Quando não leva à morte, o tráfico de seres humanos faz estragos por dentro. Criada no interior de Pernambuco, Lúcia Brüllhardt conta como sobreviveu ao crime na Suíça.

Tragédias reais que nem a ficção consegue reproduzir por inteiro. Personagens e capítulos tão impressionantes, que parecem inverossímeis, inventados. A história da morte da alemã Jennifer Kloker trouxe à tona o possível envolvimento de sua sogra, Delma Freire, com o tráfico de seres humanos.

Assim é também a história de sobrevivência da paulista que se criou no interior de Pernambuco, Lúcia Amélia Brüllhardt. Casos de violência que beiram o absurdo. Lúcia sentiu a crueldade do tráfico de pessoas quando entrou na Suíça. Sua história ela contou em livro.
Lúcia Amélia Brüllhardt: da lama no Nordeste à fama na Europa. Essa é a biografia de uma mulher de 43 anos, nascida em São Paulo, criada em São Bento do Una, interior de Pernambuco, e sobrevivente em Berna, capital da Suíça. Lúcia embarcou para a Europa há 21 anos. Foi como dançarina, disfarce usado por exploradores para esconder crimes sexuais e de tráfico de pessoas. Viajou pelas mãos de outra brasileira, que seria sua “anfitriã” nos caberés, saunas e clubes noturnos, redutos de prostituição para os quais a polida cidade europeia ainda fecha os olhos. Como “dançarina”, era também obrigada a beber com clientes, usar drogas e fazer silêncio sobre os abusos que sofria.
Lúcia foi “dançarina” durante dez anos. Foi até a tarde em que se jogou à frente de um carro. Sentia “nojo” dela mesma. Lúcia hoje é pastora e cantora na Suíça. Faz palestras no mundo com o tema tráfico de seres humanos para exploração sexual e atua como tradutora quando alguma brasileira é levada à polícia. Participa ainda do Exército da Salvação é fundadora da Ong Madalenas, que dá suporte a mulheres vítimas de violência. Há três anos, está casada com um suíço. É mãe de três jovens e prefere não se expor em fotos. Por telefone, Lúcia contou ao Diario de Pernambuco como sobreviveu ao esquema do crime que transforma pessoas em coisas. São trechos que complementam a obra lançada na Bienal do Livro de Pernambuco, em 2009.

Anatomia do crime
“A minha chegada no aeroporto de Zurique foi de calça jeans e blusa. A pessoa que tinha marcado comigo estava em Genebra e marcou o encontro em uma terceira cidade. Saí do Brasil falando oxente e pensando que o dinheiro era dólar. No Recife, eu tinha na cabeça que ia ser dançarina de streap tease. Por noite, eu ia ganhar 150 euros (R$ 365). Até você, repórter, jogaria fora a caneta e ia. Em 5 meses, tempo do visto, eu ia ter grana, voltar para o Brasil, ter minha casa, montar meu negócio e vencer.
O grupo que me emprestou o dinheiro da passagem ainda existe e a pessoa que me esperou já foi presa por tráfico de pessoas. Dá mais dinheiro do que drogas. Além disso, existe o consumo de álcool, que é o lucro das casas noturnas. Se não fizer o cliente consumir, vai para fora. Vi muitas em coma no hospital. Bebem até de manhã e só tomam sopa pronta. E as que estão em clínicas psiquiátricas? Ou nas ruas?
Agora, me pergunte o que eu fiz com o dinheiro, que eu não sei. Passava final de semana em Paris, mas não era feliz. Enquanto estava com o pessoal granfino, dos perfumes, roupas de marca, tudo bem. Sozinha em casa, aquela alegria não existia. Era falsa”.


Do interior da revolução

Eu nasci em São Paulo, morei em Vitória (Espírito Santo), São Bento do Una e Recife. Foram 17 mudanças. Foram 17 vezes que meu pai tentou matar a mim, minha irmã e minha mãe. Foram 17 vezes que meu pai ou botou fogo em casa, puxou revólver ou quebrou tudo. A minha infância foi tão má, que aos nove anos fiz minha primeira tentativa de suicídio. Fui parar no hospital infantil. Meu pai era motorista na polícia, me algemava e dizia ‘se você virar marginal, é isso que eu vou fazer com você’.
Quando jovem, passei a reproduzir meu pai. Ficava bêbada, quebrava a casa. Ele nunca me quis. Ele sonhava em ter um filho homem. Mas eu já perdoei o meu pai. Aos 14 anos, em São Bento, eu já estava casada. Foi uma fuga. Amar eu amo o meu marido hoje. Quando pensei que teria liberdade# Fui embora para o Recife, deixando meu filho com minha avó e minha mãe. Me tornei um escândalo. Naquela época mulher tinha que ser sofredora e obediente”.

Do cacto, os espinhos
“Passei em 18º lugar no vestibular de história da Faculdade de Formação de Belo Jardim. Queria uma bolsa para estudar fora do Brasil, mas aos 19 anos, parei os estudos. Só que nunca fui de olhar para trás. Fugi de São Bento para o Recife às 4h da madrugada, em um carro de galinha. Minha mãe disse ‘você vá e não volte nunca mais’.
Fiquei em um apartamento de estudantes, no Centro do Recife. Nos classificados, li ‘escritório de advocacia procura auxiliar’. Às 7h do dia seguinte, eu estava lá. Ganhei o emprego porque atendi o telefone com um bom dia. Com o o salário, mudei de casa. Lembro de um cacto, presente que me dei de aniversário. Nesse tempo, minha mãe me visitava com meu filho. Mas naquela turma de estudantes, já tinha moças viajando para fora. Diziam que eram babás, modelos. Ficava curiosa. Daí começou o meu pesadelo. No Recife, eu era feliz e não sabia”.

O resgate de Lúcia

“A minha vida hoje é nas palestras sobre tráfico humano e exploração sexual. Viajo, mas vou também nas escolas e onde brasileiras estão, como sauna e cabarés. Às vezes desanimo, porque 90% das brasileiras se acabam na prostituição. É um mundo brutal. Depois que elas estão aqui, é difícil fazer algo. Quem enriquece rápido na Suíça ou é prostituta ou traficante de drogas. Mas não tem garantia de vida.
Minha vida na Suíça começou a mudar depois que tentei me matar, em 2001, em Berna. Me joguei na frente de um carro. Ao mesmo tempo que eu via tudo que estava ao meu redor, me via caída no chão, com sangue no rosto. Via a polícia, a ambulância e as pessoas ao meu redor. Fui socorrida no spital Bern (hospital de Berna). Quando voltei para casa, senti a angústia de novo. Procurei comprimidos numa gaveta,mas encontrei uma Bíblia mínima. Abri nem sei por quê. Estava escrito: ‘e não haverá mais morte. Não haverá mais rancor. Porque todas as coisas já passaram e eu farei tudo novo’. Antes de ser representante do Exército da Salvação e do projeto Madalenas, trabalhei num grande instituto de beleza e na Rolex, na cidade de Bienne”.

Geografia do tráfico de pessoas

– O crime de tráfico de seres humanos (TSF) para fins de exploração sexual é tipificado no artigos 231 e 231-A do Código Penal (CP) brasileiro. O crime envolve também tipos penais como favorecimento à prostituição e manutenção de casa de prostituição, previsto nos artigos 228 e 229 do CP, e entrega de filho à pessoa inidônea, previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente
– O Protocolo de Palermo (ONU), do qual o Brasil é signatário desde 2000, define como tráfico de pessoas: “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou ao uso de força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridades ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamento ou benefício para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra. A exploração, inclui, no mínimo, a exploração da prostituição, os trabalhos ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares à escravatura ou a remoção de órgãos”
– Pernambuco foi o 1º estado do Brasil a instituir um plano enfrentamento ao tráfico de pessoas, em 2008. Pernambuco conta com o Comitê de Prevenção e Enfrentamento e Combate ao Tráfico de Seres Humanos, formado por representantes de órgãos do governo e organizações civis
– 98% das vítimas brasileiras do tráfico para fins de exploração sexual são mulheres e 2% são homens, adolescentes e crianças.
– A maioria das vítimas pernambucanas tem idade de 18 a 36 anos e são de classes de baixa renda
– US$ 32 bilhões é que movimenta o tráfico de seres humanos, por ano
– A região Nordeste tem 14 rotas intermunicipais, 20 interestaduais e 35 internacionais
– O países que mais aparecem nas rotas internacionais do tráfico a partir do Brasil são: Espanha, Holanda, Venezuela, Itália, Portugal, Paraguai, Suíça, Estados Unidos, Alemanha e Suriname

Fontes: Pesquisa e diagnóstico do tráfico de pessoas para fins de exploração seuxal e de trabalho no estado de Pernambuco e Pesquisa sobre Tráfico de Mulheres, Crianças e Adolescentes para. Fins de Exploração Sexual (Pestraf).

DP/Notícias Cristãs