da Reuters, em Washington
da Reportagem da Folha

O Irã tentou se esquivar da pressão de potências mundiais que defendem novas sanções contra o país devido ao seu programa nuclear quando fechou acordo de troca de combustível, disse a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, nesta terça-feira.

“Não acreditamos que tenha sido um acidente o Irã concordar com esse acordo enquanto nós avançamos em Nova York”, disse Hillary, referindo-se aos esforços liderados pelos EUA por novas sanções do Conselho de Segurança.

“O fato de que tínhamos a Rússia e China a bordo e que estávamos nos movimentando nesta semana, inclusive hoje, para apresentar o texto da resolução, colocou pressão sobre o Irã, da qual eles (iranianos) estavam tentando se desviar de alguma forma”, disse a secretária.

Anteriormente, Hillary havia dito que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU –Reino Unido, China, França, Rússia e EUA– mais a Alemanha concordaram com uma resolução que seria apresentada hoje aos demais membros do CS.

O anúncio pode ser considerado como uma rejeição ao acordo fechado pelo Irã com mediação do Brasil e da Turquia, apesar de a China — a principal potência relutante em aplicar sanções ao Irã — ter saudado o acordo e solicitado mais negociações com Teerã.

Suspeitas

Os EUA e seus aliados acusam o Irã de usar seu programa civil de produção de energia nuclear para desenvolver armas atômicas, acusação que o governo iraniano nega.

O Irã já sofreu três rodadas de sanções por causa do seu programa nuclear, apesar de insistir no caráter pacífico de suas atividades.

A proposta assinada em Teerã foi feita no ano passado pela ONU sob a premissa de que o Irã abandonaria o enriquecimento de urânio e ficaria mais distante de purificar o material radiativo até o grau necessário para o uso em armas.

Mas, após anunciar o acordo com Brasil e Turquia, o Irã informou que não pretende abandonar suas atividades de enriquecimento de urânio.

Acordo

O acordo assinado ontem determina que o Irã envie 1.200 quilos de seu urânio enriquecido a 3,5%, em troca de 120 quilos de urânio enriquecido a 20% na Rússia ou França –suficiente para a produção de isótopos médicos em seus reatores e muito abaixo dos 90% necessários para uma bomba. O urânio enriquecido seria devolvido ao Irã no prazo de um ano.

A troca acontecerá na Turquia, país com proximidades com Ocidente e Irã, e sob supervisão da AIEA e vigilância iraniana e turca.

A troca de urânio iraniano em solo exterior era tema da proposta feita pelo grupo dos 5+1 (Estados Unidos, Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha) em outubro passado, sob mediação da AIEA. Na época, o Irã rejeitou a proposta por falta de garantias da entrega do urânio enriquecido e, em fevereiro passado, iniciou o enriquecimento de urânio a 20% em seu próprio território.

Negociações

O Brasil deseja participar, ao lado da Turquia, das negociações do chamado grupo 5+1, formado pelos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU –Reino Unido, China, Rússia, Estados Unidos e França– mais a Alemanha, sobre o programa nuclear iraniano.

As declarações foram dadas nesta terça-feira em Madri por Marco Aurélio Garcia, assessor para Assuntos Internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ontem, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, disse que o acordo “fecharia o caminho” para a possibilidade que a comunidade internacional imponha novas sanções ao regime iraniano.

Além disso, o chefe da diplomacia brasileira acrescentou que o acordo representaria o princípio para abordar “outras questões sobre o conflito nuclear”.

Amorim destacou que foi a primeira vez em que o Irã se comprometeu por escrito a enviar urânio ao exterior para recuperá-lo tempo depois, como já propuseram Rússia, Estados Unidos e Reino Unido em novembro do ano passado.

Nesta ocasião, explicou o ministro brasileiro, o Irã recebeu as garantias que pedia para fechar um acordo.