“Eu ouvi meu marido morrer. Falava para ele voltar para casa quando ele disse ‘É a polícia!’ Só ouvi os disparos e o telefone ficou mudo e, depois, na caixa”, relatou, trêmula, a esposa de Bruno Rafael Santana, 24, que pediu para não ser identificada. Ela foi uma das quatro testemunhas ouvidas ontem pelo delegado titular da 2ª CP (Delegacia da Liberdade), Miguel Cicerelli, sobre a ação policial no bairro do Pero Vaz, que resultou na morte de quatro pessoas e desaparecimento de outras quatro, duas delas menores de 18 anos.

As mães de Érica dos Santos Calmon, 15, e Alessandra de Jesus Santos, 17, duas das jovens desaparecidas, disseram que estão recebendo ameaças. “Mandaram eu parar com isso porque meu filho também poderia ser assassinado”, afirmou a mãe de Alessandra, Cátia Santos de Jesus, 34. “Tudo o que eu quero é dar um enterro digno a ela”, disse, sem esperança de ver a filha com vida.

Na próxima segunda-feira, os pais de Érica vão fornecer amostras de sangue para testes comparativos de DNA com o material recolhido no cadáver encontrado na última terça-feira (09). “Tenho certeza, é minha filha, mas só minha palavra não vale”, disse a comerciante Natalice  Fernandes dos Santos, 34, que procurou o Ministério Público para denunciar as ameaças que vem recebendo.

O delegado responsável pelo caso, Miguel Cicerelli, já colheu ao todo 20 depoimentos, entre eles os dos sete policiais que participaram da ação. “Até o final do inquérito, serão mais 25 pessoas”, disse. Cicerelli trabalha com duas hipóteses, a partir dos depoimentos de testemunhas, policiais e provas periciais. “Mandaremos ao Ministério Público um inquérito muito bem fundamentado de provas periciais”, disse.

Versões – No último dia 4, policiais da 37ª CIPM (Liberdade) e da Rotamo (Ronda Tático Motorizada), sob o comando dos tenentes Ualisson Silva e Raimundo Gomes Barreto, respectivamente, atendiam a uma chamada dando conta de que havia festa com traficantes armados na Rua do Bambolê, Pero Vaz.

Os policiais disseram que houve uma troca de tiros onde foram mortas quatro pessoas. A versão dos familiares e moradores do bairro é que não houve festa e a PM teria executado oito pessoas, ocultando quatro  cadáveres. Um protesto para pedir prisão preventiva dos policiais chegou a ser marcado para ontem à  tarde, em frente à sede do MP, mas não ocorreu.

*Colaborou Sidnei Matos

A Tarde