A Tarde

“Chegará um dia em que a água, de tão escassa, será mais cara que petróleo”. A previsão dos mais velhos já é realidade na castigada zona rural de Caetité, a 757 km de Salvador, onde um litro de água mineral, vendido por até R$ 3,50, chega a custar até 20% a mais que o mesmo volume de gasolina, em torno de R$ 2,80.

Diante da longa estiagem, que castiga o semiárido desde março do ano passado, e com a interdição de poços artesianos com índices de radiação acima dos limites recomendados pelo Ministério da Saúde, homens e animais disputam o líquido nas mesmas fontes. É a luta pela sobrevivência. Nada importa: nem a impureza da água, nem a anunciada e temida contaminação por urânio. Vale tudo para conseguir água, até mesmo percorrer mais de 20 quilômetros numa motocicleta ou no lombo de animal para levar pra casa 20 litros do produto.  Como nem todos podem se dar ao luxo de fazer o mesmo, a luta é cada vez mais acirrada.

Cansados de esperar uma solução definitiva para suprir o desabastecimento, alguns moradores da zona rural passaram a captar água em poços que foram lacrados por determinação do Instituto de Gestão das Águas (Ingá). Muitos não admitem o acesso aos locais interditados, porém, os que se dispõem a falar culpam a prefeitura pela pouca oferta de água em carros-pipas. Para que não falte o produto em cacimbas e tanques, onde também conduzem animais para matar a sede e irrigar lavouras.

A missão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU concluiu, na semana passada, que as atividades da mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Caetité, atendem os requisitos de segurança e que não provocam impacto significativo ao meio ambiente da região. Segundo o chefe da missão, Peter Waggit, a gestão de resíduos radioativos é “muito bem conduzida”. Uma prévia do estudo da ONU foi apresentada no Rio de Janeiro. O estudo completo só será entregue em dez meses.

Providências – O secretário municipal de Recursos Hídricos, Nilo Joaquim de Azevedo, se defende, sustentando que a prefeitura tem assistido às comunidades, apesar do que considera “custo elevado na contratação de carros-pipas”. Segundo ele, cada veículo custa R$ 6 mil por mês aos cofres públicos. Azevedo diz reconhecer a demanda e promete novas ações, além da distribuição de água em quatro carros-pipas. A administração já avalia a construção de cisternas em todas as casas situadas nas áreas que tiveram poços lacrados.

O município não estipulou data para efetivar essa obra, porém, o próprio secretário se mostra contra o funcionamento de poços no entorno da mina – embora o município jamais tenha adotado providências para mudar o quadro. “Como aqui existe muito urânio natural, em estado bruto, na área da mina nem deveria existir poço artesiano”, declarou.

Risco – Na comunidade de Barreiro, a pouco mais de 10 quilômetros do distrito de Maniaçu e nas vizinhanças da mina das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), os moradores estão temerosos desde meados do ano passado, sobretudo com a interdição do poço, aberto em 2007. O dono do poço, Tiago Alves Santos, 60, não acredita na gravidade do caso. “Se tiver algum problema com a água, todo mundo já foi contaminado porque a maioria das famílias do Barreiro fincou raízes no lugarejo há mais de 50 anos”. O Ingá deve divulgar a segunda parte dos resultados das análises de água em Caetité. De acordo com o gerente da INB, Ilton Mantovani, a empresa faz monitoramentos periódicos.