ROMA – À medida que surgem novos detalhes sobre abusos sexuais de crianças por religiosos na Arquidiocese de Munique, então liderada por Joseph Ratzinger, o Vaticano veio a público defender o Papa Bento XVI neste sábado contra o que chamou de uma campanha agressiva contra ele na Alemanha. Ao mesmo tempo, um alto funcionário do Vaticano que supervisiona investigações internas reconheceu que 3 mil casos de suspeita de abusos sexuais nos últimos oito anos foram levados à sua atenção na década passada, dos quais 20% foram a julgamento em cortes da Santa Sé.

Em uma franca entrevista ao jornal “Avvenire” (da Confederação dos Bispos Italianos), o monsenhor Charles J. Scicluna, promotor da Congregação para a Doutrina da Fé, a mais antiga das nove comissões da Cúria Romana, classificou como “falsas e caluniosas” as acusações de que o Papa encobriu os casos de abuso quatro anos antes de se tornar Pontífice, quando ainda era prefeito do escritório do Vaticano.

Por outro lado, o monsenhor reconheceu que, das 3 mil denúncias de abusos a menores na última década, 80% ocorreram nos Estados Unidos. Segundo Scicluna, 300 padres foram acusados de pedofilia nos últimos nove anos. Os episódios envolvem religiosos e sacerdotes em casos ocorridos em 50 anos.

“Até 2009 a porcentagem americana diminuiu, passando a representar 25% dos 223 novos casos denunciados em todo o mundo. Nos últimos anos (2007 a 2009), a média anual em todo o mundo registrada na Congregação é de 250 casos. Muitos países assinalam só um ou dois casos. Aumenta, portanto, a diversidade e o número de países de procedência dos casos, mas o fenômeno é muito limitado. Tem que levar em conta que são 400 mil sacerdotes e religiosos no mundo. Essas estatísticas não correspondem à proporção criada quando casos tão tristes ocupam as primeiras páginas dos jornais”, disse o monsenhor.

De acordo com Scicluna, as acusações relativas aos 3 mil casos estão sendo analisadas pelo Vaticano. Porém, o monsenhor afirma que não é correto definir os sacerdotes como pedófilos: “Podemos dizer, a grosso modo, que em 60% desses casos trata-se nada mais do que ‘ebofilia’, ou seja, atração física por adolescentes do mesmo sexo. Outros 30% se referem a relações heterossexuais e 10% a atos de pedofilia verdadeira e própria”, afirmou.

Em um esforço para aliviar as pressões sobre o Pontífice, o porta-voz do Vaticano, reverendo Federico Lombardi, disse ser “evidente que nos últimos dias houve aqueles que tentassem, com uma certa tenacidade agressiva, em Regensburg e Munique, encontrar elementos para envolver o Santo Padre pessoalmente em casos de abuso”. Segundo ele, a tentativa de ligar Bento XVI ao fato fracassou.

O Vaticano também buscou defender o Papa das críticas de que a medida da Santa Sé que exige sigilo em casos de abuso é equivalente à obstrução da Justiça em tribunais civis. “Sigilo durante a fase de investigação serve para proteger o nome das pessoas envolvidas, primeira e especialmente as vítimas, além dos padres acusados”, defendeu o monsenhor durante a entrevista ao jornal italiano.

O Globo