“(…)entre mim e o governador Jaques Wagner existia o PT, um partido que estava dividido, que não se encontrava.”

 O senador César Borges (PR), um dos mais bajulados entre os postulantes ao governo do estado, e que decidiu abraçar o projeto de eleição majoritária do deputado Geddel Vieira Lima (PMDB), conta ao Bahia Notícias os detalhes das negociações. Em um bate-papo descontraído, o republicano revela o que mais pesou na balança para se aliar ao peemedebista. O político esclareceu também o que pensa do governador Jaques Wagner e do PT. Mais do que entusiasmado com o matrimônio com o PMDB, Borges já dá dicas de qual será a sua pauta de campanha.

 Bahia Notícias: Senador conta para os nossos leitores qual foi o fator fundamental para que o senhor definisse a aliança com o deputado Geddel Vieira Lima?

César Borges: O fator fundamental foi que nós encontramos no PMDB, um partido aberto, generoso, com um bom projeto para a Bahia e que aceitou o PR como parceiro. Primeiro abrindo a vaga para a chapa majoritária e abrindo a coligação ampla para deputados estaduais e federais, e também em reconhecer o Geddel Vieira Lima como um ministro competente, que trabalhou muito pela Bahia, com competência, com determinação e uma pessoa que tem garra para trabalhar. Quer dizer, um baiano com garra que quer fazer o melhor pelo seu estado. É um homem relativamente jovem. Eu cheguei ao governo do estado com 48 anos e Geddel eu acho que deve estar com 51. Então eu acho que ele está aí pronto para desafios, para colocar a Bahia no caminho do desenvolvimento e colocar a Bahia avançando em todos os campos do serviço púbico como segurança, saúde, estradas. Então é por isso que eu acredito que esse é o projeto melhor e abracei esse projeto. Além de que tem o fato que estamos alinhados no nível federal com o apoio à ministra Dilma Rousseff (pré-candidata do PT à Presidência da República).

BN: O que o PR espera de resultados concretos nestas eleições, após essa aliança?

César: Bom, primeiro a eleição de todos os candidatos da chapa majoritária, se possível. A eleição do ministro Geddel conseqüentemente o seu vice-governador, a eleição dos dois senadores, como a minha eleição já que eu serei um dos candidatos na chapa, que isso já está definido. Construir uma bancada forte de deputados federais, que hoje nós temos quatro deputados e queremos fazer de cinco a seis e dos deputados estaduais que hoje nós temos seis, se possível aumentar também essa bancada para sete ou oito deputados.

BN: Por falar em deputados, qual será a postura do partido em relação aos parlamentares que caminham com outros grupos, a exemplo do deputado Sandro Régis, que está ligado ao grupo do ex-governador Paulo Souto (DEM)?

César: Olhe, não é só em relação ao deputado Sandro Régis, mas em relação a qualquer deputado, o que nós colocaremos inicialmente é o PR na Assembleia no bloco da oposição junto com o PMDB e os outros partidos de oposição. Também vamos procurar que todos os deputados entendam que quando eu fiz a coligação com o PMDB, o fiz pensando na reeleição dos deputados, porque foi o partido que ofereceu. Alias o DEM também oferecia esse tipo de oportunidade, mas já tinha uma outra dificuldade que é o alinhamento a nível federal. Então nós queremos que os deputados entendam que há uma disciplina partidária que nós temos que caminhar com este bloco, porque é ele que oferece a possibilidade de reeleição dos deputados.

 

“Isso é uma coisa que o governador tinha que fazer e eu fiquei no aguardo que fosse feito. Mas não foi feito.” 

BN: O senhor postula algum cargo institucional no governo federal?

César: Absolutamente, isso é colocar o carro diante dos bois. Eu estou tentando sim, a minha reeleição pelo trabalho que eu tenho feito pelo Senado e procurando o melhor projeto. Então eu acho que quando os três postulantes (ao governo da Bahia) consideraram a possibilidade de eu participar das chapas, nada mais é do que um reconhecimento pelo trabalho voltado aos interesses da Bahia, mas também com projetos sociais importantes, de um senador atuante, presente. Esse reconhecimento é muito bom, não só em relação aos postulantes, mas o reconhecimento da população baiana, porque eu sempre disse que o meu partido é a Bahia. A minha satisfação a minha obrigação e o meu dever é com o meu eleitor.

BN: O senhor tem conversado com as bases a respeito da repercussão desta recente aliança?

César: Ah sem sombra de dúvidas. Eu vinha conversando muito com as bases. De um modo geral eu me sentia muito confortável porque todos me diziam assim: adote a decisão senador que o senhor achar melhor e mais conveniente para o seu partido, para a conjuntura política, que nós estaremos com o senhor, mesmo que discordemos a nível de candidato e outra posição, por exemplo a do governador (Jaques Wagner, do PT). Agora com Geddel Vieira Lima, eu vejo as pessoas aplaudindo e dizendo que eu tomei a melhor decisão, a decisão que foi a mais conveniente para o PR e para a minha candidatura. Eu acredito que foi uma decisão, para o meu eleitor, muito bem vinda e aceita.

BN: Agora em relação às suas conversas com o grupo do governador, o senhor chegou a dizer que não sentiu sinceridade do PT nas negociações. Onde faltou essa sinceridade?

César: Veja bem, no PT foi uma negociação que eu daria todo crédito ao governador Wagner. Não partiu de uma iniciativa minha de César Borges, partiu de uma iniciativa do próprio governador Jaques Wagner que através de amigos comuns, que fizeram com que nós fossemos conversar. E dentro de uma perspectiva de uma política mais aberta, mais republicana, mais democrática, eu acho que nós não devemos ter barreiras para conversar, quando se coloca em primeiro lugar o interesse do estado. O que aconteceu é que nós começamos uma conversa, em alto nível, e a concluímos em alto nível também. Entretanto, entre mim e o governador Jaques Wagner existia o PT, um partido que estava dividido, que não se encontrava. Para uma aliança que uma parte é a favor e outra parte não, para uma aliança que é feita para a chapa majoritária e que não é feita para a proporcional, é claro que fica difícil que seja de êxito uma aliança nesse nível.

 

“Sem o social, você faz um desenvolvimento caolho, que só cresce para o lado daqueles que mais têm, é frio.” 

BN: Além dessa questão da proporcional, pesou na balança a resistência de alguns petistas, principalmente os de esquerda?

César: Não é que pesou a resistência de alguns políticos. O partido é que não estava unido na decisão. E é claro que como o início da conversação se deu com o governador, não seria competência da minha parte fazer orientação dentro do partido. Isso é uma coisa que o governador tinha que fazer e eu fiquei no aguardo que fosse feito. Mas não foi feito e não fechei as portas para conversar com outros partidos. Eu sempre colocava na mídia escrita e falada que eu estava aberto ao diálogo, inclusive num artigo que publiquei no jornal A Tarde, quando disse que estava conversando com todas as forças políticas.

BN: É verdade que o deputado ACM Neto (DEM) ajudou para que o senhor fechasse com o PMDB ao invés do PT?

César: Não, o deputado ACM Neto é meu amigo, mas ajudar como? Como ele iria ajudar? Era uma decisão minha e dos meus companheiros de partido. Quem eu procurei ouvir foram os meus companheiros, desde o presidente nacional do partido, ministro Alfredo Nascimento, como outros deputados baianos federais e estaduais. Inclusive em uma quinta-feira nós tivemos uma reunião prolongada, que passou pela madrugada, procurando um consenso dessa posição. O consenso que apontou o melhor para o partido, o melhor para a candidatura de César Borges era se alinhar com o PMDB.

BN: Na chapa de Geddel, quem o senhor acha que pode ser o melhor nome para fazer dupla com o senhor no Senado?

César: Não acho. É uma decisão que quem vai tomar é Geddel Vieira Lima. Apenas ele me disse que conversará comigo, o que eu agradeço. Mas essa é uma decisão que sempre será tomada por parte do candidato.

BN: Na política, o legado é de que nunca diga que dessa água nunca beberei. Com relação ao PT baiano, o senhor descarta completamente uma aproximação com eles?

César: Para essa eleição, no meu ponto de vista, essa é uma decisão definitiva e o assunto está resolvido.

BN: Arrisca algum palpite em um possível segundo turno?

César: Se depender de mim, Geddel leva no primeiro turno.

BN: Agora vamos falar sobre os investimentos da Ford na Bahia. O senhor teve participação fundamental para que o crescimento dos recursos aqui no estado, conta um pouco até que ponto César Borges é responsável por esse crescimento.

César: A minha participação na Ford vem desde o início. Me lembro que fui contatado pelo deputado José Carlos Aleluia, que tinha tido uma conversa com então presidente da Ford, Ivan Carvalho, me perguntando se poderia eu receber o presidente. E óbvio, eu disse claro, traga ele agora. Quase que no dia seguinte ele veio para cá e eu disponibilizei um helicóptero. Ele sobrevoou a área disponível e toda a infraestrutura existente na Bahia. Eu assumi os compromissos necessários que o Estado poderia dar de segurança para que a Forf viesse mesmo para cá. Então travou-se uma luta no Congresso Federal, para dar incentivos fiscais federais e a participação do senador Antonio Carlos Magalhães foi decisiva. Ele era o presidente do Congresso, houve um momento que o presidente do país teve dificuldades, mas felizmente esses incentivos saíram por causa da presença forte da Bahia, a nível do cenário federal. E a Ford implantou-se em menos de dois anos na Bahia.

BN: E de que forma entra essa Medida Provisória que o senhor relatou recentemente?

César:  É que esses incentivos fiscais tiveram prazo de duração de dez anos. A Ford começou a recebê-los no ano de 2000 e encerrava agora em 2010. Então era preciso prorrogar e já algum tempo a Ford conversava comigo e eu sempre dizia que quem pode liderar esse assunto é o governador do Estado, até pela sua posição institucional e pela proximidade com o presidente da República. A coisa fluiu bem, o presidente Lula teve sensibilidade com o Nordeste, editou uma Medida Provisória que prorroga esses benefícios até 2015. Entretanto esses benefícios foram condicionados a novos investimentos. E esses investimentos que no início era de R$ 4 bilhões, chegam agora a R$ 4,5 bilhões, no Brasil, sendo que deste montante, R$ 3 bilhões serão só na Bahia, estado que também foi escolhida para ser um dos cinco centros de designer e desenvolvimento de produtos da Ford do mundo inteiro. Isso só existe em país desenvolvido. O único que será em país emergente é aqui na Bahia, em Camaçari. Esses dados deixam os dirigentes da montadora muito satisfeitos. Recentemente recebemos em Brasília o presidente mundial da Ford, Alan Mulally. Ele veio, eu fiz o seu acompanhamento no Congresso Nacional. Ele esteve com o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB), esteve com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB), para agradecer a tramitação rápida dessa Medida Provisória 471, lá no Congresso. Quem relatou na Câmara foi o deputado José Carlos Aleluia (DEM), quem relatou no Senado fui eu. E  foi aprovado como mandou o Executivo.

BN: O senhor vai explorar esses benefícios conquistados em sua campanha eleitoral?

César: Com certeza. Eu acho que o político tem que apresentar o que ele faz e muitas vezes o eleitorado cobra o que ele não fez. É claro que eu vou apresentar o que eu fiz no Senado e eu acho que o que fiz é que me credencia hoje e eu agradeço muito esse reconhecimento do povo da Bahia a ter uma posição de liderança para o Senado. Quem acompanha um pouco a TV Senado, a Rádio Senado ou mesmo a grande mídia ver a atuação. Eu calquei o meu trabalho em cima de duas áreas: um desenvolvimento, para criar emprego e renda, a outra em na área de projetos sociais. São vários projetos na área social para atender o idoso, a empregada doméstica, para diminuir o imposto de renda do aposentado. São vários projetos nessa área, além de uma defesa que eu  fiz sobre uma representação melhor das Câmaras Municipais de Vereadores de todo o estado e sou municipalista.

BN: É inquestionável que o senador tenha credibilidade com muitos prefeitos do interior. O que os gestores podem esperar ainda mais do senhor?

César: Muito mais dedicação, por exemplo o pré-sal. Sobre essa grande discussão dessa riqueza a ser explorada pelo Brasil, o que nós queremos é que ela seja melhor distribuída para todos os municípios e estados brasileiros. Hoje a distribuição dos royalties fica muito concentrada nos estados produtores e na União. E essa riqueza tem que ser melhor distribuída porque todo o país merece crescer economicamente.

BN: Para finalizar, qual foi o seu principal aprendizado, como aliado do presidente Lula?

César: O principal ponto defendido pelo presidente é que ele acha que desenvolvimento econômico só será verdadeiro e real quando se tiver inclusão social. Essa é a grande conquista, ao meu ver, do presidente Lula. É claro que há as conquistas macroeconômicas, de manter a inflação controlada, o país cresceu, mas o mais importante e o meu aprendizado vai para área social. Sem o social, você faz um desenvolvimento caolho, que cresce só para o lado daqueles que mais têm, é frio. Como se faz isso? Com aumento de renda, com geração de emprego, com oportunidades. E isso aconteceu, tanto que os números são extremamente favoráveis quando se diz que houve redução da pobreza, houve ascensão de classes sociais. A classe média cresceu, porque houve muita gente que saiu das classes D e E e vieram para a C. O consumo ampliou o crédito cresceu. Hoje você pode comprar o seu televisor, a sua geladeira a um longo prazo. Então eu acho que esse foi o meu grande aprendizado do governo Lula e acho que o Brasil deve continuar com esse caminho.

 do Bahia Notícias