Além de contratar parentes de dois senadores e do então diretor-geral do Senado, o I Censo do Interlegis também recrutou pesquisadores por meio da indicação de outros oito gabinetes do Senado para o levantamento realizado em 2005. Os senadores e ex-senadores que puderam indicar recenseadores entre funcionários e ex-servidores comissionados para a pesquisa nas câmaras municipais nos seus estados foram: Tião Viana (PT-AC), Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), Leomar Quintanilha (PMDB-TO), Alvaro Dias (PSDB-PR), Osmar Dias (PDT-PR), Paulo Paim (PT-RS), Aelton Freitas (PR-MG) e Ana Júlia Carepa (PT-PA).
 
Como revelou o Congresso em Foco em outras três reportagens, uma sobrinha do senador Heráclito Fortes (DEM-PI) foi contratada para o trabalho, assim como três irmãos do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia e um primo do então primeiro secretário e colega de partido de Heráclito, o senador Efraim Morais (DEM-PB).

Interlegis contratou parentes de Agaciel em censo

Efraim indicou parente para censo do Legislativo

Censo do Interlegis contratou sobrinha de Heráclito

Requisito para a manutenção de um contrato de US$ 25 milhões do Senado com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o censo não teve processo seletivo e privilegiou a contratação de pessoas com ligações políticas nos estados.

Apesar da parceria, o BID informou ao site que o levantamento teria sido pago inteiramente pelo Senado. Mesmo assim, os pagamentos pelo trabalho e outras despesas do censo não foram registrados no Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (Siafi).

Viagens sem licença

Além da indicação de senadores, os funcionários de gabinetes também foram liberados para viagens pelo país sem uma licença oficial do Senado. “Fui indicado pelo senador. Ele me deixou mais à vontade para fazer as viagens, mas isso não atrapalhou meu trabalho aqui no Acre”, confirma Marcelo Ribeiro de Moura, assessor comissionado do senador Tião Viana (PT-AC). Marcelo fez o trabalho para o Interlegis na capital do Acre onde trabalha para o senador do PT e em mais cinco cidades do interior do estado e em três cidades do Amazonas. 

Fábio de Andrade Souto Ribeiro e Roselaine de Lima Polidoro fizeram juntos a aplicação dos questionários em 45 municípios gaúchos. Fábio ainda trabalha no gabinete de apoio do senador Paulo Paim (PT-RS) em Porto Alegre e Roselaine foi exonerada em fevereiro de 2005, antes de fazer a pesquisa para o Interlegis entre julho e setembro do mesmo ano.

A assessoria de Paim também confirma as indicações e revela que os dois recrutados tiveram dificuldade para receber reembolso das despesas. “Na época, perguntamos ao Senado e foi respondido que a pesquisa seria feita aproveitando o conhecimento da região de cada nome indicado. Foi dada uma ajuda de custo para hospedagem e gasolina. Houve dificuldade para receber o que realmente gastaram”, diz a assessoria de imprensa de Paim.

No caso do senador Alvaro Dias (PSDB-PR), as indicações beneficiaram o ex-funcionário Oclécio de Freitas Meneses e Paulo de Tarso de Oliveira Abbas, que ainda trabalha para o parlamentar no seu escritório político em Curitiba. Os dois realizaram a pesquisa em 71 dos 399 municípios paranaenses. O senador do PSDB alega que os dois não eram funcionários na época da realização do censo, mas que foi procurado pelo Interlegis para indicar os ex-funcionários.

Outras 56 câmaras municipais do Paraná foram visitadas por André Ricardo Bartelli, que trabalhou para o senador Osmar Dias (PDT-PR). A assessoria do senador alega que Ricardo não trabalhava mais no gabinete quando fez o levantamento para o Interlegis, mas a reportagem localizou dois atos no sistema interno do Senado que contradizem a informação. No primeiro deles, o funcionário é contratado em 29 de setembro de 2005. A sua exoneração só aconteceu em 31 de agosto de 2007, e entre os mais de 500 atos secretos do Senado. Pela informações sobre o censo que o site teve acesso, Ricardo trabalhou nas cidades do Paraná entre julho e novembro de 2005.

José Osmar Claudino participou do censo trabalhando em 49 cidades de Tocantins. Ele foi funcionário comissionado do senador Leomar Quintanilha entre 2001 e 2002. Desde março de 2007, trabalha no gabinete do suplente de Quintanilha, senador Sadi Cassol (PT-TO). A assessoria do suplente de Cassol alega justamente que José Osmar não era funcionário durante o período que trabalhou para o Interlegis.

Já Marcos Alessandro Machado Cleto, que na época trabalhava para o então senador e atualmente deputado, Aelton Freitas (PR-MG), foi também indicado e fez a pesquisa em 19 cidade de Minas Gerais. Segundo a assessoria do deputado, a indicação do nome do servidor “partiu do princípio de que o servidor é natural da região onde iria trabalhar, portando, conhecedor da localidade a ser recenseada.” “Não houve qualquer formalização ou pedido de licença para que o referido servidor se ausente para participar do trabalho em questão”, confirma a assessoria de imprensa do deputado.

Joaquim de Freitas Ruiz, ex-prefeito de Iracema (RR) e ex-funcionário do gabinete do senador Mozarildo Cavalcanti, fez o censo em 16 cidades, sendo quatro em Roraima e doze no Amazonas. Joaquim chegou a ser um dos réus de ação penal por contrabando junto com o senador de Roraima. O processo foi arquivado em 17 de novembro de 2009. O ex-prefeito foi nomeado para o cargo no Senado em 28 de fevereiro de 2005 e foi exonerado em dois de fevereiro de 2006. O site não conseguiu localizar o ex-prefeito e assessoria do senador não retornou o pedido de informações do site. 

A ex-senadora Ana Júlia Carepa (PT-PA) também teve uma ex-funcionária comissionada entre os pesquisadores que trabalharam para o censo. Vera Lúcia Marques Tavares, que foi secretária de segurança pública do Pará na gestão da atual governadora, disse em entrevista ao Congresso em Foco que não estava no gabinete em Brasília quando fez o levantamento para o Interlegis. Vera Lúcia foi nomeada em quatro de outubro de 2005 e saiu em nove de janeiro de 2007, já no gabinete do suplente da senadora, senador José Nery (Psol-PA).

Mas Vera Lúcia, segundo os registros obtidos pela reportagem, fez o levantamento em três cidades das oito cidades visitadas por ela no Pará depois da sua nomeação em janeiro de 2006. “A indicação partiu das prefeituras para as quais trabalhei como advogada”, alega a ex-funcionária do Senado contestando a informação de que a indicação para o trabalho partiu de ex-senadora Ana Júlia Carepa.

Congresso em Foco