Juscelino Souza | A TARDE

A vereadora Maria Elizabete de Abreu Rosa (PRP), 46 anos, confirmou participação em pelo menos três casos de aliciamento de grávidas e adoção ilegal de recém-nascidos no distrito de Vila do Café, zona rural de Encruzilhada. A confissão foi feita durante depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura desaparecimento de crianças e adolescentes, em Brasília. Audiência públicada CPI está marcada para o dia 26 deste mês no município.

Assessorada por dois advogados, a vereadora Bete, como é mais conhecida, confirmou que fez intermediação entre as mães das crianças e o cartório de registro das adoções, porém negou que recebesse qualquer vantagem pecuniária ou de qualquer natureza.

Em determinado trecho do depoimento da vereadora, primeiro ela tenta se defender das denúncias, mas admite sua interferência. “Esses casos ilegais, eu não conheço.

Eu conheço algumas adoções que eu tenho acompanhado e que já tenho visto, e até já tenho as provas na mão. Se acontecem esses casos, as mães, elas próprias, foram espontaneamente lá e fizeram isso com os pais adotivos”, disse a vereadora.

Indagada pela relatora da CPI, deputada Andréia Zito, (PSDB/RJ), sobre os motivos que a levaram a intermediar as adoções, a declarante disse que o procedimento é normal, já que, segundo ela, “é costume, na região, pessoas que não têm estrutura financeira ou psicológica doarem os filhos”.

Procurada por A TARDE, a relatora declarou estranhar as declarações da vereadora, já que, na mesma sessão da CPI, esta semana, dois outros vereadores depoentes, Roberto Virgens Moura (PTdoB) e Gileno Alves dos Santos (PSDC), sustentaram as denúncias e garantiram que as famílias recebiam valores que variavam de R$ 100 a R$ 400 pela entrega dos bebês à adoção ilegal.

Para agravar a situação, ainda segundo a deputada, os processos ilegais podem ter sido facilitados por membros do Conselho Tutelar de Encruzilhada, que tem em seu quadro uma sobrinha e uma filha da vereadora. “Houve tráfico de crianças no caso das doações ilegais de Encruzilhada”, sustentou a relatora, acrescentando que, conforme as investigações preliminares há casos até mesmo de mães que entregam os filhos em troca de uma cesta básica de alimentos.

Facilidade A aproximação da vereadora com as mães não era difícil.

Valendo-se de cargo público como auxiliar de enfermagem em unidade de saúde da família, e paga pela Secretaria de Atenção à Saúde (órgão vinculado ao Ministério da Saúde), Bete tinha contato direto com as gestantes que buscavam atendimento.

Em conversa com as gestantes, a vereadora Bete prometia ajuda financeira ou de saúde em troca da criança.

Assim, era só aguardar o nascimento do bebê para que ela mesma se encarregasse de acompanhar o processo de adoção, entregando a criança ao casal interessado previamente contatado via e-mail.

As provas sobre o esquema fazem parte do inquérito policial e constam na denúncia oferecida contra ela, na última quarta-feira, pelo promotor de justiça Márcio de Oliveira Neves.