsáveis pela gestão da licitação pública foram demitidas. Em fevereiro deste ano, Mohlala foi morto em um crime ainda sob investigação.

Até hoje, esse foi o único caso comprovado e punido de corrupção no Mundial de 2010. Mas uma série de suspeitas paira no ar e investigações estão em andamento. Uma das principais preocupações da Justiça sul-africana, segundo a ISS, tem sido o conflito de interesse entre autoridades locais e empresas, em esquemas de clientelismo. Segundo o estudo, o Tribunal de Contas da África do Sul identificou 1,6 mil administradores públicos no país que também ocupariam algum tipo de cargo executivo em empresas. 50 mil funcionários públicos também aparecem como parte de empresas privadas.

O problema é que 60 milhões de euros em contratos para a Copa foram distribuídos pelas autoridades desde 2006. Segundo um informe oficial do Tribunal de Contas, muitos desses contratos acabaram nas mãos de familiares desses 50 mil funcionários públicos que também são parte de empresas privadas. “A maioria dos governos locais não tem um sistema para controlar conflito de interesse “, alertou o estudo.

Um caso seria a construção do estádio de Durban, por 300 milhões de euros. “Ainda que não haja nenhuma prova de corrupção, a construção do novo estádio favoreceu de maneira muito clara as empresas de obra pública “, afirmou o ISS. O estudo também mostra como o comitê de inspeção da Fifa concluiu que a Cidade do Cabo não precisaria construir um novo estádio. Mas as autoridades acabaram optando por uma obra nova.

A pesquisa mostra como o governo sul-africanos ainda investiga o fato de que empresas de cimento e metal fecharam um acordo de preços – um cartel – e elevaram em 20% os valores dos materiais antes do início da construção dos estádios. As empresas sob investigação são a Murray & Roberts, Group Five, Grinaker-LTA, Wilson Bayly Holmes-Ovcon, Basil Read, Stefanutti Stocks, BAM International e a BouyguesConstruction. Uma conclusão sobre o processo somente será revelado após o Mundial.

Outro caso que chama a atenção da entidade é o contrato entre a prefeitura de Johannesburgo e a pequena empresa National Stadium SA (NSSA), criada em 2007. A companhia ganhou a licitação para controlar o principal estádio da Copa por dez anos. Com o contrato, a cidade perde todo a renda sobre o local por uma década, o que seria suficiente para pagar pelos custos da obra do Soccer City.

Entre os critérios para obter contratos públicos para a Copa, empresas teriam de demonstrar que negros faziam parte do comando das companhias. Segundo a ISS, poucos meses antes da licitação, a Global Event Management(GEM), que tem 50% das ações da NSSA, vendeu 26% das ações para um funcionário e ex-segurança da empresa, Gladwin Khangale. O ex-segurança é negro e daria as credenciais que a companhia precisava para competir na licitação.

O estudo ainda revela como os documentos sobre as licitações feitas pelos governos continuam sendo mantidos em sigilo e como não há qualquer perspectiva sobre quando os documentos que basearam as decisões se tornarão públicos.