BBC Brasil/Estadão

Os principais jornais dos Estados Unidos em suas edições desta terça-feira veem o acordo nuclear negociado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, com o Irã do presidente Mahmoud Ahmadinejad como uma cartada diplomática de Teerã para evitar uma nova rodada de sanções no Conselho de Segurança da ONU.

 O “Washington Post” avalia em editorial que o acordo é “ruim” e “não fará nada para conter o programa nuclear iraniano”.

 “Pode, entretanto, descarrilar os esforços do governo Obama de concentrar a pressão internacional no Irã e dar ao regime mais tempo para enriquecer urânio e derrotar a sua oposição doméstica”, diz o jornal.

 “Em outras palavras, poderia ser um grande golpe diplomático para o regime do aiatolá Ali Khamenei, que foi muito habilidoso em explorar a aspiração dos líderes brasileiro e turco de afirmar seu papel global.”

 O acordo também foi parar na capa do “New York Times” e de outro jornal do grupo, o “International Herald Tribune”. Para ambos os jornais, o acordo não toca na “questão central” do problema, que é a insistência iraniana de continuar enriquecendo urânio e a sua postura de impedir verificações independentes.

 “Rejeitar o novo acordo, entretanto, poderia dar a impressão de que o presidente (dos EUA, Barack) Obama quer bloquear um possível meio-termo. E a negociação mostra como o Brasil e a Turquia, que se opõem às sanções por conta de seus próprios interesses econômicos, podem pôr a perder um frágil consenso internacional para elevar a pressão no Irã”, diz o “NYT”.

 O tema foi capa do americano “The Wall Street Journal”, que destaca a “reação de ceticismo” dos países ocidentais, em especial dos EUA, ao anúncio.

 Europa

 Na Europa, os jornais se dividiram em relação ao acordo. Em um editorial de tom positivo, o britânico “Financial Times” ressalta as vantagens deste acordo em relação ao que tinha sido proposto em outubro – que o urânio iraniano fosse enviado à Rússia e que, em troca, o Irã recebesse urânio enriquecido da França.

 Primeiro, diz o jornal, porque a logística desta vez seria mais fácil que a da ideia anterior; segundo, porque o acordo permite que o Irã receba de volta o seu urânio caso os países ocidentais não cumpram a sua parte na negociação; terceiro, e “mais importante”, diz jornal, por causa do “papel da Turquia e, em menor grau, do Brasil”.

 “Ambos os países estão se colocando como atores importantes para superar a desconfiança entre o ocidente e o mundo islâmico (no caso de Ancara) e o mundo emergente em geral (no caso de Brasília)”, diz o diário. “Ainda que o acordo termine em uma rua sem saída, o papel das potências emergentes é bem-vindo”.

 O também britânico “The Independent” avalia que, a princípio, o acordo parece reduzir a capacidade iraniana de enriquecer urânio que poderia ser usado em uma bomba. “Entretanto, já estivemos neste mesmo estágio antes”, escreve a analista do jornal, referindo-se ao fato de o Irã já ter aceitado e em seguida abandonado a proposta anterior, em artigo que acompanha a matéria de página inteira.

 Em uma nota separada, o “Independent” também examina as razões por trás da figura que chama de “Lula, o negociador”.

 “Pode ser o prospecto de deixar o poder que o está levando a tentar conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU”, diz o jornal. “Mas também se comenta que pode ser sua suposta ambição de se tornar o próximo secretário-geral da ONU.”

 Na Espanha, o diário “El País” relata diz que, “na euforia do momento, ninguém em Teerã pareceu reparar nas numerosas dúvidas que o pacto suscita no exterior”.

 Em editorial, o jornal espanhol avalia que o acordo “pode significar um giro ou apenas uma tática para evitar novas sanções”.

 “A Turquia e, sobretudo o Brasil, fizeram uma aposta arriscada ao facilitar a Ahmadinejad uma eventual saída como esta. Se a operação for bem-sucedida, terão confirmado o seu papel internacional; se sair mal, terão contribuído para desfazer a labirinto que se tornou a discussão sobre o programa nuclear iraniano, com seu inevitável corolário de maior tensão no Oriente Médio.”

 Na França, o “Le Figaro” ressaltou que o acordo gerou “reações divididas” e que, ainda “em dúvida”, os países ocidentais liderados pelo EUA continuarão pressionando pela adoção de sanções conta o Irã na ONU. BBC Brasil – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.