O quinto aniversário do pontificado de Bento 16, que hoje completa 83 anos de idade, será celebrado na próxima segunda-feira (19) envolto em uma das maiores crises da Igreja Católica, cujos padres em diversas partes do mundo estão sendo acusados de casos de pedofilia. No passado, 30 padres suspeitos de pedofilia foram transferidos a outros países, dois deles ao Brasil, informa reportagem publicada nesta sexta-feira pela Folha.

“A Igreja é santa e pecadora. Ao mesmo tempo, ela deve sempre ter a humildade de bater no peito diante dos seus pecados”, explica o arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Geraldo Majella Agnelo, que participou do conclave que elegeu Joseph Ratzinger como papa em 19 de abril de 2005.

Ex-arcebispo de Munique e Freising (1977-1982) e ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (1981-2005), Bento 16 tem sido duramente criticado pela mídia ao redor do mundo, que o acusa de ter acobertado padres pedófilos quando ainda não era pontífice. Tais questionamentos se somam aos milhares de casos de abusos que teriam sido cometidos por religiosos, reportados em várias partes do mundo.

Diante destas acusações, a Santa Sé tem promovido algumas iniciativas. “O papa reconhece e começa com um esforço. A Igreja deve tomar a peito, fazer uma purificação interna”, complementa Dom Geraldo Majella, que admite que Ratzinger enfrenta “um momento difícil” e “uma época de grande contestação do papel” da instituição católica.

Algumas das declarações emitidas por cardeais do Vaticano para tentar gerenciar a crise acabaram por aumentar a polêmica. Durante a Páscoa, o franciscano Raniero Cantalamessa comparou o tratamento recebido pela Igreja durante os escândalos com o Holocausto, dizendo que os padres seriam vítimas de perseguição tal qual os judeus foram durante a Segunda Guerra Mundial.

A indisposição com o povo judeu e diversos líderes e organizações em vários países agravou a crise durante a Semana Santa, e posteriormente o cardeal teve que pedir desculpas públicas pelas afirmações.

Atuação do papa

Para Elisa Pinna, chefe dos correspondentes da agência italiana Ansa no Vaticano, mesmo antes de assumir o cargo Bento 16 tinha consciência da gravidade da pedofilia.

“Acredito que, como papa, ele queira continuar essa batalha, mas precisa de apoio, porque há uma resistência incrível, grosseira” dentro da própria Igreja Católica, esclarece a jornalista italiana.

A carta pastoral publicada em 20 de março passado aos fiéis da Irlanda — um dos países onde as denúncias de pedofilia são mais intensas — seria uma indicação do trabalho do pontífice. No texto, ele expressa vergonha e exige que os bispos cooperem com as autoridades nas investigações.

Sob o seu comando, na última segunda-feira, o Vaticano também divulgou as orientações dadas aos bispos sobre como proceder canonicamente frente a suspeitas de pedofilia, como a comunicação do episódio às forças civis todas as vezes em que houver constatação das denúncias.

Demora

“Entre a carta aos irlandeses e a decisão de entregar os responsáveis à justiça civil, levou um grande tempo”, opina o religioso Frei Betto, um dos maiores expoentes da Teologia da Libertação no Brasil.

O frade dominicano diz ainda esperar que a discussão sobre a pedofilia sirva como base a debates mais amplos e considerados imutáveis segundo o direito canônico, como a postura em relação ao celibato, a ordenação de homens e mulheres casados e o homossexualismo.

“Há males que vêm para o bem. Está reabrindo a discussão sobre essa obsessão que a Igreja tem sobre a condição sexual. O pecado maior não é o sexo, é a opressão, a injustiça, o uso de armas”, completa.

Desgastada, a Igreja Católica se prepara para comemorar na próxima segunda-feira o “Dia do Papa”, que contará com uma série de festejos e eventos. As homenagens podem alegrar o Pontífice que, segundo fontes próximas, está “muito triste”. Ele celebrará a data ao retornar de sua primeira viagem internacional no ano, às ilhas de Malta.

Transferências

Um levantamento da agência de notícias Associated Press em 21 países mapeou 30 casos de padres suspeitos de abusos sexuais que foram transferidos para outras nações. Dois deles se relacionam com o Brasil, de acordo com reportagem publicada nesta sexta-feira pela Folha (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL).

O primeiro é o do padre xaveriano Mario Pezzotti, acusado pelo americano Joseph Callander de abuso e de estupro, em 1993. Os crimes, dizia Callander, tinham ocorrido em 1959, quando estudou em um extinto colégio xaveriano do Estado americano de Massachusetts. O caso acabou num acordo indenizatório de US$ 175 mil. Na época, num bilhete, o padre disse que achara “a cura” no Brasil.

Mario Pezzotti saiu dos EUA para trabalhar com índios no Pará. Na Amazônia, as críticas ao clérigo geraram surpresa.

Outro caso é o do padre jesuíta Clodoveo Piazza, premiado por seu trabalho na Organização de Auxílio Fraterno, que mantém abrigos em Salvador. Italiano naturalizado brasileiro, ele chegou a ser secretário estadual de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, antes de ser alvo de denúncias de abuso e exploração sexual.

Em 2009, a Promotoria acusou a ele e a um colega de ONG com base em relatos de vítimas segundo as quais não só ambos abusavam como deixavam que estrangeiros em visita ao país o fizessem.

Folha