O Supremo Tribunal Federal (STF) tomou ontem uma decisão que tende a ampliar a disputa judicial em torno de remédios e tratamentos caros. Os ministros entenderam que, quando o paciente não tem condições financeiras, o poder público tem o dever de garantir os medicamentos e procedimentos médicos – mesmo que não apareçam na lista do Sistema Único de Saúde (SUS).

Amedida foi tomada no julgamento de nove recursos para suspender determinações judiciais que mantinham a cobertura do SUS nesses casos. Em uma delas, o Estado de Alagoas contestava o Tribunal de Justiça, que determinou o fornecimento de um remédio usado no tratamento da leucemia. O paciente afirmou não dispor de condições financeiras para arcar com os custos do tratamento calculado em R$ 162 mil. Em outra ação, o Estado do Ceará recorreu da decisão que garantiu a cinco pacientes o recebimento de medicamentos de alto custo empregados contra o Alzheimer, câncer e artrite reumatoide.

Segundo juristas, a decisão abre precedente para novas ações contra a União, Estados e municípios. Isso porque indica o entendimento que o Supremo deverá adotar nos julgamentos sobre o assunto. A medida ainda terá repercussão em todas as ações sobre o tema no Judiciário.

Os ministros reconhecem, porém, que a decisão amplia a chance de uma enxurrada de ações contra o SUS. Para evitá-la, o ministro Ricardo Lewandowski sugere que o Supremo estabeleça requisitos para que procedimentos, exames e remédios sejam assegurados aos pacientes sem condições de custear seu tratamento. Lewandowski manifestou preocupação com tentativas de fraudes e comércio clandestino.

Apesar de julgar favoravelmente aos pacientes que precisam de medicamentos e tratamentos de alto custo, o ministro Gilmar Mendes foi cauteloso para que cada caso seja avaliado sob critérios de necessidade.

Ele disse que obrigar a rede pública a financiar toda e qualquer ação e prestação de saúde existente geraria grave lesão à ordem administrativa e levaria ao comprometimento do SUS, de modo a prejudicar o atendimento da população.

Mendes diferenciou tratamentos experimentais daqueles já reconhecidos, mas não testados pelo sistema de saúde brasileiro. Para ele, no primeiro caso, o Estado não pode ser condenado a fornecê-los.

Terra pede bom senso

O secretário estadual da Saúde, Osmar Terra, afirmou ontem que o SUS foi criado para garantir o acesso a medicamentos e outros procedimentos a toda a população brasileira.

Ele critica, no entanto, o mau uso dos recursos públicos.

– O que não dá é para usar essa prerrogativa para beneficiar algumas empresas. O lobby dos laboratórios impõe gastos desnecessários, e isso precisa ser combatido. Apelo para o bom senso da Justiça para isso – apontou Terra.

Entenda o caso

– A decisão amplia as chances para que pacientes procurem a Justiça em busca de tratamentos e remédios.
– A medida vale mesmo para aqueles tratamentos que, muitas vezes, ainda não têm previsão de cobertura do Saúde (SUS)
– Os Estados e os municípios costumam contestar esses procedimentos ou remédios porque eles ainda não foram aprovados pelo sistema de saúde brasileiro.
– Para o poder público, os testes são essenciais para comprovar a eficácia
– Além disso, por serem novos, esses remédios e procedimentos tendem a ser mais caros

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